Machado de Assis – Fase Romântica e Realista: Memórias Póstumas de Brás Cubas, Quincas Borba, Dom Casmurro, Esaú e Jacó e Memorial de Aires


Dados biográficos
Machado de Assis nasceu no Rio de Janeiro, palco da maioria de suas obras. Mulato, teve uma infância extremamente pobre. Na adolescência, empregou-se como tipógrafo na Imprensa Oficial. Foi autodidata e publicou seu primeiro livro aos vinte e seis anos. Casou-se com a portuguesa Carolina de Novaes, com quem viveu durante 35 anos – não tiveram filhos.

Machado de Assis

Obra
A obra literária de Machado de Assis é bastante extensa e compreende poesia, crônica, conto, teatro e romance. A mais importante é dividida em duas fases: a romântica e a realista.

Primeira fase – romântica
•         Ressurreição (1872) – romance
•         A Mão e a Luva (1874) – romance
•         Helena (1876) – romance
•         laia Garcia (1878) – romance
•         Contos Fluminenses (1872) – contos
•         Histórias da Meia-Noite (1873) – contos

Foi com uma versão atualizada e totalmente livre do romance Helena que a Rede Globo lançou seu horário das seis em maio de 1975. Nessa telenovela de Gilberto Braga, a protagonista de Machado de Assis foi interpretada por Lúcia Alves.
Os romances românticos de Machado de Assis seguiam praticamente a mesma trilha dos melhores romances urbanos de José de Alencar, mas já se delineavam neles a crítica e a análise psicológica que pontificaram na sua melhor fase, a realista. Em laia Garcia, por exemplo, destaca-se a importância da sociedade na formação do indivíduo, e esse procedimento foi um dos motivos condutores dos romances realistas de Machado de Assis.
•        Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881) – romance
•        Quincas Borba (1891) – romance
•        Dom Casmurro (1900) – romance
•        Esaú e Jacó (1904) – romance
•        Memorial de Aires (1908) – romance
•        Papéis Avulsos (1882) – contos
•        Histórias sem Data (1884) – contos
•        Relíquias da Casa Velha (1906) – contos

Teatro
•        A Queda que as Mulheres Têm pelos Tolos (1864)
•        Quase Ministro (1864)
•        Tu, Só Tu, Puro Amor (1881)

O texto a seguir é um soneto que Machado de Assis fez para a esposa, Carolina, que faleceu em 1904. Evidentemente, o texto é pleno de sentimento, mas isso ocorre de maneira comedida, à moda realista, isto é, sem o arrebatamento emocional romântico – afinal, o poema é de 1906.

•        Falenas (1870)
•        Americanas (1875)
•        Ocidentais

A CRIATURA (fragmento)
Sei de uma criatura antiga e formidável, Que a si mesma devora os membros e as
[entranhas Com a sofreguidão da fome insaciável.
Na árvore que rebenta o seu primeiro gomo Vem a folha, que lento e lento se desdobra, Depois a flor, depois o suspirado pomo Pois essa criatura está em toda a obra: Cresta o seio da flor e corrompe-lhe o fruto; E é desse destruir que as suas forças dobra. Ama de igual amor o poluto e o impoluto; Começa e recomeça uma perpétua lida, E sorrindo obedece ao divino estatuto. Tu dirás que é a Morte: eu direi que é a Vida.

Machado de Assis, Poesia Completa
A poesia machadiana não é muito comum nos livros de Literatura de Ensino Médio, apesar de ser comparável às dos grandes poetas brasileiros. Talvez a excelência dos romances da fase realista tenha deixado os poemas de Machado de Assis em segundo plano. De acordo com o crítico e historiador de literatura Alfredo Bosi, em História Concisa da Literatura Brasileira, além dos versos bem elaborados, nos poemas de Ocidentais (como “A Criatura”), estão presentes a desesperança, o mito da natureza madrasta e o gosto de destruir, que marcam a condição humana. Quanto à forma, a poesia de Machado de Assis é parnasiana.

