Análise do Discurso


Dentre todas as ciências humanas, a linguística é considerada como a mais núcleo duro. Ou seja, – e sem parecer paradoxal – a ciência mais exata dentre todas as ciências humanas. Isso porque tal ciência usa métodos bastante exatos para estudar um fenômeno que não e nem um pouco exato e depende de vários aspectos contextuais, que não podem ser previsto por uma metodologia específica – para isso, basta lembrarmos a enorme quantidade de “maneiras de falar” em português brasileiro, que são todos corretos do ponto de vista dos linguistas porque são perfeitamente possíveis de entender.

Análise do Discurso

Para se ter ideia desta exatidão, os fenômenos linguísticos são estudados através de categorias previamente definidas, cada uma se ocupando de seu objeto de estudo. Assim, temos a:

  • Fonética e fonologia, responsável por estudar as palavras e os sons de qualquer língua;
  • Morfologia, que se ocupa dos processos de formação de palavras para diferentes usos e em diferentes situações;
  • Sintaxe, que estuda as relações de independência e interdependência que as palavras estabelecem em uma frase;
  • Semântica: estuda a significação de palavras dentro de variados contextos, sejam eles orações, frases ou textos;
  • Pragmática: estuda a significação dentro de contextos que extrapolam determinado meio, e leva em conta a interação ocorrida entre os locutores envolvidos em determinada situação de comunicação.

No entanto, e apesar dessas categorias serem regras no âmbito da linguística, há algumas disciplinas dedicadas aos estudos linguísticos que extrapolam esses níveis, a exemplo da análise do discurso.

Entendendo o conceito

O próprio nome da disciplina nos dá uma boa pista do que afinal consiste a análise do discurso. Discurso é entendido como sendo toda e qualquer palavra proferida em qualquer gênero textual, ou seja, não estamos tratando somente do discurso feito por políticos e empresários, mas o que é falado ou escrito por pessoas comuns, nas situações mais cotidianas possíveis. Análise indica um arsenal de ferramentas e métodos para fazer o estudo de determinado fenômeno. Assim, análise do discurso pode ser definida como um arsenal de técnicas para estudar fenômenos linguísticos de diversas naturezas. Mas é necessário refinar um pouco mais essa definição.

Quando falamos em discurso, em vez de fala ou qualquer ato de proferir palavras, seja ele oral ou escrito, estamos tratando de algo muito mais complexo que simples palavras postas em determinadas ordens. Estamos tratando de algo que foi dito em determinado contexto sócio-histórico, econômico e cultural, e é justamente essas características que fazem dele um discurso. Dito de outra forma, a análise do discurso visa analisar as construções ideológicas presentes em determinado texto.

Escolas e conceitos

Devido a seu histórico, é muito comum dividir este campo de estudo em duas grandes escolas: a americana e a europeia ou francesa. Vale destacar que a contribuição dos estudos linguísticos americanos reside principalmente na pragmática, ou seja, nos estudos interacionistas. Assim, analisar o discurso seguindo as tradições da escola americana implica em adotar uma análise empírica do sujeito interacional.

Já pelo lado da escola europeia, misturam-se teorias que constroem um arsenal bastante significativo para analisar os discursos – podemos afirmar com toda convicção que é esta escola utilizada pela grande maioria dos pesquisadores brasileiros, já que o intercâmbio entre estudiosos brasileiros e franceses e bastante frequente. Assim, nesta escola se misturam conceitos e métodos advindo do marxismo (método de análise social e econômico advindo da antiga URSS pautada na transformação de classes a partir de uma visão social e material), psicanálise (estudos sobre o inconsciente humano elaborado por Freud) e, claro, a linguística. Por ser a escola mais utilizada no Brasil, vamos explorar alguns conceitos.

Os principais nomes da AD francesa inclui autores mundialmente consagrados, como MIchel Pêcheux, Micheel Foucalt, Jacqueline Althier-Revuz, Paul Henry, Eduardo Guimarães, Antonie Fuchs Cucioli e Dominique Maingueneau. Aliás, Maingueneau e o autor que possui os conceitos mais operacionais em termos de AD, por assim dizer.

Um de seus conceitos mais interessantes reside na grande semântica. Todos nós só somos sujeitos pois temos uma história permeada por aspectos sociais e históricos. Esses aspectos fazem que sejamos diferentes uns dos outros, e por isso tudo o que o outro diz e traduzido a partir daquilo que sou, ou seja, é interpretado a partir de minha grade semântica. Isso significa que a língua é um exercício de “tradução” constante, mesmo que haja diversos aspectos em comuns para que os sujeitos se entendam.

Ethos, um conceito elaborado na antiguidade clássica por Aristóteles, e reformulado por Maingueneau é definido como uma maneira de dizer que é inseparável de uma maneira de ser. De maneira simples, podemos dizer o ethos e o “tom” que emerge conforme o discurso é construído, ou seja, é um processo de influência sobre os pares.

Por fim, cabe destacar que a análise do discurso e muito mais ampla do que foi dita aqui e tem extrema importância não só nos estudos linguísticos, mas também em diversas outras áreas que devem levar aspectos ideológicos em conta.