Romance e Prosa Romântica: José de Alencar


contexto histórico

Logo após a Inconfidência Mineira, mais precisamente com a Independência do Brasil, em 1822, virou consenso discutir o Brasil e, particularmente, o que é ser brasileiro. José de Alencar, Manuel Antônio de Almeida, Joaquim Manuel de Macedo começaram a repensar e a definir a nação, a língua e a cultura brasileira, sempre tendo como foco principal a busca pela identidade nacional.

Contraria à poesia romântica, a prosa não apre­sentou uma divisão em gerações. O que ocorreu foi a divisão em quatro vertentes: a prosa social-urbana, a indianista, a regionalista e a histórica.

Na prosa social-urbana, prevaleceram a cidade e o cotidiano pequeno burguês. Na indianista, o indígena é o protagonista, com fortes traços de herói, uma espécie de ca­valeiro medieval europeu. Na regionalista, valorizaram-se os usos, costumes, falares e paisagens de determinadas regiões do Brasil. Na histórica, retratou-se o passado histórico nacional.

José de Alencar

No século XIX, esses romances adquiriram uma importância fundamental e conquistaram muitos leito­res, mais precisamente da burguesia, que ansiava por uma leitura carregada de fantasias e aventuras e que dialogasse com a sociedade daquela época. O romance, portanto, substituiu a epopeia – que privilegiava o passado e os grandes feitos heroicos -, usando uma linguagem mais simples e objetiva e dando grande vazão aos fatos cotidianos da vida das pessoas.

Na Europa, destacaram-se vários romances, entre eles: A história de Tom Jones, de Henry Fielding, de 1749. Em 1774, o escritor alemão Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832) publicou o livro Os sofrimentos do jovem Werther, marco introdutório do Romantismo. Além de uma das primeiras obras de Goethe, Werther foi o início da prosa moderna na Europa. O livro possui uma estrutura epistolar, isto é, construída a partir de cartas em que o jovem Werther escreve a um amigo. Ao ler essas cartas, o leitor fica sabendo como o amor não correspondido entre Werther e sua amada, Carlota, o levou a cometer suicídio.

O romance romântico e seus personagens

Após a Independência do Brasil, em 1822, os escritores brasileiros projetaram uma reavaliação da cultura brasileira, tendo como fundamento maior a valorização da identidade nacional. Visava-se, com isso, ao reconhecimento de tudo o que era produzido por nossa gente.

Esse projeto exigia que nossos artistas buscassem inspiração em tudo o que aqui se produzia. Nessa busca pelo nacional, o romance voltou-se para os espaços nacionais, como a selva, o campo e a cidade. Ganhava destaque o indígena.

Em Iracema, por exemplo, a personagem se desloca do âmago da terra para o litoral e, à medida que se afasta do interior, começa a morrer, indicando a impossibilidade de se fixar uma origem pura para a nação. Sobreviverá aquele que nasce na praia, na linha de encontro entre o nativo e o português, o ser de fronteira, único ponto de partida possível para uma nacionalidade híbrida.

O surgimento desse ser de fronteira exige, entretanto, o sacrifício da cultura indígena em prol da cultura do colonizador: é a marcha da história que guia os passos de Iracema e determina a sua morte como etapa necessária do processo civilizatório. Martim conhece (no sentido bíblico) o corpo da terra/mulher e a partir daí legitima sua superioridade: conhecer o corpo de Iracema é tomar posse da terra, para lhe imprimir uma outra marca, afastando-a dos caminhos traçados pela tradição de seu povo. Afirmar o poder vai moldar um novo corpo, o de Moacir, carregado de valores e propósitos diferentes daqueles que orientavam os indígenas. Iracema é metáfora da natureza, mas representa também a cultura de sua tribo, da qual abre mão. Por isso, ao contemplar Moacir, Caubi, irmão de Iracema, dirá: “Ele chupou tua alma”.

