Deterioração dos termos de troca


A deterioração dos termos de troca é um conceito da década de 50, mas que se aplica integralmente à análise da economia nos dias atuais.

Deterioração dos termos de troca

O termo de troca é um modelo criado para dar parâmetro à análise da competitividade econômica de um país em relação aos demais. Consiste na diferença entre o valor dos produtos importados e exportados.

A deterioração dos termos de troca é um termo criado por Raul Prebisch, um economista argentino, que esteve à frente de um projeto criado na década de 50, cuja finalidade era abordar a economia da América Latina a partir da relação de trocas. Até então, constatou Prebisch, todos os estudos econômicos eram orientados para as economias mais desenvolvidas, concentradas no Hemisfério Norte.

O CEPAL – Comissão Econômica para a América Latina – órgão vinculado à ECOSOC, agência da ONU, que tinha por finalidade a promoção do desenvolvimento econômico das regiões em estágio de subdesenvolvimento, estabeleceu uma nova visão da economia global, a partir do interesse dos países subdesenvolvidos e da análise das razões para esse subdesenvolvimento.

Os estudos da CEPAL tiveram grande repercussão no continente latino-americano, influenciando nas políticas adotadas por vários países desde então. De um modo geral, os estudos de Prebisch e a nova visão da economia a partir da condição do lado mais fraco da balança levaram os países da América Latina a empreender projetos de desenvolvimento a partir da industrialização, o que gerou reação norte-americana, que promoveu a derrubada dos principais governos democráticos do continente, que estiveram submetidos a sangrentos regimes autoritários.

Commodities e valor agregado

A razão da política norte-americana para a América Latina, em grande parte, está ligada à deterioração dos termos de troca. As economias com alto grau de industrialização tendem a levar vantagem na relação comercial com as economias meramente agropecuaristas e voltadas para extração, como era o caso dos países latino-americanos.

Na teoria de Prebisch, essa relação gerava dependência das economias subdesenvolvidas em relação às economias do chamado Primeiro Mundo. Historicamente, a América Latina ficou para trás no processo de industrialização. A Revolução Industrial, que teve início no final do Século XVIII tardou a chegar no continente latino-americano, ainda vivendo o período colonial.

Os processos de independência só tiveram curso na primeira metade do Século XIX, mas os países, envolvidos em conflitos, demoraram a se consolidar enquanto estruturas político-econômicas. Ao se manterem produtoras de commodities e importadoras de produtos industrializados, alimentavam o parque industrial dos países desenvolvidos com matérias-primas, vendidas a preço baixo, e importavam produtos com alto valor agregado, que chegavam muito mais caros, provocando um permanente desequilíbrio comercial.

De um modo geral, a política externa das grandes potências econômicas sempre incentivou a criação de mercados para seus produtos de maior valor agregado, fazendo, de certo modo, alianças com setores políticos, econômicos e sociais nos países mais pobres. Em contrapartida, a industrialização e fortalecimento do mercado interno dos países mais pobres tem sido a obsessão dos governos chamados “desenvolvimentistas” da América Latina mesmo antes do surgimento da CEPAL. O mercado interno forte tende a fortalecer as commodities nacionais através do consumo e a industrialização tem influência na balança comercial, a partir do momento em que o país passa a exportar tecnologia e produtos com alto valor agregado.

O Brasil e um exemplo de deterioração dos termos de troca

O Brasil viveu na década passada um excelente momento econômico, com forte investimento em infraestrutura, fortalecimento do mercado interno e aumento da base de mão de obra com maior qualificação profissional.

Um dos fatores que impulsionou a economia do país foi a valorização das commodities brasileiras, bastante concorridas por economias em franco crescimento, particularmente a da China, o que fez com que houvesse uma mudança na matriz comercial, com ampliação de parceiros ao redor do mundo.

A atividade industrial, todavia, não participou com a mesma intensidade desse momento. Ainda que seja razoável concluir que políticas de desenvolvimento apresentam resultados gradativos, muitos analistas econômicos entendem que a supervalorização da moeda brasileira levou à estagnação da produção de bens de capital no país, uma vez que a importação de máquinas e equipamentos no exterior ficou mais barata do que a produção dos mesmos no país.

Essa valorização da moeda é, de um modo geral, proporcional à melhora das condições dos termos de troca. Com os produtos brasileiros valorizados, valorizou-se também a moeda. O que alguns economistas chamam de “estouro da bolha das commodities”, que ocorreu no início da década atual, com arrefecimento da demanda e queda abrupta nos preços, levou a economia brasileira a uma situação crítica, com forte queda da arrecadação, desvalorização acima de 100% do real e aumento do preço dos bens de capital estrangeiro, em consequência da desvalorização da moeda nacional.

Em resumo, o que houve no Brasil – não que se deva atribuir a isso toda a culpa pela crise econômica – foi uma deterioração dos termos de troca. A título de conclusão: quando isso ocorre, para que os agentes econômicos nacionais possam ter o mesmo faturamento, são obrigados a produzir muito mais, o que aumenta o custo de produção, reduz o lucro e pode levar produtores e indústrias ao colapso.