Expansão Marítima Europeia – Pioneirismo Português


O desafio dos mares

Desde a Primeira Cruzada (1097), que reabriu o Mediterrâneo às embarcações ocidentais, o consumo de artigos de luxo, ouro, prata e de especiarias do Oriente entre nobres europeus foi retomado. Durante a Baixa Idade Média, em pleno renascimento comercial e urbano, circulavam em muitas cidades europeias tecidos finos, joias, tapetes e condimentos, como gengibre, pimenta-do-reino, canela, cravo etc. Contudo, esses produtos e artigos eram muito caros, em função do monopólio comercial exercido por italianos e muçulmanos.

Expansão Marítima Europeia

Devido à situação geográfica favorável, cidades italianas como Gênova e Veneza foram privilegiadas no comércio com o Oriente. Mercadores genoveses e venezianos, aos poucos, foram estabelecendo contatos comer­ciais com muçulmanos que traziam tais produtos da Ásia até o Mediterrâneo. Deles os italianos adquiriam as especiarias e artigos de luxo e os revendiam para toda a Europa, acumulando grandes lucros.

No decorrer do século XV, participar do comércio de especiarias, bem como descobrir novas fontes de ouro e prata – metais já escassos na Europa – tornou-se vital para a sobrevivência de muitos Estados nacionais. Em 1453, os turcos invadiram o Império Bizantino, conquistando Constantinopla e dificultando a navegação de europeus pelo Mediterrâneo; as especiarias e os outros produtos tornaram-se, então, mais caros. O acúmulo de metais preciosos era desejado pelos governos. A culinária europeia já havia se adaptado aos condimentos orientais. As especiarias também eram utilizadas na conservação de produtos de fácil deteriorização, como as carnes. Nesse sentido, Portugal e Espanha foram os países pioneiros na tentativa de encontrar rotas, caminhos marítimos e terrestres para as índias – nome genérico conferido ao Oriente – que evitassem passar pelo Mediterrâneo e pelos domínios muçulmanos. Na ânsia de lucrar mais, os países ibéricos não queriam intermediários, desejavam comprar os artigos e as especiarias diretamente dos produtores.

Sair em busca de uma outra alternativa para chegar às índias não era uma decisão fácil de ser tomada por marinheiros e muito menos por reis e financiadores. Os fundos para as viagens marítimas com frequência não eram obtidos, pois os custos eram muito elevados. Gastos com provisões, armas, munições, frotas e pagamentos de marujos dificultavam a iniciativa de particulares. Os riscos de o empreendimento não dar certo levavam muitos comerciantes e banqueiros a contar com o aval dos reis. A burguesia sentia mais segurança para investir em projetos de parceria com o Estado.
No final da Idade Média, o mundo que os europeus conheciam restringia-se ao Oriente Médio, ao norte da África e às índias, conforme relatos, por vezes fantasiosos, de alguns navegadores.

O medo era fruto do desconhecido e da falta de instrumentos náuticos e de embarcações adequadas. Os europeus não dispunham sequer de mapas precisos relativos às poucas regiões em que já haviam estado. Os existentes não mencionavam a América e a Oceania. A África e a Ásia apareciam de modo disforme. Os cartógrafos mesclavam elementos reais com elementos imaginários, mapas traziam conhecimentos geográficos em meio a referências de lendas e desenhos irreais.

Pioneirismo  português

Entretanto, o mar não era «apenas o depositário de monstruosidades, tragédias e calamidades. As representações mentais dos europeus no século XV projetavam no além-mar a esperança de se encontrar or paraíso terrestre ou um mundo cheio de riquezas. Cor­ria a lenda, em portos europeus, da existência do reino de Preste João, um rei cristão nos domínios muçulma­nos, cujos móveis da corte eram cobertos de ouro e pedras preciosas.

Movidos pela crise que atingia boa parte da Euro­pa – caracterizada pela fome, pela peste e pelas guer­ras – muitos arriscavam suas vidas na tentativa de enriquecer. Foi preciso um acúmulo de experiências, uma série de viagens, várias criações e aperfeiçoamentos ci­entíficos e tecnológicos, para que os temores e as projeções paradisíacas dos europeus diante do desconhe­cido se dissipassem.

Assim se parecia Lisboa nos séculos XV e XVI, antes da des­truição provocada pelo grande terremoto de 1755. A construção maior, no centro da ilustração, chamava-se Palácio da Ribeira e era ocupada pelos reis de Portugal. À direita vê-se o Terreiro do Paço (hoje a área ocupada pela Praça do Comércio), que era um mercado público. A muralha, chamada femandina, era o último limite do espaço defensivo da cidade, que hoje se estende por todas as colinas ao fundo. Os navegadores portugueses foram os primeiros que se lançaram no Oceano Atlântico, com o objetivo de chegar às índias, contornando a costa da África. Entre os fatores que explicam o pioneirismo marítimo de Portugal, nas grandes navegações, destacam-se:

•         situação geográfica: o país estava voltado para o Atlântico;
•         precoce centralização do poder nas mãos do rei;
•         tradição marítima em decorrência da pesca de sardinha e bacalhau;
•         aperfeiçoamento técnico de instrumentos (bússo­la, astrolábio) e de embarcações (caravela);
•         existência de uma forte burguesia mercantil.

A burguesia lusa foi favorecida no século XIV, quando Lisboa e outras cidades portuguesas passaram a servir de pontos de escala entre o comércio mediterrâneo e o norte europeu, em função da Guerra dos Cem Anos entre França e Inglaterra, que impossibilitava a passagem de artigos e especiarias pela região de Flandres, cobiçada por ingleses e franceses.

A aliança entre reis e burgueses, durante os Séculos XV e XVI, propiciou a mobilização de recursos técnicos e financeiros para que em nome do nascente Estado luso fosse levada adiante a expansão marítima portuguesa. Contudo, os portugueses levaram mais de oitenta anos para contornar toda a costa africana e encontrar o caminho para as índias, seguindo a rota oriental.

O marco inicial da expansão marítima portuguesa foi a conquista, em 1415, da cidade de Ceuta, no norte da África. Dominada pelos muçulmanos, Ceuta era estratégica no comércio de ouro, de escravos e dos produtos orientais. Contudo, com o tempo os próprios muçulmanos começaram a desviar-se da cidade que deixou de monopolizar o comércio africano.

Num curto período de tempo, os portugueses ocuparam ilhas desabitadas no litoral africano: mais especificamente Açores e Madeira. Estabeleceram entrepostos comerciais ao longo de toda a costa africana, adquirindo ouro, escravos e especiarias. Em 1487, Bartolomeu Dias atingiu o extremo sul da África, onde encontrou um cabo, mais tarde chamado de Cabo da Boa Esperança, porque foi contornando esse cabo que os portugueses descobriram a passagem para a índia.