Resenha do livro “Uma verdade inconveniente”


Em 2000, o candidato Al Gore, que já havia sido vice-presidente dos Estados Unidos da América, disputou com o republicano George W. Bush as eleições para alcançar a presidência do seu país. Al Gore não foi eleito, mas a corrida presidencial e as experiências no envolvimento com a política lhe mostraram que a militância em prol de uma causa não precisa necessariamente estar ligada a um cargo institucional, bem como despertaram no então candidato a atenção para a urgência a respeito de um tema: a sustentabilidade e a necessidade de compreendermos os sinais de esgotamento que a Terra nos aponta.

Em “Uma verdade inconveniente”, Al Gore apresenta um verdadeiro alerta para o leitor a respeito das causas e, sobretudo, das mais terríveis consequências decorrentes do aquecimento global, fenômeno que afeta paulatinamente o globo terrestre e que, a longo prazo, pode culminar com o estabelecimento de situações insustentáveis para a vida humana na terra.

Uma verdade inconveniente

O documentário

Ao contrário do que acontece na maioria das relações entre materiais audiovisuais e literários, aqui foi o filme que influenciou o livro. Al Gore já havia realizado uma série de palestras ao redor do mundo – segundo ele próprio foram mais de mil – na tentativa de alertar seus espectadores para os graves problemas ambientais que ameaçam a natureza e que podem, a longo prazo, acarretar em graves transtornos para a humanidade. Após assistir a uma dessas palestras, os produtores Lawrece Bender e Laurie David se uniram ao diretor Davis Guggenheim para convencer Al Gore a transformá-las em um filme-documentário. O resultado não poderia ter se saído melhor: além de ter recebido o prêmio de “Melhor documentário” e “Melhor canção original” pela Academy Awards – o famoso “Oscar” – o filme também foi recorde de bilheterias, tendo arrecadado cerca de 49 milhões de dólares, o que o fez ser alçado à condição de o “sexto documentário de maior arrecadação na história dos Estados Unidos”.

O livro

Publicado em 2007, o livro veio à tona no mercado editorial não só como um compilado de informações sobre o meio ambiente e os desastres que o acometem, mas sim como parte do projeto maior de conscientização a respeito da pauta ambiental que tem sido desenvolvido por Al Gore ao longo de sua trajetória política. Em paralelo com as palestras que deram origem ao documentário, o livro apresenta de forma bastante simples e até mesmo didática quais são os principais desafios enfrentados hoje por quem deseja lutar por um mundo onde o meio ambiente e o homem possam conviver numa relação equânime, sem que haja uma coerção ou uma domesticação desenfreada do primeiro pelo segundo na tentativa de obter e explorar a qualquer custo os recursos naturais.

Além das pesquisas e das opiniões de especialistas, Gore trabalha com uma narrativa calcada também em suas experiências pessoais. Um dos melhores exemplos a respeito dessa incursão entre a vida pessoal do autor como desfecho fundamental para o desdobramento da temática narrativa é o caso de sua irmã, vítima de um câncer de pulmão que a matou após longos anos de vício em cigarro. Em uma dessas coincidências oportunas da vida que sempre faz com que nossas ações sejam repensadas, Gore comenta que sua família foi, durante anos, dona de uma plantação de tabaco no sul dos Estados Unidos, sem nunca imaginar que algum dia um ente querido seria vitimado pelo consumo abusivo de uma substância que eles mesmos produziam. A situação surge não só como caso real e concreto, mas também como metáfora dessa espécie de “teoria do caos contemporânea” que acomete toda e qualquer pequena ação individual quando se analisam os seus desdobramentos em esfera global. Não por acaso, as atitudes de incidência individual – como escovar os dentes com a torneira aberta, ou tomar um banho muito longo – quando repercutidas em uma escala correspondente ao número de pessoas que as fazem, podem ser desastrosas para a natureza. Ainda sim, pensar nelas sobriamente em que pese o nosso poder de transformá-las pode ser o primeiro passo para uma mudança comportamental efetiva que gere transformações concretas e necessárias. É desse ponto de vista que fala Al Gore com seus leitores.

A narrativa consistente e o grande poder de prender a atenção não são uma qualidade comum e inerente a qualquer pessoa, mas são antes de tudo uma habilidade poderosa, e Al Gore certamente detém a ambas. O escritor e ativista aqui se confundem com o político que foi eleito para a Câmara de Deputados dos Estados Unidos pela primeira vez em 1976 e que, dezessete aos depois, tornou-se vice-presidente da nação mais poderosa do mundo, função na qual permaneceu por oito anos. É de se esperar, portanto, que essa longa bagagem de experiências tenha trazido à Al Gore todo o traquejo necessário para se emplacar uma causa. E “Uma verdade inconveniente” certamente traz consigo toda essa riqueza e prova disso são suas premiações: além de ter constado por meses a fio na lista de best-sellers dos Estados Unidos, o livro venceu o Quills 2006, prêmio literário promovido pela NBC e pela Reed Business.