Sujeito indeterminado e a intenção do discurso


O sujeito de uma oração é aquele a quem se atribui a participação em um acontecimento, podendo ser o ator dessa ação ou afetado por ela. Por exemplo:

“Marcone alvejou o transeunte”
“O transeunte foi alvejado por Marcone”

Sujeito indeterminado e a intenção do discurso

A ação, nas duas orações, é praticada por Marcone. O transeunte é afetado pela ação de Marcone, mas em cada caso há um sujeito diferente. Na primeira oração Marcone é o sujeito. Já na segunda oração, o sujeito é o transeunte. No primeiro caso, a ação se refere a Marcone, no segundo ao transeunte, o que possibilita dizer que sujeito é aquele a quem a oração se refere.

Nos dois casos acima, o sujeito é determinado. O sujeito é determinado quando é possível identificá-lo na oração. Quando ocorre o contrário, quando não é possível identificar o sujeito, embora ele esteja sendo referido pela oração, o sujeito é indeterminado. Exemplo:

“Contam muitas histórias sobre navegação por essas paragens”

No caso acima, existe uma ação e a oração determina que alguém a pratica, mas não é possível identificar quem. Está caracterizado o sujeito indeterminado.

Mais adiante, serão tratados dois aspectos relacionados à ocorrência do sujeito indeterminado. O primeiro deles é determinar quais são os tipos de sujeito indeterminado que se pode usar numa oração, com a farta utilização de exemplos. O segundo aspecto a ser tratado é a intenção do discurso, algo próximo do que se poderia chamar de “análise semântica“, que nada mais é que um processo mental desencadeado pela decodificação pelo cérebro dos símbolos, estruturas, memória e significados atribuídos. Trata-se de um processo fundamental para que se dê vida à análise sintática, cuja finalidade linguística é formal.

Tipos de sujeito indeterminado

Existem dois tipos inequívocos de sujeito indeterminado, os quais serão demonstrados abaixo.

1 – Sujeito indeterminado expresso pela 3a pessoa do plural

O verbo, conjugado na terceira pessoa do plural descreve uma ação sem determinar quem a praticou. Ao usar a terceira pessoa do plural para atribuir a ação, o autor da frase praticamente exclui a primeira e a segunda pessoa. A ideia é de que alguém, que não nós, praticou a ação.

Exemplos:
– Picharam o muro da casa do Cirineu.
– Esqueceram uma carteira em cima do balcão.
– Cuspiram lá de cima e acertaram a cabeça do Dr. Maranhão, que vinha passando na hora.
– Andam fazendo sujeira da grossa em obras públicas.

2 – Sujeito indeterminado expresso pela 3a pessoa do singular “se”
A utilização dessa forma de sujeito indeterminado designa uma situação vivida pelo sujeito ou um hábito, etiqueta, ritual, costume, qualquer coisa cuja ocorrência é contínua, sistemática. Usa-se a terceira pessoa do singular seguida do pronome “se”, também chamada de índice de indeterminação do sujeito.

Exemplos:
– Usa-se scarpin para esse tipo de ocasião?
– Precisa-se urgentemente de um marido.
– Observa-se nitidamente que os traços conferidos por ele à sua obra relembram o estilo do famoso pintor napolitano.
– Paga-se muito bons salários nessa empresa, além de excelentes benefícios.

Além das ocorrências dos itens 1 e 2, defende-se a existência de outras formas de sujeito indeterminado.

Uma delas é o uso da terceira pessoa do singular sem o pronome “se”.

Exemplo:
“Conta que naquele tempo a palavra de um homem tinha valor”
“Diz que está fazendo um frio danado em Gramado”

Nos casos acima, percebe-se que os verbos “conta” e “diz”, podem ser substituídos por “conta-se”, “contam”, “diz-se” e “dizem”. Trata-se, porém, de uma abordagem coloquial e não formal da língua.

Há, também, linguistas que identificam a ocorrência de sujeito indeterminado no uso do infinitivo pessoal.

Exemplo:
“Navegar é preciso, viver não é preciso” (Fernando Pessoa).

É o caso de se analisar se existe a figura na língua portuguesa do “sujeito da reflexão”, afinal quem pratica a reflexão é aquele que a elabora, mas o caráter da reflexão, ou ensinamento, é universal, de modo que a abordagem proposta não deixa de ser polêmica.

Outro caso em que ocorre o sujeito indeterminado, também em abordagem coloquial, é a utilização de termos como “nego”, “neguinho”, “neguin” e “vagabundo” como forma de não identificar o sujeito.

Exemplos:
“Nego não quer saber de trabalhar”
“Vagabundo não é fácil, passa o rodo mesmo”

Intenção do discurso

A intenção do discurso é o elemento que dá sentido à oração com sujeito indeterminado. São várias as possíveis intenções que motivam o autor da oração a usar desse recurso.

Abaixo, algumas situações e a intenção dos discursos em cada uma das orações, de modo a dar a correta medida da importância da abordagem semântica e contextual.

“Mataram um rapaz lá na padaria essa semana”
A oração se refere a um sujeito realmente desconhecido

“Pegaram a minha barra de chocolate
Essa oração pode ser uma simples reclamação, a descrição de uma situação, uma ironia ou até uma ameaça. Nesse caso, é preciso colocar a frase no contexto.

“Pratica-se esporte por aqui ao acordar, antes de ir ao trabalho
A oração pode designar um hábito, mas também uma espécie de sugestão ou imposição, como se dissesse: “Todos praticam esporte. Você não vai praticar também?”

“Fizeram uma besteira enorme ao apoiar o golpe de estado”
A oração pode indicar que o autor está excluindo a ele e ao interlocutor da ação, mas pode ser também uma forma de ironia com o próprio interlocutor.

É possível encontrar diversas finalidades para a utilização do sujeito indeterminado. Por isso mesmo é tão importante a abordagem da intenção do discurso no estudo da língua, haja vista ser o mesmo o caminho a ser seguido para entender como a língua e os símbolos servem às pessoas para expressar os mais diversos sentimentos e intenções, muitas vezes usando as mesmas palavras.