Sociologia como Ciência


Com base neste volume, que inicia o estudo de Sociologia no Ensino Médio, o objetivo é alcançar uma compreensão sociológica da realidade, entendendo não só a sociedade em que se vive, mas também, e acima de tudo, U outras sociedades.

Duas grandes questões serão tratadas: o significado de uma ciência da sociedade e a obra socioló­gica do fundador dessa disciplina – Auguste Comte. Esses temas exigem grande concentração, pois se referem a questões filosóficas e históricas bastante densas.

Mesmo assim, ao terminar o estudo deste volume, será possível perceber que o resultado foi recompensador, pois a sociedade se apresentará de uma forma diferente, mais rica a partir de um viés mais crítico.

Sociologia

O que É a sociologia?

Para entender o que é a Sociologia, uma primeira abordagem que se pode tentar é a etimológica, isto é, por meio da compreensão da origem dessa palavra. Em 1836, no volume III da obra chamada Cours de philosophie positive (Curso de filosofia positivo), o francês Auguste Comte uniu o radical de origem latina sócios com o radical grego logos, a fim de designar o estudo da sociedade feito de modo sistemático, racional e sujeito a verificações empíricas – surgia assim a palavra que designa, desde então, o estudo científico da sociedade: SOCIO-LOGIA. Esse estudo adota o princípio de que somente fatores sociais (e não psicológicos, biológicos, religiosos, etc.) explicam as práticas e instituições sociais. De uma forma muito breve, é nisso em que consiste a Sociologia; todavia isso é pouco para explicá-la.

Por outro lado, podem ter uma preocupação mais acadêmica, isto é, fazerem pesquisas “puras”, como tam­bém podem examinar questões práticas para sugerir alterações em instituições e em comportamentos sociais. Essas são chamadas de pesquisas aplicadas. Nesse caso, os sociólogos verificam os efeitos sociais de políticas de combate à fome, ao analfabetismo e à discriminação racial ou os efeitos da política monetária, o sucesso da integração regional via Mercosul, as políticas de promoção da cultura popular e assim por diante.

Essas quatro possibilidades – abordagens genéricas ou especializadas e estudos puramente acadêmicos ou aplicados – não esgotam as atividades dos sociólogos, e um mesmo sociólogo pode desenvolver, ao mesmo tempo, vários tipos de atividades.

Talvez aqui surja a pergunta: para que, então, serve a Sociologia? Essa questão é perfeitamente legítima e necessária. Tanto as teorias por assim dizer “puras” quanto as pesquisas sobre questões concretas são importantes. Em primeiro lugar, o estudo científico e racional da sociedade corresponde à satisfação da curiosidade humana com questões sobre como a sociedade nasce (por exemplo: Por que vivemos em coletividade e não separados uns dos outros?), como a sociedade se mantém (apesar de tantos conflitos, abertos ou latentes, por que insistimos em vwev juntos”?), qual a dinâmica dos conflitos sociais, etc.

Mas curiosidade é pouco: afinal, é necessário que o mundo, aí incluída a sociedade, tenha sentido de alguma forma. Como a visão de mundo que o Ocidente desenvolveu nos últimos vários séculos é cada vez mais humana e racional, é necessário que a concepção que se tenha da sociedade também seja humana e racional.

Por outro Lado, o conhecimento racional da realidade social permite que o ser humano aja de maneira plane­jada sobre a sociedade, seja porque consegue prever algumas consequências das suas ações, seja porque entende o que é possível ou necessário mudar para atingir os seus objetivos.

Vejamos o caso das políticas públicas, isto é, as medidas que um governo rotineiramente toma na tarefa de administrar a sociedade. Seu planejamento, seu acompanhamento e sua avaliação requerem considerações, análises e informações sociológicas. Mas pode-se também pensar nas atividades de organizações não governamentais, de empresas, de partidos políticos ou de igrejas, que examinam o ambiente social a fim de promoverem causas específicas, aumentarem seu lucro, obterem mais votos ou propagarem sua fé. Em cada um desses casos, a Sociologia tem um papel importante. Uma organização não governamental dedicada à alfabetização de adultos pobres, por exemplo, tem que conhecer os valores morais e culturais, a situação social e econômica das pessoas com quem trabalha, a fim de poder alfabetizá-las. Ou, se o governo quiser construir uma usina hidrelétrica, que exige inundações de grandes áreas, é necessário © saber se haverá populações afetadas por esse lago, qual a importância que tais pessoas dão para a terra alagada (se é sagrada ou não, se é área de agricultura ou não, etc.).

Por fim, os conhecimentos sociológicos são importantes para cada pessoa atuar como cidadão. Deixando de lado o senso comum, analisando criticamente as informações rece­bidas (em particular pelos meios de comunicação de massa), compreendendo a sociedade em que se vive, os problemas e as possibilidades que o cercam, tudo isso é importante para se agir coletivamente nos ambientes de que se participa (escolas, círculos de amizade, clubes, igrejas, partidos políticos, associações profissionais, sindicatos, etc.).

Uma boa forma de justificar a utilidade da Sociologia é por meio do desenvol­vimento do que o cientista político estadunidense Charles Wright Mills chamou de imaginação sociológica. Ela é a capacidade de cada pessoa ver de maneira criativa a si mesma e a sociedade em termos sociológicos, estabelecendo relações de causa­lidade, de correlação e de implicação entre os vários fatores sociais – além, é claro, de mapear sua situação pessoal nesse conjunto de relações.