PROSA ROMÂNTICA – AUTORES

José de Alencar

O cearense José de Alencar (1829-1877) foi o mais importante romancista da fase romântica. Formou-se em Direito e atuou como jornalista, além de ter sido eleito deputado por duas vezes. Entre 1868 e 1870, ocupou o cargo de ministro da Justiça.

Como escritor, escreveu romances indianistas, regionalistas, social-urbanos e históricos. Escreveu também peças de teatro, como Mãe e O jesuíta, e diversas crônicas.

Foi com o romance indianista que Alencar ganhou projeção nacional. Obras, como Iracema, O guarani e Ubirajara, deram-lhe a oportunidade de rediscutir, reavaliar e traçar um painel paisagístico de rara beleza de nosso país.

Alencar buscava inspiração nos grandes cavaleiros medievais europeus para dar forma a seu herói – no caso, o indígena -, como o personagem Peri, de O guarani. Não via meio mais eficaz do que colocá-lo em comunhão com a natureza.

Em O guarani, romance indianista, com traços históricos, publicado pela primeira vez em forma de folhetim no Diário do Rio de Janeiro, em 1857, Alencar criou uma obra carregada de simbologias. Primeiro romance de Alencar que dá início ao projeto de invenção e até fundação de uma literatura brasileira autônoma, em que anuncia a brasilidade encarnada na submissão do início dos desígnios do colonizador europeu. Curiosamente, nenhuma menção ao papel dos negros na formação social brasileira é feita no texto. Alencar procurou tecer um cruzamento entre referências históricas concretas e a liberdade da criação ficcional.

O personagem Peri é o grande símbolo do nacio­nalismo romântico brasileiro, um ser idealizado como protótipo das perfeições: forte, vigoroso, ágil, belo. O romance se estrutura na figura da família de D. Antônio de Mariz, fidalgo português, e na filha de D. Antônio, Cecília, a quem Peri dedica uma profunda idolatria. A vida dos personagens é alterada por Loredano – na verdade, frei Angelo di Lucca – que trama destruir D. António de Mariz e raptar Cecília.

A trama se desenvolve em mil peripécias e, no final, quando D. Antônio, isolado em sua casa, cercado, de um lado, pelos homens de Loredano e, de outro, pelos aimorés, confia a Peri sua filha Cecília. Peri fora batizado como cristão.

D. António de Mariz e sua família morrem numa grande explosão. Peri salva Cecília, que resolve viver com ele na mata. O livro tem um final “em aberto”, pois, após uma enchente, os dois somem no horizonte apoiados em uma palmeira.

Outro romance de José de Alencar que teve grande repercussão na sociedade da época foi Senhora, publicado em 1875. Narrada em terceira pessoa e dividida em quatro partes (O preço, Quitação, Posse e Resgate), a história de Aurélia Camargo, que se apaixona por Fernando Seixas e este por ela, teve reper­cussão imediata do público. Fernando a abandona por causa de outra mulher e de um dote, mas Aurélia continua a amá-lo. Aurélia, inesperadamente, recebe uma herança, o que lhe dá a oportunidade de recon­quistar Fernando.

Aurélia, com a ajuda de seu tio e tutor Lemos, propõe a Seixas casamento com uma moça com grande dote. Mas impõe a ele a condição de que aceite a proposta sem conhecer a identidade da noiva. Seixas, endividado, aceita. Quando fica sabendo que a moça é Aurélia, fica enormemente feliz. Porém, na noite de núpcias, Aurélia revela a verdade: “Eu, uma mulher traída; o senhor, um homem vendido” e o expulsa do quarto. O relacionamento a partir desse fato torna-se insuportável e hipócrita. Aurélia o trata com indiferença.

Esse romance se enquadra na temática da crítica social, com intrigas amorosas, chantagens, amores impossíveis que fazem parte dessa e de outras obras de José de Alencar. Em Lucíoía, por exemplo, José de Alencar analisa a prostituição nas altas camadas sociais.