Zeugma


As figuras de construção (ou a sintaxe) são recursos usados quando se deseja impor uma maior expressividade ao significado de uma sentença, ou seja, sempre que o locutor quiser realçar a sua mensagem. Essas representam um subgrupo das chamadas figuras de linguagem.

Assim se denominam esses recursos, porque apresentam algum tipo de modificação na estrutura padrão da oração, tendo em vista objetivos da enunciação – sendo que o principal é conferir ênfase a ela. São muito comuns na linguagem literária, publicitária e também cotidiana.

A estrutura sintática padrão da nossa língua se mostra numa sequência marcada pelos seguintes elementos: Sujeito + Predicado + Complemento. No momento em que acontece algum tipo de ruptura dessa sequência, caracterizada pela inversão de termos, repetição ou até mesmo pela omissão, mostra que as figuras de construção entraram em cena.

Zeugma

Zeugma e a omissão de elementos numa oração

O termo zeugma vem do grego zeygma, que significa “ligação”, “vínculo” ou “conexão”. A Zeugma é definida como uma espécie de vertente da Elipse (figura de construção que ocorre quando um ou mais termos são omitidos numa oração). Esse recurso também significa a omissão de elementos, porém, quando estes já foram mencionados anteriormente na sentença.

Na Zeugma, a repetição do termo acaba ficando subentendida e o recurso não prejudica a compreensão da sentença. Veja abaixo alguns exemplos:

– Maria gosta de Matemática, eu de Português. (Nesse caso, o verbo ‘gostar’ acabou omitido);

– Ele prefere um passeio pela praia; eu, cinema. (Aqui, acontece a omissão do verbo ‘preferir’);

– Ela gosta de história; eu, de física. (Mais uma vez o verbo ‘gostar’ acabou omitido),

– Na terra dele só havia mato, na minha, só prédios. (No exemplo, o verbo ‘haver’ foi omitido);

– Meus primos conheciam todos. Eu, poucos. (Neste, o mesmo aconteceu com o verbo ‘conhecer’);

– As quaresmas abriam a flor depois do carnaval, os ipês, em junho. (Aqui, o verbo ‘abrir’ se omite);

– Eu gosto de futebol; ele, de basquete. (De novo, o verbo ‘gostar’ é omitido);

– Em casa eu leio jornais; ela, revistas de moda. (Aqui, a Zeugma acontece com o verbo ‘ler’).

Essa figura de linguagem, mesmo carregando consigo um nome nada convencional, é comumente utilizada na forma escrita, pois é um recurso que permite a não repetição de termos que já foram utilizados antes.

A palavra suprimida pode não coincidir morfologicamente com o seu antecedente expresso, sendo que esses podem assumir uma forma “cognata” ou “semelhante”. Esse fator caracteriza uma outra espécie, mais específica, deste recurso: o Zeugma complexo. Esta é marcada pela omissão de uma palavra que, no ponto em que está oculta, assume uma flexão diferente da forma que apresenta a palavra explícita.

Nos exemplos citados acima, temos alguns casos de zeugma complexo, como na frase “Ela gosta de história; eu, de física”. Note que fica subentendida a ideia de gostar de física. No entanto, quando o verbo ‘gostar’ acaba omitido, tem flexão diferente de “gosta”, forma exposta na primeira oração, ou seja, está oculto o verbo “gosto”. Se as duas formas verbais estivessem explícitas, a frase tomaria a seguinte forma: “Ela gosta de história, eu gosto de física”.

Por exemplo, quando usados para caracterizar a Zeugma, os verbos “gostar”, “conhecer”, “haver” – expostos em suas formas padrão na primeira sentença – poderiam assumir as formas de “gosto”, “conheço”, “havia” na sucessora, que é a omitida.

A diferença entre duas figuras: Zeugma e Elipse

Na Zeugma, a palavra não dita já foi citada antes na oração, como já dissemos, ao contrário do que acontece na Elipse, que se caracteriza quando um termo ainda não usado é omitido. Isso ocorre de forma fácil de ser identificada, ou seja, essa omissão não dificulta a compreensão do sentido de uma frase porque os verbos flexionados já indicam as pessoas a que se referem.

A diferenciação significa uma interpretação tradicional de ambos os conceitos. Assim, a Elipse é o acontecimento linguístico que tem como caso particular a Zeugma – ou a própria Elipse num sentido mais restrito. Confira abaixo alguns exemplos de uso da Elipse e perceba sua diferença com a Zeugma:

– Tenho duas filhas, um filho e amo todos da mesma maneira. (Nessa casa, as desinências verbais ‘tenho’ e ‘amo’ nos permitem identificar o sujeito na Elipse “eu”);

– A cada um o que é seu. (A omissão não mudou o significado: que deve se dar a cada um o que é de seu direito);

– Como estávamos com pressa, preferi não entrar. (Nessa frase, acontece a omissão dos pronomes ‘nós’ e ‘eu’, ambos sujeitos, respectivamente, de ‘estávamos’ e ‘preferi’);

– Compramos café e leite; Marcos comprou torradas e queijo. (Neste exemplo, temos claramente uma Elipse do sujeito (no caso, o pronome pessoal ‘nós’).

– Ana estava atrasada. Preferiu ir direto para a escola. (Neste exemplo, o sujeito “ela” – Ana, no caso – acabou omitida);