Neoclassicismo em Portugal: Características e Principais Autores


Portugal no século XVIII

A primeira metade do século, em Portugal, foi marcada pelo longo reinado de D. João V, que durou 43 anos (1707-1750). Foi um período de grande riqueza, ali­mentada pela extração de ouro em Minas Gerais. A Coroa portuguesa ficava com um quinto do total das exportações minerais do Brasil. Mas toda essa riqueza não promoveu transformações sociais, nem mudou a dependência de Portugal ao jogo político-econômico das grandes nações europeias. O tratado de Methuen, assinado em 1703, continuou vigorando e atrelando a economia portuguesa às importações das manufaturas inglesas.

Neoclassicismo em Portugal

Assim, em vez de promover a “revolução indus­trial” portuguesa, o ouro brasileiro foi desperdiçado nos esbanjamentos e na vida luxuosa da corte, e em obras monumentais, como o convento de Mafra e o aqueduto das Águas Livres, de Lisboa. As piores características da monarquia absoluta transparecem tanto na suntuosidade da aristocracia como na religiosidade maníaca e carica­tural da corte (basta lembrar as 700 mil missas que o soberano mandou celebrar!). Os poderes da Inquisição e do clero foram mantidos, se não acentuados, e os jesuítas exerciam grande influência mesmo nas decisões políticas e administrativas.

Período: século XVIII

Início: 1756 — Fundação da Arcádia Lusitana. Término: 1825 — Início do Romantismo.

Tratado de Methuen — Por esse tratado, negociado pelo diplomata inglês John Methuen em 1703, Portugal, que aderira à Grande Aliança (Inglaterra, Áustria e Holanda) contra a França, contraiu obrigações comerciais com a In­glaterra, comprometendo-se à importação de produtos têxteis ingleses e à exportação de vinho para o mesmo país. Como consequência, a indústria têxtil portuguesa, que mal iniciava, não suportou a concorrência britânica. O ouro brasileiro foi em grande parte utilizado para compensar o desequilíbrio da balança comercial entre os dois países.

Só na segunda metade do século, durante o reinado de D. José I (1750-1777), o primeiro-ministro, Marquês de Pombal, promoveu grandes reformas, procurando alinhar Portugal com a Europa iluminista. Entre as medidas mais significativas do governo pombalino, citam-se a abolição da escravatura em Portugal, o fomento à agricultura, o estímulo à criação de indústrias, a criação de companhias monopolistas para o comércio ultramar e a expulsão dos jesuítas de Portugal e das colônias. Os governos seguintes revogaram muitas das medidas reformistas de Pombal.

O Neoclassicismo em Portugal

O Neoclassicismo corresponde ao período pombalino e estende-se até as primeiras décadas do século XIX. Apesar do imobilismo político e cultural do longo reinado de D. João V, a influência das novas ideias já co­meça a se fazer sentir no fim desse período. Em 1746, foi publicado o Verdadeiro método de estudar, em que o autor, Luís Antônio Verney (1718-1792), propõe uma grande reforma do ensino superior em Portugal. Essa reforma só seria empreendida no governo do Marquês de Pombal, que substituiria o ensino religioso pelo laico e promoveria uma efervescência de ideias filosóficas e científicas na Universidade, dentro do espírito iluminista reinante nos outros países da Europa.

Aos poucos, também na literatura as novas ideias estéticas vão se fazendo notar. Em 1748, Francisco José Freire, que seria conhecido pelo pseudônimo árcade de Cândido Lusitano, publica sua Arte poética, fundada em doutrinas dos clássicos greco-latinos e modernos. Costuma-se datar o início do Neoclassicismo por­tuguês pela fundação da Arcádia Lusitana, em 1756, nos moldes da Arcádia Romana (1690). Seu lema — inutilia truncai (“corta o que é inútil”) — já apresenta a atitude anti-barroca de seus filiados. Essa agremiação foi dissolvida em 1774. Em 1790, foi fundada a Nova Arcádia, que, em virtude de dissensões entre seus membros, encerrou suas atividades em 1794.