Análise psicológica
O indivíduo – a alma humana -, suas motivações, tendências psíquicas, as causas e consequências de suas ações e suas relações com o meio e com o momento são as principais características da prosa realista machadiana. Por isso, Machado de Assis não conta uma história: os fatos por ele narrados são meros referenciais para analisar os indivíduos e a sociedade.

Anti Linearidade
Na maioria das narrativas de Machado de Assis, não existe o esquema tradicional começo, meio e fim. A história é fragmentada, as ações acontecem em ziguezague e o narrador sempre conversa com o leitor (a quem ele trata por tu, vós, leitor ou leitora) para filosofar acerca do que conta e desviar a atenção dele para detalhes periféricos, a fim de que este, além de fruir a história, pense sobre os acontecimentos narrados. Na realidade, esse autor não quer um leitor comum, mas um cúmplice do que está sendo exposto.

Descrença nas instituições Igreja, Estado, casamento e família como “burguesamente” se apresentavam; o egoísmo, a hipocrisia, o adultério, a traição, a mentira, a vaidade e o interesse dominando as relações humanas; os limites da loucura e da razão; a desesperança, o mito da natureza madrasta e o gosto de destruir (já presentes em sua poesia), que marcam a condição humana, são temas recorrentes em Machado de Assis.
Toda essa temática é carregada de ironia e ambiguidade, marcas singulares de Machado de Assis. Assim, especialmente as heroínas – como Capitu (Dom Casmurro), Virgílía (Memórias Póstumas de Brás Cubas), Sofia (Quincas Borba), Flora (Esaú e Jacó) e Conceição (“Missa do Galo”).
É importante considerar, ainda, que a leitura que Machado de Assis faz da vida e da sociedade é completamente pessimista.
Universalidade
A obra de Machado de Assis, via de regra, tem ações ambientadas no Rio de Janeiro do Segundo Império, local e época em que ele viveu. Entretanto, os temas desse escritor ultrapassam os limites de seu tempo, pois dizem respeito ao ser humano de qualquer lugar e período.

Algumas sinopses

Memórias Póstumas do Brás Cubas
Ao longo dos 160 capítulos desse romance, o defunto Brás Cubas narra, sempre conversando com o leitor, sua vida de fracassos: seus amores frustrados com a cortesã Marcela, com a adúltera Virgília, com a doente Eu-lália e com a coxa Eugenia. Além disso, faz considerações sobre o governo do Segundo Império, as famílias, a imprensa, a sociedade, a vida e a morte. Ele alimenta uma amizade com o ex-mendigo Quincas Borba, herdeiro de uma fortuna em Barbacena, demente e filósofo criador do humanitismo, uma gama de teorias que critica todas as filosofias existentes.
Brás Cubas falhou em tudo – nos amores, na profissão de advogado e na política – e morreu de pneumonia aos 64 anos, quando tentava criar um emplasto, remédio que seria a cura dos hipocondríacos, não fosse a intenção do inventor de simplesmente colocar seu nome no rótulo da embalagem do remédio para, assim, ganhar posteridade, já que nada produzira em vida.

O defunto-autor Brás Cubas é um cínico: durante a narrativa inteira, ironiza tudo e a si mesmo e termina justificando, ironicamente, a frívola existência:

Quincas Borba
Esse romance conta a história do jovem professor mineiro Rubião (de Barbacena), para quem o filósofo Quincas Borba deixa toda a herança, com a condição de que o herdeiro cuide do cachorro também chamado de Quincas Borba.

Cheio de dinheiro e tendo aprendido algumas frases do humanitismo de Quincas Borba, Rubião muda-se para o Rio de Janeiro. Moço de interior, ingénuo, cercado de pessoas que vivem do seu dinheiro, Rubião apaixona-se por Sofia, esposa de Cristiano Palha, casal que Rubião conhecera na viagem de trem para o Rio. Aos poucos, Sofia e Palha vão sugando toda a riqueza de Rubião. O ex-professor perde a razão e a fortuna. Fala sozinho, julga-se Napoleão e repete sempre, na sua alucinação, a frase-chave do humanitismo: “Ao vencedor, as batatas”.
No final da narrativa, o louco Rubião foge do hospital em que fora internado e vai para Barbacena, onde falece. Três dias depois, morre também o cachorro Quincas Borba.

