Sociologia de Comte: Estática e Dinâmica Sociais


Nesta unidade, aprofundaremos a discussão sobre o conceito sociológico de Auguste Comte. Após termos visto, na unidade anterior, alguns elementos teóricos gerais – o relativismo, o historicismo e o holismo -, assim como as duas leis sociológicas fundamentais – a lei dos três estados e a classificação das ciências – veremos os elementos das duas grandes partes da Sociologia comtiana: a estática social e a dinâmica social.

Essas duas partes procuram responder às seguintes questões:

Quais são os elementos que compõem qualquer sociedade? Como as sociedades mudam no decorrer do tempo?

Sociologia de Comte

Estática e dinâmica

A lei dos três estados e a classificação das ciências levam em considera­ção a variável “tempo” e a compreensão de que as mudanças históricas são cumulativas. Essas são as bases da dinâmica social, estudadas em profundidade no Curso de filosofia positiva (1830-1842).

Mas, no Sistema de política positiva (1851-1854), Comte examinou também as leis da estática social, ou seja, relativas aos elementos que existem em qual­quer sociedade, independentemente da época considerada. Do ponto de vista da estática social, o princípio sociológico fundamental é a “separação dos ofícios e a convergência dos esforços”, que Auguste Comte atribuiu a Aristóteles.

O princípio de Aristóteles quer dizer que a sociedade é composta por indivíduos que vão se diferen­ciando entre si, cada um assumindo uma responsabilidade específica. Esses indivíduos diferenciados colaboram entre si (de maneira voluntária ou não).

Tanto a ação individual (de pessoas e grupos) quanto a colaboração são necessárias para a existência da sociedade. Se ocorrer somente uma, a sociedade deixa de existir. Por exemplo: uma fábrica possui trabalhadores, gerentes e administradores; cada qual com sua atividade específica. Cada um deles tem que ter autonomia para realizar suas funções, mas, ao mesmo tempo, suas atividades têm que convergir para um objetivo específico (no caso, a produção de algum objeto). Se todos ficarem juntos o tempo todo ou se todos fizerem sempre a mesma coisa, ninguém conseguirá fazer nada; por outro lado, se cada um decidir fazer o que quiser e não prestar atenção ao que os demais fazem, também não será possível atingir o resultado desejado.

Para alguns sociólogos, a perspectiva holista e a preocu­pação com a convergência caracterizam a Sociologia de Comte como sendo organicista (ver Conceito sociológico no final desta unidade) e, em função disso, preocupada acima de tudo com o consenso. Em consequência, os conflitos não são aceitáveis e a ordem deve ser mantida a todo custo. Por esse motivo, Comte seria conservador.

É errado afirmar que Auguste Comte era organicista ou conservador. Embora usasse algumas metáforas bioló­gicas (“órgãos” e “funções” sociais), como vimos na unidade anterior Comte afirmava também que não se pode levar muito adiante o uso dessas metáforas, pois esse uso era enganoso e gerava confusões.

Os órgãos do corpo humano não se separam e não têm necessidades especificamente pessoais, mas as socie­dades são compostas por seres separados, cuja independência deve ser respeitada, assim como sua convergência. Já cada ser humano e cada grupo têm suas necessidades específicas: grosso modo, isso é o egoísmo. A principal dificuldade é respeitar essas necessidades e, ao mesmo tempo, desenvolver os esforços de convergência: o consenso é um objetivo a se alcançar, mas sua busca não impede nem nega as diferenças particulares.

Em vários momentos, Comte reconheceu e/ou valorizou conflitos, como as disputas entre patrícios e plebeus na Roma Antiga e as lutas políticas da vida civil nas sociedades contemporâneas. Mesmo a luta de classes, dentro de limites, pode servir para a melhoria social. Em qualquer caso, o que se deve evitar, acima de tudo, é o recurso à violência.
Dito isso, há cinco elementos da estática social:

Religião: para Comte, religião não era o mesmo que Teologia, mas o estado de unidade humana, individual
e coletiva, objetiva e subjetiva, em que o indivíduo e a sociedade desenvolvem suas capacidades por meio
do altruísmo.

Linguagem: é o mecanismo intelectual básico de ligação entre os seres humanos e de compreensão da rea­
lidade. A linguagem não transmite apenas ideias, mas, antes de tudo, transmite sentimentos, o que resulta
na arte.

Família: é a menor associação humana que existe. Portanto, a sociedade é composta por famílias e não por indivíduos. A família baseia-se nas relações afetivas e prepara os indivíduos para serem cidadãos na grande sociedade.

Propriedade: é a base da existência material da sociedade. Em seu conjunto, forma a riqueza ou o capital. A
produção da riqueza é coletiva e sua destinação também deve ser coletiva, mas sua apropriação é individual
(por cada cidadão, ou pelos empresários).

Governo: com a especialização das atividades individuais, a tendência é que ocorra uma dispersão dos
esforços e, no limite, o fim da sociedade: o governo é o órgão que faz os esforços convergirem ou não se
dispersarem demais.