Sociologia Comteana


Quais os elementos específicos da Sociologia de Comte? Vimos que ela buscava unir uma teoria “pura” da sociedade com a possibilidade de aplicação prática; ao mesmo tempo, possuía preocupação com a formulação de leis sociológicas. Nesta unidade e na próxima serão examinados cada um desses elementos: a teoria geral, as leis e as formas de aplicação prática.

Historicidade, relativisnto, holismo

A Sociologia de Auguste Comte considerava que a sociedade devia ser estudada usando procedimentos gerais que estavam próximos dos que as demais ciências utilizavam para explicar o mundo natural. Ou seja: rejeitar a Teologia (isto é, o recurso a vontades sobrenaturais como causas das ações humanas) e recusar o que Auguste Comte chamava de metafísica para compreender a realidade. Em seu lugar, buscam-se as leis naturais para explicar e predizer os fenômenos sociais, permitindo em seguida a intervenção prática.

Comteana

Esses princípios são gerais, isto é, comuns a todas as ciências: mas cada ciência deve aplicá-los a cada tipo de fenômeno específico e elaborar seus procedimentos particulares. No estudo da sociedade, há três elementos específicos: o relativismo, o holismo e a historicidade.

O relativismo, para Comte, tem vários significados. Por um lado, indica que o conhecimento o qual o ser humano pode obter é sempre parcial e condicionado pelos sentidos sensoriais e pela nossa capacidade de articular ideias. Além disso, o conhecimento também se modifica de acordo com o ambiente social e, portanto, com o período histórico considerado. Por fim, em virtude das características anteriores, o relativismo quer dizer que o ser humano não pode obter um conhecimento absoluto, independente de qualquer consideração ou referência: as concepções humanas são sempre limitadas. Assim, Comte estabeleceu, em 1817, o seguinte princípio teórico e filosófico: “O único princípio absoluto é que tudo é relativo”.

Dessa forma, a sociedade é uma realidade maior que a soma (ou a justaposição) dos elementos parciais que a compõem. Por esse motivo, o indivíduo não é um elemento sociológico, embora deva ser estudado pela Sociologia.

A visão de conjunto, por outro lado, não pode se restringir a um único momento no tempo, devendo abarcar também o conjunto da história humana: daí a preocupação com a historicidade. Aliás, para Comte, é o fato de o ser humano ter história que o distingue dos outros animais.

Uma critica só é possí­vel se a sociedade considerada não corresponder às características do seu momento histórico: assim é que a sociedade francesa do início do século XIX era criticável porque mantinha hábitos beligerantes3, teológicos e metafísicos, além de explorar sistematicamente o proletariado.

Desse modo, a ideia proposta por Auguste Comte de estudar a sociedade com métodos semelhantes aos das Ciências Naturais não é a mesma coisa que dotar a Sociologia de métodos e teorias próprios à Física ou à Biologia, mas de métodos de observação, de formulação de hipóteses, de crítica pública aos resultados das pesquisas sociais e assim por diante.

Lei dos três estados e classificação das ciências

A partir dos princípios expostos, Comte elabora as duas primeiras Leis sociológicas. Ambas baseiam-se na interpretação dos acontecimentos históricos:

1. Lei dos três estados.
2. Lei da classificação das ciências.

Isso quer dizer que o ser humano, ao longo da história, percebeu a realidade e explicou-a de três modos diferentes e sucessivos. Em primeiro lugar, referindo-se às vontades sobrenaturais e arbitrárias dos deuses – é a explicação da Teologia.

Depois, usando abstrações puras (a “natureza”, o “espírito absoluto”, a “morte”, a “vida”, etc.) que teriam vontades próprias. O que significam abstrações com vontades? Quando falamos na morte, por exemplo, pensamos no término da vida. Assim, a morte não é uma “coisa” que se toca, mas é um processo que termina. Como a morte não é uma “coisa”, ela é uma abstração. Mas, se pensarmos que a “morte” tem vida, que ela age racionalmente, como uma “coisa”, atribuiremos vontade a uma abstração. Nesse sentido, a “morte” é uma ideia metafísica e não uma ideia científica.
Tanto no caso da Teologia quanto no da metafísica, o ser humano busca o absoluto ao perguntar “por que” as coisas acontecem, em especial “de onde viemos” e “para onde vamos”.

Na fase positiva, o ser humano busca as leis naturais, isto é, as relações que podem ser observadas entre os fenômenos: de sucessão (uma coisa vem depois de outra, por exemplo, depois de levar um soco, sinto dor) ou
coexistência (duas coisas existem sempre ao mesmo tempo: por exemplo, sempre que há dois corpos próximos, ocorre a atração gravitacional).

Adotando uma perspectiva humanista e imanentista, busca-se pesquisar “como” as coisas acontecem. Quais são os mecanismos específicos entre os fenômenos? Na fase positiva, então, não importa mais o “porquê”.

Quanto mais simples for o fenômeno estudado, mais rapidamente ele passará pelas três fases. Inversamente, quanto mais complicado, isto é, quanto maior for a quantidade de variáveis que se deve considerar para explicá-lo, mais demorada é a passagem da interpretação teológica para a positiva.

Com base na complicação crescente dos tipos de fenômenos estudados, Comte estabeleceu uma classificação das ciências: Matemática, Astronomia, Física, Química, Biologia, Sociologia e Psicologia Positiva.