Narração: Experiência de Leitura, Sequência Narrativa e Elementos Fundamentais


Narração

Narrar é, fundamentalmente, relacionar personagens e ações. Qualquer fato que se conta, vivido ou imaginado, implica necessariamente a presença desses dois elementos, que identificamos quando perguntamos o seguinte: O que aconteceu? -> FATOS OU AÇÕES Com quem? -> PERSONAGENS. Embora apresentem infinitas possibilidades de va­riação, nos inúmeros tipos de textos narrativos existentes, os personagens e as ações constituem os alicerces tanto das histórias verídicas — relatos, notícias, autobiografias, biografias, relatórios, diários — quanto das ficcionais — história em quadrinhos, piada, lenda, conto, romance, novela etc.

Narração: Experiência de Leitura

Além disso, as narrações são sempre realizadas a partir de um objetivo ou intenção e apresentam um determinado tema, ponto de vista ou tipo de enfoque a respeito de um assunto. Vamos conhecer melhor essas duas características do texto narrativo, por meio da leitura do texto que será trabalhado a seguir.

Experiência de leitura

A relação texto-contexto

Você percebeu que o texto lido pertence ao contexto jornalístico: ele foi retirado de um suplemento do jornal Folha de S. Paulo. Além disso, não se trata de uma notícia, ou seja, de um relato de fatos verídicos, mas de uma história em quadrinhos, criada por Laerte, um conhecido cartunista brasileiro.

Essas informações nos revelam que os leitores a quem o autor se dirige para contar a aventura de Suriá são crianças, um público que gosta de desenhos, cores, bichos e… personagens infantis. Laerte utilizou justamente esses elementos para criar uma narrativa fictícia, imaginada. Nela Suriá, a personagem principal, é uma criança, que pratica uma ação em geral apreciada pelas outras: visitar um aquário em companhia de um amiguinho e da mãe.

Dessa forma, o texto prende a atenção do leitor, interessa-o pelo que conta, fazendo com que ele se iden­tifique com o que leu. Além disso, procura dizer-lhe algo, transmitir-lhe uma mensagem. De modo geral, as narrativas ficcionais apresen­tam dois objetivos básicos, fundamentais:
•   distrair – divertir, seduzir e interessar o leitor, prendendo sua atenção.
•   instruir – ensinar, apresentando um tema ou um ponto de vista sobre determinado assunto.

Existem muitos tipos de narrativas ficcionais: em prosa e poesia, apenas com imagens, com imagens e palavras, apenas com palavras, narrativas teatrais, cinematográficas etc. Para adultos, jovens e crianças. Para todos os tipos e todos os gostos. Nelas, o que importa é imaginar, inventar e reinventar, fundamen­talmente relacionando personagens e ações, texto e contexto, objetivo e ponto de vista.

A sequência narrativa

Você notou que a história lida constitui uma se­quência de acontecimentos ou ações, criada por meio de dois quadrinhos. Percebeu também que os quadrinhos apresentam uma inversão de perspectivas ou pontos de vista: no pri­meiro, as crianças olham os peixes; no segundo, os peixes olham as crianças.

No entanto, em ambos os quadrinhos, o diálogo apresentado nos balões se repete, mostrando que, enquanto para as crianças os peixes estão presos dentro do aquário, para os peixes as crianças é que estão presas. Na sua opinião, o que Laerte nos permite concluir, por meio desse jogo entre imagens e palavras?

Objetivo e ponto de vista

Por meio desse exercício de leitura podemos afirmar que Laerte produziu uma história em quadrinhos muito interessante e criativa, com o objetivo de mostrar que le­mos e interpretamos o mundo de acordo com quem somos, com a nossa história, com os nossos valores. Uma consequência disso é que, por vezes, não con­seguimos reconhecer ou avaliar devidamente outras reali­dades que pertencem a mundos diferentes, como mostra a fala de Suriá sobre os peixes, que se repete na fala do peixe menor sobre Suriá e seu amiguinho.

O ponto de vista ou tema da história é justamente a ideia de que os pontos de vista são relativos. Portanto precisam ser constantemente repensados: não pode­mos confundir opiniões com verdades absolutas, é preciso saber relativizar os nossos pontos de vista.

A relação texto-contexto

Você percebeu que os textos têm o mesmo suporte: o jornal. Entretanto eles exemplificam diferentes tipos de narração: uma notícia e uma narrativa ficcional. Cada um desses tipos de narração se organiza de um modo específico: o texto l apresenta uma sequência de fatos e o texto 2 desenvolve o conteúdo do texto l para narrar uma história bastante divertida.

Já sabemos que tais diferenças se relacionam aos objetivos com que os textos foram elaborados: enquanto a notícia é um relato produzido com a intenção de infor­mar algo que realmente aconteceu, a narrativa ficcional é uma história inventada que pretende entreter os leitores e transmitir-lhes um ponto de vista sobre um assunto. No entanto ambos os textos apresentam os ele­mentos fundamentais constitutivos de qualquer tipo de narração, como veremos melhor, por meio do processo de releitura. Como os textos dizem o que dizem: da releitura para a produção.

Os elementos fundamentais do texto narrativo

O quadro a seguir faz a relação entre as perguntas que você respondeu e os principais elementos constitutivos do texto narrativo.
Quem? Personagens
Como? O modo pelo qual a ação ocorreu.
Quando? Tempo; o momento ou a época em que a ação ocorreu.
Onde? Espaço; o lugar onde a ação ocorreu.
Porquê? Causas, razões, motivos pelos quais a J ação ocorreu.
Por isso: Decorrências, resultados ou consequên­cias da ação.

Embora nem todos os elementos apresentados apare­çam de forma explícita em todas as narrações, é necessário considerá-los na elaboração de um texto narrativo para que ele tenha coerência, unidade e expressividade. Podemos concluir, portanto, que os personagens, as ações e as circunstâncias de tempo e lugar são as bases fundadoras do texto narrativo. A elas se acrescenta a forma como as ações ocorreram e as razões ou motivações que as desencadearam.

Tais elementos subordinam-se ao narrador, ou à voz que conta a história, e à linguagem, a matéria-prima de qualquer texto. Na notícia, quem narra os fatos é o repórter, o autor do texto. Já na história ficcional, o narrador se diferencia do autor, pois se trata de uma voz inventada, que o autor cria, como faz com os outros elementos narrativos: os personagens, as ações, o tempo, o lugar etc.

Além disso, enquanto as ações da notícia constituem fatos verídicos, as ações do texto de ficção são imaginadas e formam uma sequência que chamamos de enredo. Para sermos bons leitores, e consequentemente bons autores, é necessário distinguirmos o ponto de vista com que se conta uma história, seja uma notícia, seja uma nar­rativa ficcional.

Na narrativa ficcional, chama-se foco narrativo o estudo das posições do narrador perante a história, o conhe­cimento dos ângulos de visão através dos quais ele narra. Existem dois tipos básicos de foco narrativo: aquele em que o narrador participa da história como personagem (narração em primeira pessoa: personagem-narrador) e aquele em que o narrador se limita a narrar, sem fazer parte da matéria narrada (narração em terceira pessoa).

Características da notícia

Você já sabe que a notícia tem o objetivo de informar o leitor sobre fatos reais. Para cumprir esse objetivo, ela apresenta uma sequência de ações, com o máximo de clareza e objetividade. Dessa forma o texto fica enxuto, sucinto, reduzido ao essencial.