Esse romance é a narrativa da tragédia de Rubião. O dinheiro que ele recebeu de Quincas Borba fê-lo conhecer o Rio de Janeiro, viver em palacete, frequentar a corte, ser cortejado e também apaixonar-se por Sofia. Essa paixão é que levou Rubião à loucura e, consequentemente, à morte.
Observe este fragmento do capítulo VI, em que o velho filósofo Quincas Borba tenta explicar ao jovem e ignorante Rubião o humanitismo. “Ao vencedor, as batatas” é a explicação da tragédia de que Rubião foi vítima posteriormente.

Dom Casmurro
Certamente a obra mais popular de Machado de Assis, parece uma narrativa de um caso banal de adultério. Mais que isso, é uma tragédia, como outros romances do autor. O advogado Bentinho, viúvo, sem herdeiros, mora acompanhado de mordomo e empregados em uma bela casa de um subúrbio do Rio de Janeiro. Como era um homem de hábitos solitários, misantropo e antipático, um vizinho o apelidou de Casmurro. Logo os vizinhos dele acrescentaram, por ironia, o título Dom, por isso Dom Casmurro.

Bentinho, já cinquentão, escreve um livro que intitulou de Dom Casmurro, para explicar ao leitor por que é um homem solitário, misantropo, ou seja, casmurro. Então, ele volta ao tempo em que tinha quinze anos e era um adolescente puro, ingênuo, filho único de Dona Glória, uma viúva rica com quem moravam algumas pessoas: a viúva prima Justina, o viúvo tio Cosme, o agregado José Dias e alguns escravos.
Nessa época, embora já esteja de namoro com Capitu, uma adolescente filha de vizinhos pobres, Bentinho tem de ir para o seminário para cumprir uma promessa que sua mãe fizera a Deus. No seminário, a vida religiosa não o atrai. Lá, conhece Escobar, um rapaz de Curitiba, esperto e objetivo, de quem se torna amigo. Escobar monta um plano para Bentinho sair do seminário e isso acontece. Em lugar de Bentinho, colocaram um negro para que se tornasse padre e assim cumprisse a promessa de Dona Glória.

O namoro entre Bentinho e Capitu se intensifica. Bentinho vai para São Paulo, forma-se em Direito aos 23 anos, retorna à capital do Império e casa com Capitu. O amigo Escobar também sai do seminário, monta um negócio no Rio de Janeiro e casa com Sancha, amiga de Capitu.
Os casais visitam-se constantemente, mantendo a antiga amizade, até que Sancha engravida e tem uma menina que recebe o nome de Capituzinha, em homenagem à amiga. Tempos depois, Capitu também engravida e tem um menino que é chamado de Ezequiel, em homenagem ao amigo, cujo nome é Ezequiel Escobar. Nesse momento, Bentinho é um advogado de sucesso e os negócios de Escobar prosperam.

Nessa época de felicidade, começam as agruras de Bentinho. Capitu chama a atenção do marido para o fato de o filho, Ezequiel, que tem mania de imitar os outros, apresentar semelhanças físicas com o amigo Escobar.

Bentinho, desconfiado e ciumento, passa a achar que Ezequiel não é filho dele.

Escobar tem porte atlético (Bentinho é franzino) e é ótimo nadador. Num sábado pela manhã, Escobar vai nadar na praia do Flamengo, mas, como o mar está ressacado, não resiste à força das águas e morre afogado. As lágrimas de Capitu no velório do amigo despertam mais desconfianças no ciumento Bentinho.

