Tendências Poéticas – Poesia Concreta: Dalton Trevisan – Características e Obras


Num certo sentido, reduplicava as inovações dos autores de 22, só que estes representavam uma classe social que precisava se modernizar em termos ideológicos, enquanto os irmãos Campos e seus poucos seguidores não tinham atrás de si nenhum respaldo social. Eles mesmos sentiram a necessidade de uma explicação histórica para o que produziam, relacionando a sua (anti) poética com a crise geral do artesanato frente à Revolução Industrial, da qual a “crise do verso” seria uma faceta.

Tendências Poéticas

O resultado foi uma poética de escassa receptividade pública, mas de inegável importância em termos de problematização estética. Houve um momento no país em que nenhum poeta lançava-se em sua carreira sem fazer a escolha concretista ou não-concretista. Por cima da auto-publicidade contínua do grupo, misturada com dogmatismo e certa dose de colonialismo cultural, os concretos efetivamente desintegraram aquele lirismo pretensioso dos antecessores, situados na geração de 45. Embora tivessem seguidores (mais até que leitores) apenas Ferreira Gullar -que abominou o movimento – transformou-se em poeta significativo. Os demais perderam-se num vanguardismo infantil. No final da década de sessenta, os concretos aproximaram-se dos tropicalistas e celebraram conjuntamente a derrocada da arte populista, o que levou o músico Caetano Veloso a saudá-los numa de suas composições.

A poética concretista, feita de muitos manifestos e poucas obras, poderia ser sintetizada assim:
•=> linguagem sintética, homóloga ao dinamismo da sociedade industrial;
•=> valorização da palavra solta (som, forma visual, carga semântica) que se fragmenta e recompõe na página;
•=>   o poema ganha o espaço gráfico com agente estrutural, em função de que deverá ser lido/ visto;
•=>    utilização de recursos tipográficos, etc.

A poesia concreta foi lançada oficialmente em 1956, com a exposição Nacional de Arte Concreta, realizada no Museu de Arte Moderna de São Paulo.

Dalton Trevisan(Curitiba, Paraná, 1925)

Tirante Machado de Assis, antes de Dalton Trevisan nenhum autor brasileiro conseguiria realizar uma obra tão característica e, ao mesmo tempo, tão importante. Com propriedade, um dos livros chama-se Os desastres do amor. Outro, A guerra conjugal. Os protagonistas procedem da classe média, da pequena-burguesia suburbana e de todos os núcleos “lúmpen”. São movidos sempre por um exacerbado individualismo e um desejo de gratificação da libido que parece desconhecer limites.

Solitários, embriagando-se até cair ou até morrer, batem nos filhos e nos cônjuges, sonham som adolescentes febris, sobressaltam-se com a morte, são internados em asilos, hospícios e prisões, escutam, atentos, acossados por uma esperança ou um receio qualquer, os passos e os ruídos noturnos. De vez em quando, por delírio de amor, assassinam ou se suicidam. Os homens usam bigodinho e têm caspas, as mulheres manuseiam agulhas de croché ou de tricô e colocam vidro moído na comida dos esposos. Enquanto isso, o vampiro ataca donzelas indefesas que executam valsas nos pianos.

Em suma, um retrato inquietante do Brasil urbano. Novelas nada Exemplares (1965); Morte na Praça (1966); Em Busca de Curitiba Perdida (1967); O Pássaro de Cinco Asas (1968); Os Desastres de Amor (1968); Ah, é? (Ministórias) (1969); A Guerra Conjugal (1969); Cemitério de Elefantes (1970); O Vampiro de Curitiba (1970); A Polaquinha (1977).

A temática inscreve-se numa linha de violência, degradação, explorando o lado instintivo do sexo. Cada relação é um embate, do qual alguém sempre sai ferido. A relação homem-mulher é sempre a viga-mestra da narrativa de Dalton Trevisan, envolvendo estupro, homossexualismo, incesto entre seres sempre em conflito: jovens, velhos, doentes, solitários, desajustados, beberrões. São seres anônimos, esmagados. As personagens não têm sobrenome e os nomes de batismo são tão repetitivos e previsíveis quanto as tramas. As mulheres são, quase sempre, Maria e os homens têm uma faixa mais ampla: João, José e, às vezes, outros.

A narração de Trevisan jamais é insípida, nem as histórias, monótonas, em que pese a abordagem direta e a patente ausência de inovação em suas intrigas. Crítico dos desregramentos burgueses, Trevisan instilou em todos os seus escritos uma ironia tão atordoante, que é difícil distingui-la do sarcasmo, martelando com um impacto contínuo a sátira à humanidade e a relação homem-mulher.

A tendência de Dalton Trevisan, no decorrer dos anos, tem sido para maior concisão. Perguntado sobre aonde o conduziria esse progressivo laconismo, Trevisan respondeu, gracejando: “ao haicai”(Nota: Haicai é modalidade de poesia oriental, chinesa ou japonesa, caracterizada pela extrema concisão: deve ter dezessete sílabas).

Trevisam emprega a “caracterização instantânea”, com descrições estáticas, cujo impacto abrupto está fora de qualquer proporção com suas limitações gráficas. Tais descrições podem ser uma simples frase de uma ou duas linhas, ou menos ainda. Um hábito, um olhar, um modo particular de admirar uma mulher, enganar um marido ou espancar a esposa são pinceladas inacabadas, mas altamente reveladoras do repertório de caricaturas do autor. Exemplos: em No Beco (Novelas Nada Exemplares), a sensual namorada de João é, logo de saída, deliciosamente espontânea: “… tirou o seio do vestido como um peixe de dentro do rio”. Em Olhos Azuiz mais Lindos (A Faca no Coração), a vida inteira de João passa de relance numa única e sugestiva informação: “… exibia o grande calo no indicador – de tanto erguer saia de moça.”