Renascimento: História e o Nascimento da Ciência Moderna


A Europa Ocidental, no final da Idade Média, pas­sava por transformações econômicas, políticas e sociais, ligadas ao desenvolvimento do comércio e da vida urba­na. A cultura não ficaria imune a essas transformações. Em várias regiões do continente europeu ocorreu um intenso movimento de renovação conhecido pelo nome de Renascimento.

Por que o Renascimento começou na península Itálica?

Renascimento

O Renascimento iniciou-se na península Itálica e expandiu-se nos séculos XV e XVI para outras partes da Europa. Para entendermos por que esse movimento se iniciou ali, é preciso lembrar que essa foi uma das primei­ras regiões da Europa onde o renascimento comercial e o urbano se manifestaram. Desde o século XI, existiam na península repúblicas marítimas e cidades independentes (Veneza, Amalfi, Pisa, Génova, Luca, Florença e Milão) onde predominava o trabalho livre e artesanal e havia uma relativa igualdade jurídica entre os cidadãos.

O desenvolvimento do comércio incentivou uma rica e movimentada vida urbana, que atraía os camponeses e a aristocracia e, por isso, parte da nobreza transformou-se numa aristocracia urbana, voltada para o comércio. Os sistemas corporativos da Idade Média foram superados por uma forma de livre concorrência que vigorava nas cidades. Essas condições vigentes nas repúblicas italianas foram fundamentais para o Renasci­mento, enquanto em outras partes da Europa ainda predomi­nava o sistema feudal, baseado na servidão e na vassalagem.

O Renascimento cultural na península Itálica contou também com outros fatores favoráveis. Em primeiro lugar, houve uma movimentação de pensadores vindos do oriente, principalmente quando Cons­tantinopla foi tomada pelos turcos, o que provocou a fuga de alguns pensadores do rico Império Bizantino. Também não se pode desprezar a herança da rica cultura árabe que se sedimentou na Sicília, servindo de base para uma renovação, em especial na medicina e na matemática.

A ideia predominante na época era de que o ho­mem era o centro do universo, contrapondo-se à ideia medieval de que Deus era o centro do universo. Isto é, o antropocentrismo opondo-se ao teocentrismo. Isso não queria dizer que o hu­manista era ateu. Na verdade, ele considerava o ser humano a mais perfeita realização de Deus. A diferença entre essa e a concepção medieval era a de que este ser humano completo se realizaria aqui mesmo na Terra e não numa vida depois da morte.

O Renascimento literário

Com a invenção dos tipos móveis, atribuída a Gutenberg, em meados do século XVI, os livros tornaram-se acessíveis a um público maior. A imprensa foi importante para o desenvolvimento econômico e social, pois difundia novas técnicas e ideias, necessárias às grandes empresas de mercadores para a conquista de novos mercados.

No entanto, antes mesmo da difusão por meio da imprensa, a península Itálica conheceu uma grande e dinâmica produção literária. Essa produção foi marcada: pelo antropocentrismo, com a valorização do homem e a glorificação de suas conquistas; pela crítica à concepção religiosa do mundo medieval; e pela adoção do dialeto toscano, falado em Florença, em vez do latim, que identificava a produção cultural eclesiástica. A península Itálica, com sua opulência, foi alvo de disputas entre as grandes potências da época: Espanha, França e Alemanha (Sacro Império). Nesse cenário, surgiu o maior pensador político da época: Nicolau Maquiavel (1469-1527), florentino oriundo da alta burguesia dos mercadores, que exerceu altos cargos públicos.

O nascimento da ciência moderna

O humanismo renascentista fez o homem ultrapassar uma visão religiosa do mundo, que caracterizou o pensa­mento medieval, e adotar uma perspectiva mais humana, terrena e natural para observar e explicar os fenômenos. Foi na Renascença que foram criados os métodos do conhecimento teórico da ciência moderna, ou seja, a observação e avaliação dos fatos e a proposição de hipó­teses a serem testadas por meio de outras observações ou de experimentos. Esses procedimentos visavam submeter os eventos ao rigor da matemática. Eles foram a base da ciência moderna, criações de homens como Galileu Galilei, Kepler, Giordano Bruno e outros.

A decadência da Itália renascentista

A Itália começou a perder sua hegemonia econômica sobre o comércio europeu depois que surgiram as novas potências ibéricas, em especial a Espanha dos Habsburgos. Além do ofuscamento econômico, a Itália sofreu várias invasões no decorrer do século XVI, pois suas ricas cidades eram cobiçadas por outras potências. Ao mesmo tempo, a França e o Sacro Império Romano Germânico pretendiam manter a hegemonia política sobre a região. Roma, por exemplo, chegou a ser saqueada pelos soldados do imperador Carlos V.

A rica e exuberante Itália foi sendo saqueada por tropas estrangeiras, o que aos poucos provocou o empo­brecimento e a decadência da região.
Como se não bastasse, o Concílio de Trento*, que instituiu a Contrarreforma, impôs um período de austeri­dade, acabando com a relativa liberdade criativa que havia no período dos papas mecenas. Só para ter uma ideia, as figuras ao Juízo final, da Capela Sistina, pintadas nuas por Michelangelo, foram “vestidas” com discretas roupagens.

O Renascimento cultural em outras partes da Europa

As grandes manifestações artísticas e literárias ocorridas na região dos Países Baixos, Alemanha, França, Espanha, Portugal e Inglaterra surgiram pouco depois do Renascimento italiano, com características muito próprias. Nos Países Baixos, por exemplo, o capitalismo comercial se desenvolvia, gerando uma classe de ricos comerciantes, que formava um razoável mercado para a produção literária e para obras de arte. Alguns artistas tinham como tema o cotidiano da vida dos camponeses, enquanto outros retratavam as camadas ricas dos mercadores. Atribui-se aos holan­deses Hubert e Jan van Eyck a introdução da técnica de pintura a óleo, que permitia trabalhar com mais detalhes.

A produção cultural na península Ibé­rica teve características muito particulares por força da Contrarreforma católica, que se instalou principalmente na Espanha. A Inglaterra e a região alemã também foram marcadas culturalmente pelos conflitos religiosos, em especial os decorrentes da Reforma protestante.