Como ocorre em outras literaturas, também o Arcadismo português encaminha-se lentamente para o Romantismo. Na fase pré-romântica, mantendo ainda parcialmente as convenções neoclássicas, os autores se entregam a um confessionalismo mais direto e suas obras exprimem um emocionalismo às vezes intenso, principais marcas da literatura da primeira metade do século XIX.

Principais autores

Francisco José Freire (1719-1773) — pseudônimo arcádico: Cândido Lusitano. Foi o grande teórico do Arcadismo português. Obras: Arte poética, Reflexões sobre a língua portuguesa, Dicionário poético.

Antônio Dinis da Cruz e Silva (1731-1799) — pseudônimo arcádico: Elpino Nonacriense. Fundador da Arcádia Lusitana, esteve no Brasil como juiz no inquérito da Inconfidência Mineira. Obras: Poesias (6 volumes), que incluem as Metamorfoses e o poema herói-cômico O hissope. Nos poemas escritos no Brasil, o autor antecipa a mitificação romântica da natureza brasileira.

Antônio Correia Garção (1724-1772) — pseudônimo arcádico: Córidon Erimateu. Obras: Obras poéticas, Dis­cursos académicos, Assembleia ou partida (comédia).

Domingos dos Reis Quita (1728-1770) — pseudônimo arcádico: Alcino Micênio. Considerado o melhor poeta lírico da Arcádia Lusitana. Obras: Obras poéticas.

Domingos Caldas Barbosa (1740?-1800) — pseudônimo arcádico: Lereno Selinuntino. Brasileiro nascido no Rio de Janeiro, mudou-se para Portugal em 1770. Obra: Viola de Lereno. Suas quadrinhas, modinhas e lundus, de caráter popular, contrastam com o rigor formal e erudito da poesia neoclássica.

Marquesa de Alorna (1750-1839) — Aos 8 anos, seus pais e avós, envolvidos na tentativa de assassinato de D. José I, foram condenados à prisão. Desde então, por dezenove anos, foi encerrada com sua mãe no convento de Cheias. Posteriormente, casou-se com um nobre alemão e morou dez anos no estrangeiro. Retornando a Portugal em 1793, fundou a Sociedade da Rosa, com o objetivo de combater a ameaça napoleônica. Em consequência, foi exilada na Inglaterra, onde viveu de 1803 a 1814.0 último período de sua vida foi dedicado à divulgação das ideias estéticas do Romantismo.

Como poeta neoclássico, seguiu os preceitos de sua escola e utilizou todas as convenções e temas repetiti­vos das academias. Mas, ainda assim, sua poesia ganha relevo, quando comparada à dos outros poetas árcades portugueses.

O Pré-romantismo de Bocage

Se Bocage se tivesse mantido apenas nos limites artificiosos da poesia acadêmica, ainda que a superasse em qualidade, seria só mais um poeta na lista que apre­sentamos ao lado. Aos poucos sua própria experiência de vida, seus dramas e crises pessoais foram se insinuando na criação poética, que se torna cada vez mais tensa, mais angustiada e angustiante, prenunciando o Romantismo do século seguinte. É essa poesia, cujo confessionalismo se transforma, esteticamente, em dolorosa expressão das angústias humanas, que o coloca num lugar especial em sua época e o faz um dos maiores autores portugueses de todos os tempos.

O otimismo da poesia neoclássica dá lugar ao pessi­mismo, ao desespero, ao tema da morte. Neste, como em muitos outros sonetos, o locus amoenus, expressão do otimismo neoclássico, é substituído pelo locus horrendus, a paisagem noturna e tétrica. Bocage passou para a História com a fama de boé­mio, piadista e poeta pornográfico. Ele pode ter sido tudo isso, mas evidentemente não é essa fama duvidosa, nem o recolhimento religioso e arrependido dos últimos anos de sua vida que fazem dele o principal autor português de todo o século XVIII.

Pertenceu à Nova Arcádia, com a qual rompeu de­pois de uma intensa polêmica com o académico Pé. José Agostinho de Macedo. Sua obra poética está reunida no livro Rimas, publicado em três séries sucessivas (1791, 1799 e 1804). Três novos volumes saíram postumamente, em 1813 e em 1842.