Contribuições de Oliveira Viana e Sérgio Buarque de Holanda na Sociologia


Oliveira Viana e a defesa da modernização autoritária

Um importante intelectual que escreveu entre os anos 1910 e 1950 sobre a formação social no Brasil foi Oliveira Viana (Rio de Janeiro, 1883-1951). Esse autor é conhecido por enfatizar a necessidade de soluções auto­ritárias para manter a ordem social, ao propor que o Estado central, e não mais as elites regionais e provinciais, desempenhasse um papel mais importante na ordem jurídica, social e política do país.

Para Oliveira Viana, havia uma espécie de divórcio entre o Brasil legal e o Brasil real, isto é, entre as ins­tituições políticas e a realidade social, entre a letra da lei e a sociedade, frágil e amorfa. Nesse contexto, fazia sentido esperar da sociedade projetos e iniciativas de mudança ou, ao contrário, cabia ao Estado impor uma nova organização nacional à sociedade brasileira?

Contribuições de Oliveira Viana e Sérgio Buarque de Holanda

Oliveira Viana criticou o universalismo contido nas teorias evolucionistas. Para ele, não havia uma linha evolutiva única para a humanidade, embora acreditasse em superioridade e inferioridade racial e cultural. Desse modo, cada raça era única em sua própria evolução, feita com base em um conjunto complexo de causas as mais diversas, como o espaço geográfico, a história, as instituições, a cultura, além do aspecto propriamente biológico.
Assim, não havia por que uma raça, ou determinado agregado humano, simplesmente copiar as instituições de outra raça, por mais civilizada que essa pudesse ser.

O que era possível fazer, no caso brasileiro, era melhorar nossa raça através da eugenia (ver Conceitos socio­lógicos ao final da unidade): havia, portanto, que se considerar a potencialidade do branqueamento da população via imigração de trabalhadores europeus.

Oliveira Viana fez uma interpretação da formação da sociedade brasileira que passava pela valorização do papel do latifúndio. Para o escritor fluminense, o povo brasileiro teria uma essência eminentemente rural e uma história em que não havia rupturas profundas, tampouco conflitos ou revoluções. Contudo, essa mesma psicologia política que tornou nosso povo tão pacífico e ordeiro, fazia com que ele estivesse pre­disposto a aceitar determinadas formas de dominação e arranjo político, uma vez que nossa sociedade não tinha elementos para se auto-organizar. Daí sua crítica à importação de ideias e instituições que não teriam nada a ver com nossa realidade política, como a democracia, o liberalismo, o federalismo, etc.

Sérgio Buarque de Holanda e a crítica Às nossas raízes rurais

Outro autor importante a problematizar a transição para a modernidade foi Sérgio Buarque de Holanda (São Paulo, 1902-1982). Em seu livro Raízes do Brasil, publicado em 1936, procurou identificar quais traços arcaicos e tradicionais estavam sendo superados e quais as perspectivas de mudança que se avistavam no horizonte. O método de interpretação de Sérgio Buarque, em Raízes do Brasil, se aproximou de uma sociologia de tipo weberiano (ver Conceito sociológico no final desta unidade), do sociólogo alemão Max Weber (1864-1920). Ele procurou selecionar os traços, as características mais significativas da realidade nacional a fim de construir esquemas de interpretação abstratos que captassem o que fosse mais típico da formação social brasileira. Assim é que, em Raízes do Brasil, o autor tentou compreender a cultura personalista, presente nas sociedades ibéricas (Portugal e Espanha), e como elas foram difundidas com a colonização nas Américas. Também contribuiu para nossa (má) formação social, o peso que o patríarcalismo (ver Conceito sociológico no final desta unidade) teve na cristalização de nossas heranças rurais.

O patriarcalismo estava na base do valor dado pelos brasileiros às relações pessoais em detrimento dos valores tipicamente burgueses, tais como: o princípio da impessoalidade, do individualismo, etc. Em suma, a sociedade brasileira exibia sinais que tinham muito pouco a ver com uma sociedade tipicamente liberal, burguesa e moderna. Nesse sentido, como esperar que essa sociedade pudesse se modernizar na ausência de características modernas? Como supor que essa sociedade pudesse vir a ser democrática sem ter valores democráticos difundidos?

No Brasil, afirma o autor, a democracia foi sempre um mal–entendido, já que aqui predominaram formas de dominação personalistas, clientelistas, autoritárias e, portanto, ibéricas, isto é, distantes de um padrão ideal anglo-saxão democrático e universalista. “Em terra onde todos são barões não é possí­vel acordo coletivo durável, a não ser por uma força exterior respeitável e temida”, dizia o autor.

Contudo, apesar desses traços socioculturais que carac­terizavam a nacionalidade, uma lenta revolução acontecia.
Em função da independência política, do contínuo processo de urbanização, da substituição da aristocracia açucareira pela cultura empresarial da cafeicultura e da Abolição da Escravatura, Sérgio Buarque percebeu uma nova mentalidade emergindo, deixando para trás as sobrevivências arcaicas.