Raul Pompeia: Características, O Ateneu e o Impressionismo


Raul Pompeia (1863-1895)

Raul Pompeia nas­ceu em Angra dos Reis, estudou no inter­nato do Colégio Abílio, formou-se em Direito. Profundamente depri­mido e perturbado emocionalmente, sui­cidou-se numa noite de Natal, quando tinha 32 anos de idade. A infância passada no internato vai dar-lhe inspiração e subsídios para escrever sua obra-prima O Ate­neu. Durante o curso universitário, envolveu-se na campanha republi­cana tornando-se um ferrenho opo­sitor da Monarquia.

Raul Pompeia

“Cronica de Saudades”, como foi chamada pelo próprio autor, esta obra é narrada em primeira pessoa pelo menino Sérgio, de 11 anos, que narra suas amargas experiên­cias e recordações da vida no in­ternato. É uma narrativa que recria artisticamente, com uma mentali­dade adulta, as vivências infanto-juvenis do autor.

Impressionismo – A crítica à so­ciedade monárquica, depravada e corrupta, mais a análise psicológi­ca dos caracteres, liga esta obra à corrente do Realismo. A interpre­tação das atitudes dos persona­gens como reflexos de instintos animalescos, com destaque para as perversões, taras e vícios, es­tabelece sua ligação com o estilo naturalista. A deformação ou exa­cerbação da realidade, provocada pela carga emotiva das lembran­ças frustrantes que acompanha esta narrativa, classifica-a tam­bém como impressionista.

A ambiguidade preside todo o contexto da obra. O internato é um mundo onde o menino vai en­contrar todas as mazelas do mun­do lá de fora. E é, ao mesmo tem­po, o reflexo da podridão levada desse mundo exterior, para dentro do colégio. As relações de amiza­de entre os colegas são marcadas pela mistura de boas e más intenções. Sentimentos ingênuos e atitudes inocentes convivem com a malícia, a promiscuidade, os abusos contra essa inocência e a exploração dessa ingenuidade.

A miséria moral, o homossexualis­mo, enfim, toda essa corrupção desilude o jovem, destrói seus so­nhos, decepciona seu desejo de amizade e companheirismo. Aristarco, o diretor, é a encarna­ção da perversidade do sistema. Aristarco é grotesco, desumano, ganancioso e ególatra. Ele admi­nistra o colégio como uma casa de comércio, classificando os alunos pela ficha cadastral da família. D. Ema, esposa de Aristarco, que o abandona no final, torna-se substi­tuta da mãe dos meninos. Como ela é enfermeira, não é raro um ou outro aluno fingir-se doente para fi­car perto dela e de seus cuidados carinhosos. Acontece, porém, que para alguns ela também assume o papel da mulher, objeto sexual ideal e inatingível.

• A vingança final contra tudo aqui­lo que o internato significava foi o incêndio, provocado por Américo, um menino da roça, arisco e selva­gem, que Aristarco dizia ter orgu­lho de saber “domar”. O Ateneu desmorona, D. Ema desaparece e Aristarco, feito um deus caipora, a tudo assiste impotente.
O Missionário, de Inglês de Sousa, narra a história do padre Antonio Morais que, apesar de todo seu idealismo, é levado à depravação pelo ambiente excitante da Selva Amazônica e pelo caráter pervertido que herdou do pai.

A Carne, de Júlio Ribeiro, mos­tra o poder do instinto sobre a razão. Lenita e Barbosa são exemplos da animalização do sexo.
Luzia-Homem, de Domingos Olímpio, é um documentário muito importante que mostra o drama da seca e da miséria, enfrentadas pela força física e moral de uma sertane­ja. Crapiúna, um soldado corrupto, é rejeitado por Luzia e se vinga em Alexandre, amigo dela. Ao final, na tentativa de estuprar Luzia, o solda­do é cegado pelas unhas da moça. Luzia morre com uma facada no co­ração e o soldado, com os olhos va­zados, morre ao cair num precipício.

A Normalista, de Adolfo Caminha é a história de Maria do Car­mo, órfã de mãe, que o pai, indo para o Amazonas trabalhar nos seringais, entrega aos cuidados do padrinho, em Fortaleza. É o próprio padrinho quem estupra e engravida Maria do Carmo. Bom-Crioulo, também de Adol­fo Caminha, é outra importante obra do nosso Naturalismo. É a história de uma relação homossexual entre Aleixo, um grumete, e Amaro, o Bom-Crioulo, um marinheiro forte e violento. Quando Aleixo meigo e franzino se recusa a ceder aos bai­xos instintos de Amaro e se torna amante da dona da pensão, é assas­sinado por Bom-Crioulo.