Conheça alguns autores de romances políticos


Que a literatura e as artes são uma espécie de reflexo crítico da sociedade e dos anseios que a cercam, não é novidade. Não por acaso, diversos filmes, livros e peças de teatro dialogam de forma contundente com a História. Isto quando não são essencialmente baseados em fatos reais, de conhecimento público. É nessa esfera, no divisor de águas entre a imaginação dos escritores e a materialidade dos acontecimentos reais, que surgiram os grandes romances políticos que conhecemos.

Mas antes de chegar até alguns de seus títulos (e a alguns de seus autores), é importante compreender anteriormente quais são as características essenciais de um romance. Gênero literário em geral associado a um conteúdo de maior fôlego, o romance é uma obra cuja construção narrativa em prosa contempla uma série de fatos ou conflitos relacionados aos destinos de suas personagens. Ou seja: no romance, as personagens tem suas sinas e suas ações alteradas de acordo com determinados acontecimentos que são não somente o elo entre elas mas também a força motriz para o desenvolvimento da história.

romances políticos

O romance político, por excelência, é aquele em que tais acontecimentos são relativos ao espectro político da sociedade, isto é, ao campo em que os agentes atuam e se movimento mediados por relações de poder. Diferente de outros romances em que o amor incompreendido ou as desavenças familiares geram o conflito, aqui as personagens vão agir sempre em resposta a um fenômeno que atinge a esfera social em sua completude. Tal fenômeno, por sua vez, pode ser baseado em um fato histórico explícito ou aparecer como metáfora de uma situação real.

O romance “Memórias do cárcere”, de Graciliano Ramos, ilustra bem o primeiro aspecto. No livro, o autor alagoano relata os dias e noites que passou aprisionado durante a ditadura do Estado Novo (1937-1945), quando foi acusado de envolvimento com o movimento político responsável pela chamada “Intentona Comunista”. Ainda que o protagonista seja o próprio autor, sem sombra de dúvida estamos diante de uma situação em que um conflito real – a sua prisão política – é a responsável por desencadear as suas ações futuras.

Já em “1984”, do polêmico escritor britânico George Orwell, o sistema de vigilância irrestrita, dominado pelo Estado, é uma imagem utilizada para criticar os regimes autoritários e totalitários que marcaram a história mundial durante o século XX. Nesse romance, a opressão vivenciada diariamente pelo protagonista Winston Smith o leva a tentar rebelar-se contra o sistema, acarretando graves consequências para ele e para aqueles com quem ele convive.

Outro grande exemplo de romance em que os fatos históricos são o cenário para o desenrolar da narrativa, disparada principalmente pelos eventos políticos, é o grande clássico da literatura russa “Guerra e paz”, de autoria do escritor Leon Tolstói. Nela, o autor retrata a história de cinco famílias da aristocracia russa que testemunham suas histórias serem guiadas sem que nada possa ser feito na medida em que avançam as invasões napoleônicas sobre o território russo, no período compreendido entre 1805 e 1813. Ao mesmo tempo em que narra a história desses personagens, o autor se encarrega de tecer comentários sobre a política e a guerra como ícones essencialmente responsáveis por alterar o curso da História.

A política na literatura latino-americana

Se tem uma vertente literária específica que foi intensamente influenciada pelos acontecimentos políticos, com certeza trata-se da literatura latino-americana, em especial aquela escrita em língua espanhola. O chamado “realismo fantástico”, escola literária onde a realidade material é subvertida pelo absurdo, foi uma das expressões de maior êxito da literatura latino-americana e encontrou em nomes como Jorge Luis Borges, Júlio Cortázar e Gabriel Garcia Marquez o talento necessário para se consolidar na forma de memoráveis romances.

No icônico “Cem anos de solidão”, escrito por Garcia Marquez ao final da década de 60, acompanhamos a saga da família Buendía por meio da ascensão e queda da fictícia cidade de Macondo, espécie de metáfora do mundo real, onde as repressões morais e políticas que os países latinos sofriam com as ditaduras do Cone Sul se apresentam como situações surreais que levam os personagens ao extremo, ao desespero e em algumas vezes à loucura.

Mais recentemente, a ditadura militar brasileira também tem surgido como tema de romances contemporâneos, como é o caso do livro “K – Relato de uma busca”, do jornalista e escritor Bernardo Kucinski. Nesse livro, acompanhamos a saga de um senhor judeu em busca de sua filha desaparecida. Tendo conhecimento das atividades políticas da mesma e dos casos cada vez mais evidenciados de pessoas que sumiam sem deixar rastros, o senhor passa a enfrentar as autoridades militares para obter alguma informação que o leve a descobrir o paradeiro da filha, enquanto são narrados acontecimentos pontuais que marcaram a história da repressão militar existente no Brasil entre as décadas de 60 e 70.

Esses são apenas alguns exemplos de romances políticos que se evidenciaram ao longo da literatura, mas não só não são os únicos escritos como certamente o gênero romance político ainda nos renderá muitas novidades, já que a política e a literatura continuam e continuarão afetando nossas vidas e histórias.