Tomas Antônio Gonzaga, Marília de Dirceu e Poesia Épica do Neoclassicismo


Tomás Antônio Gonzaga (1744-1810?)

Nascido em Portugal, Tomás Antônio Gonzaga viveu na Bahia entre os 8 e os 19 anos, quando voltou a Portugal para estudar Direito em Coimbra. A partir de 1782, assumiu o cargo de ouvidor em Vila Rica, que exerceu até 1789. Foi nessa época que escreveu as Cartas chilenas, série de poemas satíricos em forma epistolar que circularam em Vila Rica, anonimamente, em folhas manuscritas.

Tomas Antônio Gonzaga

Utilizando criptônimos, o missivista, Critilo (Tomás Antônio), envia suas cartas de Santiago do Chile (Vila Rica) a Doroteu (possivelmente Cláudio Manuel da Cos­ta), criticando satiricamente o governo de um pequeno déspota, Fanfarrão Minésio (o governador da Capitania de Minas, Luís da Cunha Meneses).

Já completara 40 anos quando se apaixonou por uma jovem de 17, Maria Doroteia Joaquina de Seixas. Quando o poeta venceu a oposição dos pais da namorada e oficializou o noivado, foi preso por sua participação na Inconfidência Mineira. O casamento nunca se realizou, mas esse namoro tornou-se o primeiro mito amoroso de nossa literatura e inspirou uma de nossas mais belas obras líricas — Marília de Dirceu.

Marília de Dirceu

Popularizadas com esse título, as Liras de Gonzaga são a obra mais importante do século XVIII brasileiro e uma das mais expressivas do Neoclassicismo em língua portuguesa. Como em outros autores, devem-se distinguir duas linhas de força nessa obra. São elas:
•   O convencionalismo neoclássico, em que o poeta faz uso de todos os clichês do Arcadismo, como o pastoralismo, o bucolismo, o locus amoenus e os temas do carpe diem e do fugere urbem.
•   O confessionalismo pré-romântico, sobretudo na se­gunda parte da obra, em que as convenções são muitas vezes rompidas pelo emocionalismo, a expressão da crise existencial do poeta.

O livro divide-se em duas partes (a autenticidade de uma terceira é contestada por muitos estudiosos da obra):
•   la parte — Predomínio das convenções neoclássicas. Os temas são o elogio da beleza de Marília, a insegurança e os ciúmes de Dirceu, os projetos de casamento e da felicidade conjugal, o elogio da vida simples e harmo­niosa. Os temas neoclássicos mal disfarçam a projeção biográfica.

•   2a parte — Escrita na prisão da Ilha das Cobras, em que se encontra a melhor poesia de Gonzaga. Os temas são a saudade de Marília, a solidão, o sentimento da injus­tiça. O tom confessional e o pessimismo prenunciam o emocionalismo romântico.

Poesia épica

O século XVIII foi pródigo nesse gênero. A maioria dos poemas, entretanto, só interessa hoje a estudiosos e especialistas. No Brasil, dois poemas épicos ganharam um lugar especial na história de nossa literatura: Caramuru, de Santa Rita Durão, e O Uruguai, de Basílio da Gama. Am­bos são importantes principalmente pelas inovações que trouxeram ao Neoclassicismo em língua portuguesa e pela antecipação de temas que seriam caros aos autores român­ticos do século XIX: a cor local (conjunto de elementos, sobretudo descritivos, do ambiente e da natureza local) em substituição ao locus amoenus da poesia europeia; assun­tos ligados à nossa história colonial; a introdução do índio como herói. O nativismo subjacente a esses novos temas prenuncia o nacionalismo da literatura romântica.

Caramuru

NATIVISMO — manifestação difusa de orgulho da terra natal, que leva o autor a exaltar sobretudo as qualidades da natureza.

Como se vê, o assunto é muito reduzido para um poema de dez cantos. O autor os preenche com longas narrações de fatos históricos, do século XVI ao século XVIII, e detalhadas descrições dos costumes indígenas e da flora e fauna brasileiras. Embora o Caramuru seja considerado inferior a O Uruguai, supera-o no que se refere à temática indianista, antecipando a tendência nacionalista de nossa literatura romântica.

O Uraguai

O Tratado de Madri (1750) estabeleceu a permuta, entre Portugal e Espanha, dos territórios da Colônia de Sacramento e dos Sete Povos das Missões do Uruguai. Os jesuítas espanhóis incentivaram os índios das missões a se rebelar, levando-os a uma guerra suicida contra os exércitos espanhol e português.

O poema de Basílio da Gama trata da expedição do governador do Rio de Janeiro, Gomes Freire de Andrade — herói do poema—, que destruiu completamente as mis­sões jesuíticas do rio Uruguai. O acontecimento central do poema é a Batalha de Caaibaté, em 1756, em que morreram 1.500 dos 1.700 índios que dela participaram.

O poema exalta tanto o herói português como seus adversários, os índios, idealizados e apresentados como vítimas dos jesuítas, os verdadeiros vilões da história. Esses são personificados caricatamente na figura do terrível Pé. Balda. Lembremos que o poema foi publicado em 1789, durante o governo do Marquês de Pombal, que expulsara os jesuítas dos territórios portugueses. Basílio da Gama introduziu uma série de inovações em relação ao modelo camoniano, que se impunha à imitação neoclássica.

O Uruguai

• Modelo camoniano
•   cinco cantos
•   sem divisão estrófica
•   versos decassílabos
•   versos brancos (sem rima)
•   dez cantos
•   estrofes de oitava-rima (oito versos)
•   versos decassílabos
•   rimas: ABABABCC

Estrutura do poema

I — Introdução:
•   Abertura (Canto I, versos l a 5);
•   Invocação e Proposição (Canto I, versos 6 a 9): Invocan­do a Musa, a voz épica propõe-se a honrar o herói, que subjugou os índios do Uruguai e vingou a afronta dos jesuítas às determinações do rei de Portugal;
•   Dedicatória (Canto I, versos 10 a 20): O poema é dedicado a Mendonça Furtado, ministro da Marinha e Ultramar, irmão do Marquês de Pombal;
II — Narração (Canto I, verso 21 ao Canto V, verso 139);
III — Peroração (Canto V, versos 140 a 150).