Cultismo e Conceptismo: os principais estilos da Literatura Barroca


O barroco, também chamado de Seiscentismo, surgiu quando o Renascimento entrou em crise, porque naquela época estavam acontecendo várias desavenças com relação à religião. A Igreja Católica vinha fazendo várias imposições e havia dificuldades econômicas, pois o comércio com o Oriente havia decaído em Portugal.

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As obras barrocas, tanto as literárias quanto as artísticas, eram muito rebuscadas. E isso se devia aos grandes conflitos que o homem do movimento enfrentava, pois ao mesmo tempo em que buscava a salvação, ele desejava aproveitar as coisas da vida. Portanto, os temas mais abordados nas obras eram sempre cheios de dualismos, como o pecado e o perdão. Outros enfoques recorrentes eram a religiosidade medieval e o paganismo, que foi muito presente no movimento renascentista.

Em terras portuguesas, o movimento Barroco começou no ano de 1580, quando ocorreu a unificação da Península Ibérica, o que gerou um domínio espanhol nas atividades de Portugal, por isso o Barroco português também é chamado de Escola Espanhola. Este movimento dura até o ano de 1756, que é quando surge a Arcádia Lusitana. Já aqui no Brasil o movimento Barroco começa apenas em 1601, quando o poema épico “Prosopopeia”, do português Bento Teixeira, é publicado.

O Barroco brasileiro perdurou do século XVII até o começo do século XVIII, e as obras desse movimento contavam com muitas antíteses e paradoxos, que eram usados para mostrar esse diferente modo de pensar que chegava com o antropocentrismo, ou seja, o homem no centro de tudo.

Cultismo e Conceptismo, os dois estilos da literatura Barroca

Esse movimento literário se dividiu em dois estilos, o Cultismo e Conceptismo, e cada um deles tinha características diferentes.

No Cultismo, a linguagem é extremamente descritiva, pois para esses autores conhecer é descrever, e eles descreviam o mundo através das sensações e se utilizavam de muitas figuras de linguagem, como sinestesias, metáforas e antíteses. Os escritores dessa linha também usavam figuras de sintaxe, o que tornava esse estilo pesado e tortuoso. Eles faziam o uso de trocadilhos, hipérbatos e dubiedades.

Esses autores gostavam de escrever utilizando o jogo de palavras, o preciosismo vocabular, a erudição e o rebuscamento da forma. Portanto, para ser um escritor dessa linha era preciso ter grande habilidade verbal. Os cultistas tratavam a realidade de uma forma indireta, pois estavam mais preocupados com a forma do que com o que realmente estavam querendo dizer.

Além disso, o Cultismo também era chamado de Gongorismo, pois seu principal representante era o poeta espanhol Gôngora.

Observe o jogo de palavras existente no trecho deste poema de Gregório de Matos:

Nasce o Sol, e não dura mais que um dia,
Depois da Luz se segue a noite escura,
Em tristes sombras morre a formosura,
Em contínuas tristezas a alegria.

Porém se acaba o Sol, por que nascia?
Se formosa a Luz é, por que não dura?
Como a beleza assim se transfigura?
Como o gosto da pena assim se fia?

Mas no Sol, e na Luz, falte a firmeza,
Na formosura não se dê constância,
E na alegria sinta-se tristeza.

Começa o mundo enfim pela ignorância,
E tem qualquer dos bens por natureza
A firmeza somente na inconstância.

As diferenças do Cultismo e Conceptismo

A grande diferença do Conceptismo e Cultismo é que os autores conceptistas baseavam seus argumentos na razão e na inteligência. O conceptismo se utilizava do jogo de ideias, de conceitos, e seguia um raciocínio lógico, sendo além de tudo, nacionalista, e seus autores se utilizavam de uma retórica aprimorada. A organização das frases obedecia a uma ordem rígida, e tinha o intuito de convencer e ensinar o leitor.

As obras conceptistas se valiam bastante de comparações explícitas, além de analogias e parábolas, que é quando o autor se utiliza de símbolos e seres sem vida para contar uma história, com o intuito de captar de melhor forma o entendimento de quem está lendo.

Ao contrário do exagero do Cultismo, o Conceptismo desejava a concisão, utilizando os mecanismos da lógica, silogismo e sofisma.

• Silogismo: tem como base a dedução. Nela, parte-se de duas questões básicas que gera uma terceira, que está logicamente implicada.

• Sofisma: é um argumento que como base algo verdadeiro que depois mostra-se inadmissível, porém irrefutável. Sendo assim, é inquestionável, segundo as regras formais do raciocínio.

O Conceptismo também foi chamado de Quevedismo, pois seu principal representante foi um autor espanhol chamado Quevedo. Por estar preocupado com o convencimento, essa linha estava presente também na oratória de cunho religioso, sendo utilizada por Pe. Atonio Vieira e Pe. Manuel Bernardes, e também por Gregório de Matos em sua poesia religiosa.

Veja um trecho de prosa conceptista de Padre Antônio Vieira:

“Para um homem se ver a si mesmo são necessárias três coisas: olhos, espelho e luz. Se tem espelho e é cego, não se pode ver por falta de olhos; se tem espelhos e olhos, e é de noite, não se pode ver por falta de luz. Logo, há mister luz, há mister espelho e há mister olhos”.