Educação e Socialização Secundária


A sociedade contemporânea, a juventude é o momento de ampliação dos vínculos sociais para além da família e do círculo íntimo de convivência e é também o momento de aquisição de papéis sociais diferentes. Ou seja, não se é mais apenas filho, irmão, aluno, mas incorporam-se e assumem-se outras identidades. Isso implica que novas obriga­ções e expectativas sejam formuladas acerca da vida profissional, social e amorosa.

Portanto, é necessário um novo tipo de aprendizado sobre o mundo social. Essa etapa que sucede o aprendizado das noções básicas da vida social é chamada de socialização secundária.

Socialização Secundária

Socialização Secundária

A socialização secundária compreende a internalização dos códigos, das regras e normas das diferentes instituições que compõem a sociedade. É um processo fundamental que habilita o indivíduo para o desempenho dos diferentes papéis sociais que a sociedade reclamará no decorrer de toda a sua vida.

Na sociedade em que vivemos, a socialização secundária é constante. Ocorre continuamente durante toda a vida, porque há muitas mudanças no mundo social, fruto de contínuas redefinições nas instituições e nos pa­péis sociais. Nas sociedades em que transformações e inovações são intermináveis, os processos de socialização secundária nos acompanham mais intensamente. Vejamos um exemplo: a emergência de redes sociais, virtuais (Orkut, Facebook) introduziu um novo padrão de relacionamento que exigiu não apenas o aprendizado de novas ferramentas técnicas, mas também de novos códigos e novas normas que orientam as interações sociais nesses espaços: a reciprocidade na postagem de testemunhos; o domínio de novos símbolos linguísticos, termos e manei­ras de redigir próprias desse meio; e a identificação dos assuntos que são permitidos ou não nos diferentes grupos que o compõem.

Queremos dizer assim que os relacionamentos pela internet demandam uma etiqueta que, ainda que não seja radicalmente distinta das relações face a face, têm muitas especificidades que devem ser reconhecidas, aprendidas e praticadas.
Não podemos, porém, esquecer que o surgimento incessante de novos recursos tecnológicos criará sempre novas possibilidades de interação virtual; portanto, exigirá também o domínio de novas formas de expressão que demandarão em novos processos de socialização secundária.

Deve-se ainda observar que, quanto mais complexa for a sociedade, mais complexo será o processo de so­cialização. Em nossa sociedade, há uma trama complicada de instituições e papéis sociais. Em cada situação, são exigidos comportamentos distintos. Isso torna nossa capacidade de aprendizagem e adaptação um requisito indispensável para a sobrevivência social.

Com frequência, no tipo de organização social em que vivemos, no momento em que o jovem começa a interagir com novas instituições e assumir novos papéis sociais, ele desenvolve percepções de mundo mais amplas, e que podem entrar em confronto com a visão tradicional daquelas instituições a que esteve ligado durante a infância, especialmente a família e a escola.

O processo de socialização secundária se manifesta de forma clara quando iniciamos a carreira profissional e somos impelidos a agir de acordo com as expectativas da empresa ou da profissão que escolhemos. Isso implica identificar novas estruturas hierárquicas, utilizar um vocabulário especializado (que é muito diferente da linguagem usada com amigos e familiares), incorporar estratégias necessárias para desempenhar as tarefas que estão sob nossa responsabilidade e, até mesmo, vestir-se da maneira exigida para aquele cargo ou função.

Estamos sempre aprendendo, incorporando novas técnicas, novos comportamentos. Mudamos não simplesmente porque queremos mudar, mas porque a sociedade está em constante transformação, e as diferentes instituições e os papéis sociais que a constituem exigem de nós maneiras igualmente diferentes de atuar.

Controle social na vida adulta

Já afirmamos que a socialização secundária compreende constante internalização das regras que regulam as diferentes instituições, as quais compõem a nossa experiência na vida jovem e adulta. Para isso, numerosos mecanismos de imposição e controle social são acionados.

A complicada trama de controle social denota que há diferentes formas de relacionamento as quais coexistem em nossa sociedade: na empresa ou na loja, na rua, no tribunal ou no site de relacionamento.

As diversas instituições e esferas da vida social definem as ações consideradas “erradas”, aquilo que não deve ser feito. Tomam-se, então, medidas possíveis para evitar que se faça o que não é permitido dentro daquela esfera institucional específica.

Se estivermos jogando vôlei com os colegas da escola, certamente estaremos seguindo as normas estabelecidas
pelo grupo de colegas ou pelo professor de Educação Física para garantir o funcionamento do jogo. Se, por acaso,
cometermos uma infração a essas regras, seremos punidos pelo juiz ou pelo professor que controla a partida, mas
não seremos punidos fora da quadra de vôlei.

Ora, as regras de etiqueta mostram bem isso. Ainda que, em nossa sociedade, falar e mastigar ao mesmo tempo
sejam atitudes bizarras e revelem falta de civilidade, não seremos expostos às leis do sistema penal vigente devido
à falta de boas maneiras. Entretanto, o indivíduo que fizer isso será certamente alvo de comentários jocosos e
considerado grosseiro ou inconveniente.

Há, pois, mecanismos formais e informais de controle e sanção social. Por exemplo, os órgãos governa­mentais especializados em vigiar a aplicação das normas de trânsito. As leis são elaboradas por especialistas
e definem as infrações e suas correspondentes punições. Esse seria um mecanismo formal de controle. Um exemplo de me­canismo informal de sanção social pode ser a reprovação dos colegas de classe após um comportamento inadequado de um dos indivíduos.

O sociólogo alemão Norbert Elias (1897-1990), ao analisar, nos anos 1950, um bairro operário de uma pequena cidade do interior da Inglaterra (com o nome fictício de Wiston Parva), constatou que até mesmo a fofoca poderia ser um poderoso mecanismo de controle social.

Todos nós sabemos da importância dos comentários maldosos ou elogiosos na nossa vida. As comunidades virtuais vivem recheadas de novidades sobre a vida alheia. Quem namora quem? Onde passam as férias? Hoje, nada escapa aos olheiros digitais.

Isso mostra, então, que as normas sociais se apoiam em um elaborado sistema de mobilização o qual é constantemente evocado por certo número de indivíduos que assume o papel de “lembrar” a todos nós qual é a regra do jogo social.
Certamente, a interação entre os indivíduos é fundamental para a fabricação de novas normas, uma vez que a sociedade é dinâmica e produz mudanças nas relações sociais. A aceitação ou não de uma norma está relacionada a uma série de processos sociais complexos.

Podemos verificar que infrações constantes às regras podem, por vezes, revelar uma tendência de mudança. Há poucas décadas, por exemplo, um garoto que colocasse um brinco na orelha tinha imediatamente a sua masculinidade colocada sob suspeita. Era uma norma da nossa sociedade: o brinco era adorno feminino. Mesmo que isso ainda dependa dos grupos sociais que se frequentam, hoje meninos podem usar brincos sem serem vítimas de constrangimentos. A disseminação do uso de brincos entre eles denota uma transformação social importante na relação do sexo masculino com o seu corpo e na visão da sociedade sobre o corpo do homem.