Tipos de poemas, Rima, Métrica e Estrofe


Rima,
É a igualdade ou semelhança de sons no final de cada verso, como está exemplificado no poema a seguir, do poeta Vinícius de Morais (a letra maiúscula ao lado do verso indica o tipo e a posição da rima).

Tipos de poemas

As rimas ABBA são opostas ou interpoladas.
Outras rimas: rima emparelhada – AABB; rima cruzada ou alternada ABAB; rima misturada ABCDA.
Modernamente, os grandes poetas praticamente abandonaram essa rima esquematizada; para eles, há um ritmo e uma cadência que tipificam o verso; por isso, na poética de hoje predomina o verso branco sem rima tradicional.

Existe também a rima que acontece no meio do verso:
•     paranomásia no mesmo verso, uma rima próxima da outra;
Amar o que o mar traz à praia
Carlos Drummond de Andrade

•    assonância no mesmo verso, uma rima ao lado
da outra;
Horas do ocaso, trémulas, extremas
Cruz e Sousa
•    aliteração repetição enfática do mesmo som
consoante.
e o vento vinha varrer a varanda
Camilo Castelo Branco
foge fluindo à fina flor dos fenos
Camilo Castelo Branco
Quanto ao valor, a rima pode ser:
•         rica palavras de classes gramaticais diferentes: tanto (advérbio) e encanto (substantivo);
atento (adjetivo) e pensamento (substantivo).
•         pobre – palavras da mesma classe gramatical:
procure e dure (verbos); canto e pranto (substantivos).
•         rara – palavras que raramente ocorrem: rubim e querubim.
•         preciosa — uma palavra com duas: estrelas e vê-las.
Métrica
No poema tradicional, usa-se (ou usava-se) medir as sílabas dos versos de uma estrofe ou de todo o poema. Essa contagem acontece somente até a última sílaba tónica do verso. Assim:
Na divisão silábica do verso, quando uma palavra termina em vogal átona e a seguinte começa com vogal também átona, forma-se uma só sílaba; por isso, “tão ” no segundo verso e “quea ” no terceiro.
Esses versos da primeira estrofe do poema “Canção do Exílio”, do poeta romântico Gonçalves Dias, são re-dondilhas.
Os versos medidos mais comuns:
•         redondilha menor – cinco sílabas;
•         redondilha maior – sete sílabas;
•         decassílabo – dez sílabas;
•         alexandrino – doze sílabas.
Na poesia contemporânea, são comuns os versos de contagem irregular de sílaba, que recebem o nome de versos livres, como estes do poeta modernista Manuel Bandeira:
O que eu adoro em tua natureza
Não é o profundo instinto maternal
Em teu flanco aberto como uma ferida.
Nem tua pureza. Nem tua impureza.
O que eu adoro em ti – lastima-me e consola-me!
O que eu adoro em ti é a vida.
Estrofe
Trata-se de um verso independente ou um conjunto de versos. O poema “Soneto de Fidelidade”, de Vinícius de Morais, é composto de quatro estrofes: dois quartetos e dois tercetos.
•         Estrofe de dois versos: dístico.
•         Estrofe de três versos: terceto.
•         Estrofe de quatro versos: quarteto.
•         Estrofe de cinco versos: quinteto ou quintilha.
•         Estrofe de seis versos: sexteto ou sextilha.
•         Estrofe de dez versos: décima.
Soneto
Poema lírico de quatro estrofes (dois quartetos e dois tercetos). O soneto a seguir é de Vinícius de Morais.
SONETO DE DEVOÇÃO
Essa mulher que se arremessa, fria E lúbrica aos meus braços, e nos seios Me arrebata e me beija e balbucia Versos, votos de amor e nomes feios.

Essa mulher, flor de melancolia Que se ri dos meus pálidos receios A única entre todas a quem dei Os carinhos que nunca a outra daria.
Essa mulher que a cada amor proclama A miséria e a grandeza de quem ama E guarda a marca dos meus dentes nela.
Essa mulher é um mundo! – uma cadela Talvez… – mas na moldura de uma cama Nunca mulher nenhuma foi tão bela!
Epigrama
Antigamente: poema breve, com alguma sutileza e, se possível, sarcasmo. O exemplo a seguir é do poeta romano Marcial.
Quinto ama Taís. Que Taís? A caolha. Ela é cega de um olho. Ele, dos dois.
Hoje: poema breve, sensível, com alguma sutileza e temas variados. O exemplo seguinte, “Drummondiana”, é do poeta contemporâneo José Paulo Paes.
Quando as amantes e o amigo Te transformarem num trapo, Faça um poema, Faça um poema, Joaquim!
Haicai                cai, haikai)
De origem nipônica, é um poema breve de três versos que ganhou força por intermédio de Matsuô Bashô. Originalmente, o primeiro verso era uma redondilha menor; o segundo, uma redondilha maior e o terceiro, uma redondilha menor (5, 7, 5). Atualmente, apresenta três versos livres. Os exemplos a seguir são do poeta paranaense Paulo Leminski.
Tarde de vento. Até as árvores querem vir para dentro.
Abrindo um antigo caderno foi que eu descobri: antigamente eu era eterno.
Outros tipos de poema
•         Epitalâmio – celebração de um casamento.
•         Madrigal – poema breve de elogio discreto ou
de discreta declaração de amor.
•         Ditirambo – poema de elogio.
•         Écloga –  poesia de temas pastoris.
•         Elegia – versos que expressam melancolia.
•         Canção – letra de música.
•         Hino – homenagem à pátria, à cidade, ao clube.
•         Bucólica – qualquer poema de temas pastoris e
(ou) rurais.

•         Epitáfio – poema de túmulo.
•         Acróstico – poema cujos versos iniciam com
cada letra do nome de uma pessoa, etc.
Literatura não funciona como Matemática. Nesta, a exatidão domina as definições, os cálculos, etc.; naquela, nada é exato, ou seja, quaisquer definições e conceitos são questionáveis. Um exemplo: na poesia dos modernistas (1922), havia a proposta de acabar com a diferença entre um texto em versos e um texto em prosa (pro-sificação do verso ou verso prosificado). Manuel Bandeira e Oswald de Andrade prosificaram muitos versos. Isso continua ocorrendo até hoje, a ponto de muitos textos chamados de poemas serem, na verdade, verdadeiros contos. Outro exemplo: nos anos de 1950, três rapazes paulistas – Haroldo de Campos, Augusto de Campos e Décio Pignatari – criaram a poesia concreta, que valoriza o espaço da página, destrói o verso tradicional, privilegia a palavra e dá importância ao visual do texto. Os dois exemplos seguintes (o primeiro, “Lygia”; o segundo, “Tensão”) pertencem ao poeta Augusto de Campos.