Arcadismo: História e Características


Como imitação da Arcádia Romana (Roma, 1690), fundam-se em Portugal a Arcádia Lusitana (1757-1774) e a Nova Arcádia (1790-1794). No Brasil também, à imitação da metrópole, são citadas diversas academias literárias. Visão da arte como imitação (mimese, ideia aristotélica) da Natureza e, portanto, imitação dos clássicos (antigos e renascentistas), que teriam criado os grandes modelos de uma arte natural.

Arcadismo

Principais árcades brasileiros: Cláudio Manuel da Costa. Silva Alvarenga, Alvarenga Peixoto, Tomás Antônio Gonzaga. Embora não propriamente árcades, há dois outros poetas neoclássicos que devem ser incluídos no grupo: Basílio da Gama, autor do poema O Uraguai, e Santa Rita Durão, jesuíta autor de um poema épico denominado Caramuru (1781).

Figura central da impropriamente chamada “Escola Mineira”(q grupo de poetas neoclássicos de MG), Gonzaga é o principal poeta lírico do Brasil colonial. Grande mestre da melopéia coloquial, dedicou grande parte de seus poemas a Marília (nome poético) e sua coleção de poesias, sob o título Marília de Dirceu (Dirceu era seu pseudônimo arcádico) é dos mais belos e mais admirados livros de nossa literatura. Neoclassicismo e pré-romantismo, sob as vestes da convenção arcádica, combinam-se em seus versos simples, elegantes, musicais, mas não providos às vezes de dramaticidade pungente.

Históricas

Século XVIII: “século das luzes” – iluminismo e ilustração: novo espírito de observação da realidade e nova atitude em relação à cultura – nacionalismo, “enciclopedismo “.
Revolução Industrial: grandes transformações econômicas.
Revolução Francesa: promoveu profundas transformações sociais e foi o estopim de revoluções liberais que se espalharam pela Europa e pela América.

Busca de uma poesia límpida, pedagógica e clássica, livre de enfeites metafóricos excessivos. Cultivo de lugares-comuns da literatura antiga adaptados ao ideário burguês nascente: áurea mediocritas (a vida deve ser levada em “áurea mediana” nada de extremos), fugere urbem (ideal de vida simples no seio da Natureza, evitando o artificialismo da cidade), locus amoenus (o “lugar ameno” visão paradisíaca da Natureza), ínutilia truncai (cortar o inútil: nada de excessos, nem na vida, nem na arte).

“Busca da simplicidade formal e de conteúdo; e como a simplicidade de conteúdo, na literatura antiga, estava na poesia de tema pastoril, os arcádicos fizeram da literatura bucólica o tema predileto, chegando mesmo, para dar mais realidade a esse bucolismo, a tomar pseudónimos pastoris e a considerar suas academias revivescências da Velha Arcádia, região grega de pastoreio.” (Antônio Soares Amora).

Sobre o Arcadismo

Aparentemente os árcades parecem poetas indiferentes à política, alienados. Isso, porém, é injusto e não corresponde à verdade histórica. Na época da ditadura pombalina (o Marquês de Pombal foi o primeiro ministro de D. José I, de 1750 a 1777), houve um avanço considerável nas ciências e na economia, em detrimento das liberdades políticas. Pombal representava um fenômeno histórico muito comum na época: o despotismo esclarecido. Era muito duro com seus críticos e opositores e por isso a poesia não pôde respirar livremente fora do bucolismo. Entretanto, não foram poucos os exemplos de resistência: Tomás Antônio Gonzaga escreveu suas Cartas Chilenas, sátira contra o Governador de Minas Gerais, foi preso por envolvimento na Inconfidência, foi deportado; Bocage se insurgia contra a apatia e o moralismo idiota, em poemas que lembram o tom desbocado de Gregório de Matos; Filinto Elísio morreu em seu exílio francês, depois de ter fugido da polícia de D. Maria I; a Marquesa de Alorna foi presa durante muito tempo, Cláudio Manuel da Costa e Correia Garção morreram no cárcere, etc.

Tomás Antônio Gonzaga

Formou-se em Direito na Universidade de Coimbra e trabalhou como juiz em Portugal. Em 1782, com 38 anos, retorna ao Brasil (MG) e em Vila Rica (hoje Ouro Preto) apaixona-se por uma rica herdeira de 16 anos, a Marília de suas liras. Envolvido na Inconfidência Mineira e perseguido pelo governador Cunha Meneses, a quem teria satirizado nas Cartas Chilenas, é condenado a 10 anos de degredo em Moçambique. Lá fica até a morte, tendo-se casado com uma viúva (ao que parece analfabeta), herdeira de uma rica família. Para que os escravos não engolissem as pedras encontradas, cada um era vigiado por um feitor, numa espécie de linha de montagem.

CARACTERÍSTICAS

•            Extrema variedade de métrica, rima e estrofação,com grande habilidade rítmica e suavidade musical.
•            Poesia eufórica e leve, na primeira parte de suas liras;  na segunda  parte,  ela se torna algo desencantada e melancólica, com alguns acentos pré-românticos.
•            Um dos poetas mais delicados e mais galantes da nossa literatura.
•            Em Marília de Dirceu toda sua lírica se volta para a idealização incondicional da mulher amada.
•            Horizonte pequeno-burguês: epicurismo, valorização da privacidade, exaltação dos méritos pessoais, etc.
•            Defesa do direito e da ordem natural das coisas.
•            Defesa do legado liberal, democrático, iluminista:Cartas Chilenas.
•            Confessa-se pastor na poesia, mas é juiz de direito em Vila Rica.

Exemplo:

Minha bela Marília, tudo passa; A sorte deste mundo é mal segura; Se vem depois dos males a ventura, Vem depois dos prazeres a desgraça. Estão os mesmos Deuses Sujeitos ao poder de ímpio Fado; Apoio já fugiu do Céu brilhante, Já foi Pastor de gado. A devo rã n te mão da negra Morte Acaba de roubar o bem, que temos; Até na triste campa não podemos Zombar do braço da inconstante sorte.

Álvares de Azevedo

É o melhor representante do ultrarromantismo no Brasil, tendência que na Europa era chamada de “ennui” ou “mal-du-siécle” (França) e “spleen” (Inglaterra). Além da poesia lacrimosa e melosa de tom elegíaco desenvolveu uma veia sarcástica e brincalhona que até certo ponto rompe o estereótipo ultrarromântico para antecipar o que viria a ser uma constante no Modernismo.

Álvares de Azevedo oscila entre as visões puramente idealizadas (virgens puras, angelicais, criaturas de sonho), cheias de bruma de sentimentalidade, e por outro lado, um realismo humorístico, cuja ironia aguda não poupa o próprio romantismo do poeta (como se vê em poemas como “Namoro a Cavalo” e naquela que talvez seja sua melhor realização: “Ideias íntimas”). Sua poesia amorosa, como a de Casimiro de Abreu, é ingénua e suspirosa. A imagem da mãe é frequente em seus poemas.

A morte é outra presença constante em sua poesia, sendo ele, como Castro Alves, um dos românticos que tiveram a premonição tétrica da morte prematura (“Lembrança de Morrer”, “Se Eu Morresse Amanhã”). Álvares de Azevedo encontrou inspiração constante para tratar da morte no poeta inglês Byron.