Tomás Antônio Gonzaga e o Arcadismo no Brasil


No século XVIII, Minas Gerais – em decorrência da intensa atividade de extração mineral – era a capitania mais rica e populosa do Brasil e Vila Rica (hoje Ouro Preto) era o mais importante centro urbano da época. O nascimento do Arcadismo no Brasil reflete a condição do intelectual brasileiro no século XVIII: por um lado, recebia as influências da literatura e das ideias filosóficas vindas da Europa e, por outro, interessava-se pelos assuntos da Colônia e sonhava com a independência política.

Cláudio Manuel da Costa, Tomás Antônio Gonzaga, Basílio da Gama e Santa Rita Durão são alguns dos escritores brasileiros que produziram obras significativas no período.

Tomás Antônio Gonzaga

O nome do movimento árcade vem de Arcádia, uma região habitada, segundo a mi­tologia grega, por pastores que se dedicavam à música e à poesia. Essa região representava o ideal de comunhão entre o homem e a na­tureza e era celebrada nos poemas pastoris da Antiguidade como uma espécie de paraíso.

Por buscar a restauração dos modelos clássicos e sua reinterpretação à luz dos va­lores do século XVIII, o Arcadismo também é conhecido por Neoclassicismo.

À retomada desses modelos se devem o uso das alusões mitológicas, a idealização da natureza e da vida campestre, a celebra­ção da vida simples, o emprego do verso medido em padrão clássico, a identificação do “eu lírico” com um pastor e a adoção de nomes pastorais.

Árcades e inconfidentes

No século XVIII, a Europa vivia a efervescência do Iluminismo — também chamado de filosofia das luzes, foi um movimento que defendia principalmente a supremacia da razão, a igualdade entre os homens e os princípios da liberdade, especialmente de expressão. Essas ideias ecoavam não somente na Europa, mas também na América.

Em Minas Gerais, a população estava insatisfeita com as políticas tributárias de Portugal. Grande parte da popu­lação dessa capitania encontrava-se endividada, pois a Coroa taxava excessivamente a exploração de minérios.
Esses fatores – a influência das ideias iluministas e a insatisfação com a elevada tributação imposta pela Metrópole -, entre outros, culminaram na Inconfidência Mineira (1789), ou Conjuração Mineira, que pretendia tornar a capitania independente de Portugal.

Desse movimento participaram os árcades Cláudio Manuel da Costa e Tomás Antônio Gonzaga e outras perso­nalidades, como o alferes Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes. Com a traição de Joaquim Silvério dos Reis, os envolvidos foram presos.

Antes de ser julgado, Cláudio Manuel da Costa foi encontrado morto na prisão, o que se atribui a suicídio, embora existam suspeitas de que tenha sido envenenado.

Tomás Antônio Gonzaga foi condenado e recebeu pena de degredo, sendo mandado para Moçambique, onde viveu até sua morte.

Considerado por muitos como o principal propagandista das ideias de rebelião, Tiradentes foi condenado à morte por enforcamento. Seu corpo foi esquartejado e as partes foram expostas por Vila Rica.

Tomás Antônio Gonzaga

Considerado um dos principais poetas árcades brasileiros, Tomás Antônio Gonzaga (1744-1810) formou-se em Direito em Coimbra, Portugal.

Retornando ao Brasil, passou a viver em Vila Rica, onde exerceu o cargo de ouvidor-geral da comarca e con­viveu com intelectuais, entre os quais Cláudio Manuel da Costa.

Já maduro, apaixonou-se pela jovem Maria Joaquina Doroteia de Seixas, imortalizada em suas liras como a pastora Marília.

Participou da Inconfidência Mineira, em 1789, o que lhe custou a prisão na fortaleza da Ilha das Cobras, no Rio de Janeiro, e depois a pena de degredo em Moçambique.

No exílio, depois de tanta desgraça e perda, Gonzaga pôde levar uma vida relativamente tranquila: casou-se com Juliana de Sousa Mascarenhas, com quem teve uma filha, voltou a ocupar cargos oficiais e enriqueceu.

Marília de Dirceu

Graças a amigos, mesmo estando preso na Ilha das Cobras, Gonzaga con­seguiu publicar em Lisboa, em 1792, a primeira parte das liras de Marília de Dirceu, considerada uma das líricas amorosas mais populares da literatura de língua portuguesa.

Nas liras de Marília de Dirceu, compostas de três partes, o canto amoroso une-se a outros temas, como a brevidade da vida, o elogio da vida simples, a velhice.

Embora temas e recursos árcades convencionais estejam presentes na sua obra, Gonzaga revela uma força renovadora em certos aspectos, como a presença da paisagem brasileira, contrastando vivamente com o cenário quase abstrato comum nos poemas árcades, e a expressão mais espontânea e emotiva, em contraposição à contenção dos sentimentos, própria das convenções do Arcadismo.

Fazendo referência a uma das liras de Marília de Dirceu, o escritor Manuel Bandeira comentou: “Nessa lira esqueceu o poeta a paisagem e a vida europeias, os pastores, os vinhos, o azeite e as brancas ovelhinhas, esqueceu o travesso
deus Cupido, e a sua poesia reflete com formosura a natureza e o ambiente social brasileiro…”.