Após a morte de Escobar, o casamento de Bentinho e Capitu não se sustenta. Bentinho, considerando-se traído pela esposa e certo de que Ezequiel não é seu filho, pensa em suicidar-se e até em matar Ezequiel com veneno, mas prefere levar esposa e filho para a Europa e lá os deixa, mantendo, para a sociedade carioca, a aparência da existência de um casamento que se desmanchara. Morrem Dona Glória e o agregado José Dias. Capitu também falece na Europa e é enterrada na Suíça.

Bentinho, morando sozinho num subúrbio do Rio de Janeiro, recebe a visita de Ezequiel, que não vê há anos. Ao ver o filho já moço, não tem dúvidas de que ele é fruto do adultério, tal a semelhança física entre Ezequiel e o falecido amigo Escobar. Ambos ficam juntos durante três meses. Após esse tempo, Ezequiel vai para o Oriente Médio numa expedição de pesquisa arqueológica e lá morre de uma doença epidêmica.

Bentinho conta a história do seu casamento para mostrar ao leitor que ele foi vítima da traição justamente da única mulher que amou. Acontece que o virtuosismo da fabulação de Machado de Assis serve-se de um procedimento de grandes escritores: a ambiguidade. Não existe, em toda a narrativa, a cena de alcova em que o marido traído flagra os amantes (aliás, isso é prerrogativa de escritores previsíveis); o que há é a montagem de um processo de um advogado amargurado no qual são arrolados pequenos flagrantes, indisfarsáveis suspeitas e o perfil psicológico de uma mulher que quer somente a ascensão social e se mostra traidora desde o momento em que entra na narrativa.

A seguir, um fragmento do capítulo XXI – “Olhos de ressaca” -, talvez uma das mais belas metáforas que caracterizam um personagem.

Esaú e Jacó
Nesse romance, o narrador conta que se apossou de dois manuscritos que tinha achado e foram produzidos por um ex-diplomata, o Conselheiro Aires. Trata-se dos textos intitulados “Último” e “Memorial”. Utilizando “Último”, o narrador escreveu o romance Esaú e Jacó e, com “Memorial”, o (também romance) Memorial de Aires.

Esaú e Jacó não tem a excelência da estrutura e da fabulação dos outros romances realistas de Machado de Assis, a não ser pela linguagem bem elaborada. A estrutura romanesca é bem marcada, com começo, meio e fim, e os personagens são planos, isto é, não alteram seu comportamento em toda a narrativa. Pedro e Paulo, filhos gêmeos da zelosa Natividade e do banqueiro Santos, conforme visões de uma sortista de nome Bárbara (o fio condutor de toda a trama), brigam desde o ventre materno, por toda a vida. São inimigos na política (Pedro é monarquista; Paulo, um ferrenho republicano), adversários nas ideias (Pedro é conservador; Paulo, reformista), contrários na profissão (Pedro faz Medicina; Paulo, Direito) e disputam o amor da mesma mulher, Flora, uma moça bonita e ambígua que não se decide por nenhum deles.

Memorial de Aires
O drama e o enredo apresentados no livro são simples, mas você deve saber que o forte de Machado de Assis é fazer uma profunda análise psicológica e não simplesmente contar uma história. O drama é a esterilidade, porque Aguiar e Dona Carmo não tiveram filhos e “adotam” Tristão. Este, um dia, vai para a Europa, onde estuda e torna-se deputado. Os velhinhos ficam solitários, e Fidélia passa a compensar essa ausência. A alegria retorna. Mas Tristão volta, casa-se com Fidélia e a leva para Portugal. Dá-se, então, a tragédia da velhice sem filhos, que, segundo o narrador, traz um sentimento de inutilidade e de solidão.

Machado de Assis é considerado o melhor escritor brasileiro, e isso também diz respeito ao contista que ele foi. Entre seus contos, destacam-se “A Igreja do Diabo”, “Conto de Escola”, “Missa do Galo”, “A Cartomante“, “Cantiga dos Esponsais”, “Uns Braços”, “Miss Dólar” e “O Alienista” (muitos críticos literários consideram essa obra uma novela).