Introdução, Características e Principais Autores do Neoclassicismo Brasileiro


O Brasil no século XVIII

No final do século XVII, a descoberta do ouro em Minas Gerais realizou um antigo sonho dos colonizadores e provocou profundas mudanças no cenário econômico, político e cultural da Colônia. Até o clímax da produção aurífera, entre 1740 e 1760, o centro econômico e político já se deslocara do Nordeste para o Sudeste, e em 1763 a capital do Vice-reinado foi transferida para o Rio de Janei­ro. Na segunda metade do século XVIII, a nova capital e a cidade de Vila Rica (Ouro Preto) tornaram-se também os novos centros de produção cultural, em substituição a Salvador. Por isso, alguns historiadores chamam o Bar­roco brasileiro de “Escola Baiana” e o Neoclassicismo de “Escola Mineira”.

Principais Autores do Neoclassicismo Brasileiro

Como vimos no capítulo anterior, o ouro brasileiro financiou o luxo e a pompa da corte portuguesa durante toda a primeira metade do século XVIII (reinado de D. João V). A imensa riqueza retirada das minas não promovia o desenvolvimento da Metrópole, que continuava atada ao tratado de Methuen e fora da revolução industrial que se realizava em outros países europeus. Nesse quadro, a situa­ção da Colônia era, obviamente, de absoluta estagnação.

Nas últimas décadas do século, em pleno declínio da extração do ouro, as insatisfações, sobretudo com a cobrança de impostos, começaram a se manifestar. As ideias iluministas, cultivadas por uma pequena burgue­sia letrada — juristas formados em Coimbra, padres, comerciantes, militares —, serviam de pano de fundo a essas manifestações.

O Neoclassicismo surgiu nesse ambiente de crise e de efervescência de ideias. Influenciados pelo Iluminismo francês, pelos ideais da Revolução Americana (1776) e por admiradores do Marquês de Pombal, os poetas da Escola Mineira ecoavam o pensamento mais avançado do século XVIII. Alguns deles foram figuras centrais da Inconfidência Mineira.

O Neoclassicismo brasileiro

devemos observar algumas peculiaridades de nosso Neo­classicismo. São elas:
•  Sobrevivência de traços do Cultismo barroco em alguns autores, como, por exemplo, na obra de Cláudio Manuel da Costa.
•  Introdução de alguns motivos e temas estranhos aos mo­delos europeus, como a paisagem tropical, elementos da flora e da fauna brasileiras, ou certos aspectos peculiares de nossa realidade colonial, como a mineração.
•  Utilização de temas e episódios da história da Colônia em poemas heroicos, como O Uruguai, Caramuru e Vila Rica.
•  Ingresso do índio como tema literário.

De modo geral, podemos dizer que essas caracterís­ticas, quebrando a rigidez das convenções neoclássicas, imprimem ao conjunto de nossa produção arcádica um caráter pré-romântico. Assim, os historiadores portu­gueses Oscar Lopes e Antônio José Saraiva observam que “certa cor local e certo dengue brasileiro constituem, no conjunto desses poetas, uma contribuição importante para a formação do gosto romântico entre nós” (História da
literatura portuguesa).

Poesia lírica e satírica

Características do Neoclassicismo no Brasil

As datas convencionais que delimitam o Neoclassi­cismo brasileiro são os anos de 1768 (publicação das Obras poéticas, de Cláudio Manuel da Costa) e 1836 (início do Romantismo). Além das características formais e temáticas estu­dadas no capítulo 29 — imitação dos clássicos; cultivo da simplicidade e da naturalidade; bucolismo e pastoralismo; uso alegórico de figuras mitológicas e de outros clichês, como o locus amoenus, o fugere urbem e o carpe diem —,

Principais autores

Os poetas Cláudio Manuel da Costa, Tomás Antônio Gonzaga e Alvarenga Peixoto estiveram ligados à Inconfi­dência Mineira, acontecimento que teve grandes consequên­cias em suas vidas. O primeiro, Cláudio, suicidou-se na prisão. O segundo e o terceiro, prisioneiros durante longo inquérito e julgamento, foram condenados à morte, mas tiveram suas penas comutadas em degredo na África. Esse fato foi decisivo para suas produções líricas, cujo caráter confessional e biográfico mal se esconde sob as convenções neoclássicas.

A poesia satírica de Tomás Antônio Gonzaga e de Silva Alvarenga possui hoje uma importância sobretudo documental. Nela encontramos a expressão mais nítida do ideário iluminista, que marcou profundamente o pensamento dos intelectuais e escritores brasileiros dessa época.

•  Cláudio Manuel da Costa (1729 -1789) — pseudônimo arcádico: Glauceste Satúrnio. Formado em Direito em Coimbra, exerceu a profissão em Vila Rica. Seu envolvi­mento na Conjuração Mineira parece ter sido marginal, o que não impediu sua prisão em maio de 1789. Dois meses depois, após um interrogatório, encontraram-no enforcado no cárcere. Alguns biógrafos levantam dúvidas sobre a explicação oficial do suicídio. Iniciador do Neoclassicismo brasileiro, Cláudio é um poeta de transição. Sua poesia lírica, constituída principalmente de sonetos e éclogas, tem ainda marcas do estilo barroco, como ele mesmo confessa no prefácio das Obras. Escreveu também um poema épico — Vila Rica —, sobre a fundação da cidade e a epopeia dos bandeirantes.

•   Inácio José de Alvarenga Peixoto (1743-1792) — Tam­bém envolvido na Inconfidência, Alvarenga Peixoto veio a morrer logo no início de seu exílio em Angola. Grande parte de sua obra desapareceu no confisco de seus bens, quando foi preso. A lira a Bárbara Heliodora, sua esposa, é seu poema mais conhecido.

•   Manuel Inácio da Silva Alvarenga (1749-1814) — pseudônimo arcádico: Alcindo Palmirendo. Natural de Vila Rica, formou-se, como tantos outros, em Coimbra, onde escreveu O desertor das letras, poema heroico-cômico em defesa da reforma universitária realizada pelo Marquês de Pombal. Sua poesia lírica, composta na forma de rondós e madrigais e reunida no livro Glaura (1798), desenvolve a temática amorosa dentro dos cânones do Arcadismo,
mas com certo abrasileiramento do locus amoenus, em que zéfiros, ninfas e pastores se misturam a plantas e animais de nossa terra.