Comuna de Paris


É tratado por Comuna de Paris o evento histórico que deflagrou a primeira experiência de um proletário governo, que também era popular, e perdurou durante 71 dias na França do século XIX. Esse marco na história da luta popular buscou colocar em prática a ambição socialista de tornar as classes trabalhadoras a base no exercício do poder. Vale lembrar, entretanto, que, apesar de predominarem certas tendências ideológicas entre os comunardos (membros da Comuna), havia, nesse sentido, uma pluralidade de concepções muito marcante entre os militantes. Para entrar profundamente nas principais características que envolveram a Comuna de Paris, porém, antes é preciso retratar o cenário político e o contexto histórico que motivaram a criação desse importante movimento popular.

Comuna de Paris

Contexto Histórico

A conjuntura social e política que criaram as condições para a Comuna de Paris remetem à guerra entre a França e a Prússia, que aconteceu entre 1870 e 1871. Nela, Napoleão III (França) e a Otto von Bismark da Prússia disputaram poder, sendo que este último saiu como vencedor. Derrotada, a nação francesa submeteu-se às exigências prussianas, perdendo território, pagando indenizações volumosas e permitindo ao exército da Prússia ocupar a França. Diante de cenário tão negativo, foi inevitável a queda de Napoleão III, que acabou dando a vez para a 3ª República Francesa e para instauração de um governo provisório em defesa da soberania nacional da França.

A tática não alcançou êxito, pois não resistiu à investida contrária da Prússia. Para comandar os termos de um armistício, segundo o qual a França é condicionada a aceitar certas exigências prussianas, a Assembleia Nacional elegeu Louis Adolphe Thiers, presidente da república francesa. Em resposta, com inspiração revolucionária e descontente com as medidas adotadas pelo novo comandante, é formada a Comuna de Paris, que, contando com diversos setores militantes, toma o poder na capital da França. Thiers reponde logo em seguida para recuperar o domínio do país, mas não obtém sucesso. Institui-se, afinal, em 1871 o governo proletário.

Principais medidas tomadas pela Comuna de Paris

Os comunardos eram muito influenciados pelos ideais socialistas e buscavam priorizar no seu governo o interesse das classes populares. Naturalmente, tal postura batia de frente com os interesses burgueses. A grande ousadia da Comuna – ousadia justamente por ser uma postura inaugural – foi compor sua gestão com proletários (71 delegados), escolhidos por votos. Ou seja, a classe popular e trabalhadora era quem definia as principais medidas tomadas por essa nova forma de poder. Mais do que acabar com os privilégios das classes dirigentes, a Comuna de Paris buscava fazer do comando institucionalizado um exercício que refletisse o interesse das classes menos privilegiadas. Vamos, então, a algumas das principais medidas colocadas em prática pelos comunardos:

  • Redução na jornada de trabalho;
  • Pensão às viúvas e aos órfãos;
  • Ensino gratuito, separado dos dogmas da Igreja;
  • Separação entre Estado e Igreja;
  • Substituição dos ministérios por comissões eletivas;
  • Controle no preço de alimentos;
  • Salários de delegados e demais funcionários do governo não poderiam ultrapassar o salário de um trabalhador qualificado comum.

Tais medidas de cunho socialista, obviamente, incomodavam as classes privilegiadas da França, mas também representavam uma ameaça aos governos vigentes em toda a Europa. O aspecto inovador desse novo modelo de governar visto como uma influência perigosa para todo o continente europeu. Diferentemente do que se praticava em praticamente todos os países que eram tidos como símbolos de civilização, para as decisões do governo, foi formado o Conselho da Comuna, contando com 71 delegados eleitos por votos. Entre estes, 25 eram operários e 12 eram artesãos, o que era mais que uma novidade à época; era, na verdade, uma inversão completa na noção que se tinha de exercício do poder.

A pluralidade de ideologias presente entre os representantes do novo governo também chamava a atenção, pois sinalizavam que o interesse pela igualdade civil deve estar acima, inclusive, das preferências pessoais. Esses e outros fatores que caracterizam o período no qual a Comuna de Paris vigorou, despertaram o interesse de militantes de diversas regiões, empenhados em observar na prática o que liam apenas em teorias. Por outro lado, contudo, as investidas dos inimigos também se intensificaram.

A partir de Abril de 1871, tropas lideradas por Thiers, contando com a aliança do exército da Prússia, cercaram e bombardearam Paris, impondo à Comuna sérias derrotas. Apesar de uma configuração de poder pensada também para defesa própria, os comunardos careciam de meios para travar uma guerra com exércitos treinados. A defesa do governo proletário, na verdade, era feita por civis armados, que, além de disposição, não contavam com muitos recursos para resistir. A derrotada cabal veio após a semana de 22 a 28 de maio – denominada Semana Sangrenta. Mais de 20 mil militantes da Comuna de Paris foram mortos e outros milhares presos e deportados. Por colocar em prática conceitos apenas teorizados, a história dessa luta é emblemática e significativa para a história das lutas populares.