Ortografia, Ortofonia e Reforma Ortográfica


O motivo principal que moveu a reforma ortográfica é a unificação da língua. Vem, a refor­ma, facilitar a comunicação. Já não era sem tem­po. Agora, finalmente, vamos poder colocar em dia a correspondência com nossos irmãos de Portugal, Angola, Cabo Verde e São Tome e Prín­cipe. Tenho certeza de que muita gente não es­crevia para os amigos de Lisboa por medo de não ser entendido. Com a reforma, haja selo.

Voltam a existir no nosso alfabeto o k, o y e o w, injustamente cassados durante tanto tem­po. Que alívio, vou poder chamar qualquer Wal-ter sem sentimento de culpa. Willem, meu ami­go holandês, está feliz da vida, se sentindo mui­to mais brasileiro. Sem falar no Wanderley, que está duplamente feliz, e no Washington, da W/Brasil, que anda dando pulos de alegria. Na televisão, vão repassar todos os filmes de Kirk Douglas e do Danny Kaye.
Somem alguns acentos, a não ser, é claro, as exceções. Evidentemente, tinham de deixar algumas, senão, não seria regra.

Ortografia, Ortofonia

A única coisa que está me preocupando nes­sa reforma é que o trema vai sumir. O trema, gente. Esses dois pingos tão importantes que todo mundo usa quando escreve. O quê? Há muito tempo que você não usava trema? Que perigo! Sem o trema, o pinguim vira pinguim, o alcaguete vira alcaguete, e , o mais perigoso de tudo: a linguiça vira linguiça.

“Como é que a gente vai comer linguiça sem o trema? Vai estragar. Você chega ao botequim e grita:
–  Seu Lourival, me dá um sanduíche de lin­guiça.
Depois de algum tempo, o dono do bote­quim, que você conhece há anos, entrega o seu pedido:
–    Seu Lourival, esta linguiça está estragada.
–    Como assim?
–    Está sem trema.
–    A culpa não é minha, é da reforma.
–     Não interessa. Eu não vou comer uma lin­guiça sem trema. Vai me fazer mal.
–    O senhor pode comer tranquilo.
–     Não posso, porque tranquilo também não tem mais trema. Vou ter de deixar de frequentar o seu botequim, uma vez que a sua Sequência não é mais a mesma.
–    O senhor acha?
–     Claro, a sua frequência não tem mais trema.

Orientações ortográficas

Observe as regras a seguir, mas lembre-se de que sempre há uma exceção.
•         Após ditongo, emprega-se x: faixa, feixe, caixão. Exceções: recauchutar e seus derivados.
•         Após “en” inicial, emprega-se x: enxada, enxa­queca, enxaguar. Exceção: encher, palavra deri­vada “cheio”.
•         Após “me” inicial, emprega-se x: mexicano, mexer, mexilhão. Exceção: mecha (de cabelo, por exemplo).
•         Palavras aportuguesadas do inglês e de origem indígena ou africana sempre usam x: xavante, xingar, xerife, xampu.

A cronica de Jô Soares evidencia alguns usos da lín­gua portuguesa que são, muitas vezes, negligenciados, como o trema. Para escrever corretamente precisamos obedecer a um padrão estabelecido por convenção, a qual dita todos os critérios etimológicos (origem das palavras) e fonológicos (fonemas representados) que devem ser seguidos por todos os países em que a língua portuguesa é oficial. A última reforma ortográfica foi feita em 1971. Ultimamente, os países de língua portuguesa têm discu­tido a possibilidade de uma nova reforma, para simplifi­car, por exemplo, o uso do hífen e a eliminação do tre­ma, mas até agora nada mudou.

Nosso idioma apresenta formas diferentes de repre­sentar um mesmo fonema, por isso, algumas pessoas aca­bam se confundindo na hora de escrever, principalmente quando se tratam de palavras com x, ch, s, z, g e j.

A letra x pode representar dois fonemas, pronunciados como /ks/: axila, anexo, saxofo­ne, látex, reflexão.

Letras g e j

Usa-se a letra g
•        nas palavras terminadas em -agem, -igem ou – ugem: coragem, ferrugem, origem (Exceções: pajem, lambujem);
•        nas terminações -ágio, -égio, -ígio, -ógio e -úgio: pedágio, colégio, prestígio, necrológio, refúgio.

Usa-se a letra j
•        nas palavras de origem africana e tupi: pajé, can­jica, manjericão (Exceção: Sergipe);
•        nos verbos terminados em -jar: viajar, arranjar, sujar;
•        nas palavras derivadas de outras que já são gra­fadas com j: laranjeira, lojista, lisonjear.

Fonema /Z/ (letras s e z)

Usa-se a letra s
•        nas palavras derivadas de uma primitiva grafada com s: casa – casinha/casebre, rosa – roseira/rosado;
•        nos sufixos -és, -esa (chinês, burguesa, campo­nês, baronesa), -ense, -oso e -osa (paranaense, amorosa, chuvoso);
•        após ditongos: causa, ausência, lousa; nas formas do verbo pôr e querer: pus – puse­ra, quis – quisera;
•    no sufixo -isa (indicador de feminino): sacerdo­tisa, profetisa, pitonisa.

Usa-se a letra z nos sufixos
•        -izar (formador de verbos): realizar, catequizar (catequese), hospitalizar.
•        -ização (formador de substantivos): realizar – realização, catequização, hospitalização.
•        -ez e -eza (formadores de substantivos abstratos derivados de adjetivos): belo – beleza, macio – maciez, rápido – rapidez, avaro — avareza.
• de palavras derivadas de uma primitiva grafada com z: deslize – deslizar, rapaz – rapazinho, raiz – enraizar.

Não confunda a orientação acima com as palavras que já são grafadas com s, às quais é apenas acrescentado o sufixo -ar para formar verbo. Por exemplo: pesquisa – pesquisar, aviso – avisar, aná­lise – analisar.

Fonema /S/ (letras s, c, ç, x ou dígrafos se, sç, $s, xc, xs)

Correlação nd/ns em substantivos formados a partir de verbos: suspender – suspensão, expandir – expansão, pretender – pretensão, ascender – ascensão.

•         Correlação ced/cess em nomes formados a partir de verbos: ceder – cessão, exceder – excesso, conceder – concessão, aceder – acesso.
•         Correlação ter/tenção em nomes formados a partir de verbos: abster – abstenção, ater – atenção, deter – detenção, reter – retenção, conter – contenção.
•         Algumas palavras que usam se: adolescência, ascender (subir), ascensorista, crescer, descender, disciplina, fas­cículo, fascinante, piscina, imprescindível, nascer, obsceno, rescisão, ressuscitar, seiscentos, transcender.
•         Em algumas palavras, o fonema /s/ é representado pela letra x: auxílio, êxtase, sintaxe, texto, extrovertido, sexta, expectativa, trouxe.

Letras e e i
As formas dos verbos terminados em -oar e -uar são grafadas com e: abençoar – abençoe, perdoar – perdoe, magoar – magoe, continuar – continue, atuar – atue. As formas dos verbos terminados em -air, -oer e -uir são grafadas com i: cair – cai, doer – dói, possuir – possui.