Regimes totalitários: Esquerda e direita


As crises que se instauram na economia de um país, ou mesmo no mercado global, tendem a fazer com que a ameaça de um período de dificuldades econômicas, recessão, falta de empregos e escassez de alimentos crie uma espécie de terror involuntário que toma conta do inconsciente coletivo da população. Essa sensação de que a economia está a beira do colapso e que esse dever está na conta do poder político do momento, seja na forma de seu gestor ou do sistema como um todo, muitas vezes é capaz de incutir na cabeça da população uma insegurança que pode levar a gestos desesperados, como por exemplo, depositar sua confiança em uma única figura que se proponha a ser a responsável por assumir o comando do barco em que navega a nação.

Esse líder que surge em meio ao caos promete uma organização em prol da confiança que lhe depositam, mas para isso, é necessário que haja cooperação entre todos. E na medida em que cresce a cooperação, crescem as regras que mediam essa cooperação. Essas regras, por sua vez, não são debatidas ou discutidas, porque elas surgem da vontade do líder, que cada vez mais se firma como uma figura promissora.

Regimes totalitários

E quanto mais a população confia mais e mais nesse líder, desobedecê-lo ou questioná-lo torna-se inaceitável, quiçá um verdadeiro crime. Isso porque o líder se identifica com a figura da nação, e criticá-lo torna-se sinônimo de colocar-se contra a nação. A ideia de uma pátria, inclusive, cujo sentido etimológico tem tudo a ver com a palavra “pai” ou com a noção de patriarcado, precisa ser sustentada com muito vigor, pois é ela que faz com que todos aparentem ser iguais, ainda que não sejam.

Em breve, temos o cenário pronto para a instauração do que conhecemos como um regime totalitário: a figura de um grande líder que assume o papel de pai da nação, a sensação de isolamento e solidão que acomete aqueles que desse líder ou sistema discordam e o terror que a população tem da conjuntura econômica e política na qual estavam submetidos bem como a ideia de que, sem esse líder, toda a nação retornaria àquele estado. Essa tríade, aliada a fatores como a massificação das identidades perante a figura do Estado e um forte sistema de vigilância e repressão que conta inclusive com a colaboração da população civil são a fotografia do esqueleto que sustentou por anos o nazismo na Alemanha, o fascismo na Itália e variações como o salazarismo em Portugal e o Franquismo na Espanha.

O fenômeno dos regimes totalitários, entretanto, não foi concebido teoricamente para depois vir à tona. Pelo contrário: sua instauração política foi uma particularidade do século XX, período temporal no qual a população mundial assistiu a duas grandes guerras cujo potencial de destruição em massa chegou quase às vias de fato. Foi, entretanto, após a queda de líderes como Adolph Hitler e Benito Mussolini que a consciência geral percebeu os perigos que tais regimes apresentavam para a humanidade. E, no intuito de compreendê-los para evitar que se repetissem que a filósofa política Hannah Arendt passou a estudá-los com afinco até que fosse possível chegar a uma raiz comum para todos. Em sua obra máxima, “As origens do totalitarismo”, Arendt identifica que o autoritarismo – a ideia de que a população não deveria participar das decisões políticas – e a ideologia – um esquema de valores institucionais que serão responsáveis por reger a ações na vida pública e privada – são as duas essências maiores dos regimes totalitários.

Esquerda e direita

Uma vez constatados esses dois pilares, Arendt gerou uma grande polêmica na esfera do debate político porque, para a pensadora, eles eram ambos encontrados não só nos já condenados regimes nazista e fascista, mas também no até então vigente regime soviético. A figura de Joseph Stálin aliada à propagação da ideologia socialista se encaixa perfeitamente ao lado de Hitler em sua defesa da ideologia da superioridade ariana. Para além disso, a presença de um forte sistema repressor que enaltecia a pátria soviética e a colocava no centro dos corações e mentes da população inapelavelmente criminalizando e julgando todos aqueles que levantassem críticas parece casar com a icônica frase de Benito Mussolini, para quem era “Tudo no Estado, nada contra o Estado, nada fora do Estado”.

Com essa nova ótica, Arendt estabeleceu que os regimes totalitários, por sua vez, não respeitam a uma determinada ideologia somente, mas são na verdade modelos adotados que podem ser preenchidos por diferentes concepções políticas, sejam elas de esquerda ou de direita. A diferença é que, enquanto num regime totalitário de direita existe, em geral, um forte apoio das elites industriais, um apelo religioso de cunho moralista e uma espécie de corporativismo dentro dos ambientes de trabalho, na sua vertente à esquerda a supressão da religião é imposta à população, bem como a socialização e estatização dos meios de produção e decorrente abolição da propriedade privada.