O conflito leste-oeste e o conflito norte-sul


A divisão dos países em mundos nasceu na época da Guerra Fria. Criaram-se então os títulos de Primeiro Mundo (países capitalistas desenvolvidos), Segundo Mundo (socialistas) e Terceiro Mundo (capitalistas subdesenvolvidos). Chegou-se até a falar do Quarto Mundo, que seria formado pelos países mais pobres, que têm problemas graves de fome, mortalidade infantil, analfabetismo e assim por diante.

O que levava as pessoas a pensarem o mundo com esta divisão era a ideia, até certo ponto equivocada, de que havia um conflito Leste-Oeste, ou seja, socialistas contra capitalistas. Desta forma, se considerava que havia uma diferença absoluta entre o mundo capitalista, caracterizado pela democracia, propriedade privada e economia de mercado e o mundo socialista, com suas ditaduras que comandavam economias planificadas com os meios de produção nas mãos do estado.

leste-oeste e o conflito norte-sul

Se atualmente é bem claro que esta classificação não tem mais sentido, posto que o sistema socialista praticamente desapareceu, mesmo nas épocas em que a Guerra Fria era mais intensa, dividir o mundo desta forma já não fazia mais sentido. As diferenças entre o sistema capitalista e o socialismo real eram muito pequenas para que pudéssemos classificar os países que adotavam um ou outro como mundos diferentes.

Se a afirmação da existência de um Primeiro e de um Segundo Mundo já era equivocada, pior ainda é a ideia de que existiria um Terceiro Mundo. Ao afirmamos tal coisa, estaríamos isolando ao máximo os países desenvolvidos dos subdesenvolvidos, como se tivessem histórias completamente diferentes e sem relação alguma entre si. É fácil ver o quanto esta separação é absurda ao lembrarmos da expansão das multinacionais pelo mundo, das relações comerciais e financeiras atuais entre os países e assim por diante.

Enquanto isso, o Quarto Mundo aparece como um conjunto de países que são excluídos do esquema da economia mundial. A ideia de que há países ou povos excluídos é muito simplista para explicar a sua miséria. Se considerarmos que a causa da miséria é a exclusão, é provável que cheguemos à conclusão de que a solução é incluir o povo em questão no esquema da economia mundial. O problema parece óbvio, mas não é.

Os problemas mais comuns desses países

Na verdade, não é possível considerar que o povo de países muito pobres como a Etiópia, a Eritréia, Ruanda ou Serra Leoa são simplesmente excluídos da economia mundial. Pode-se dizer inclusive que, através da colonização efetivada pelos europeus, eles foram incluídos da pior maneira possível, como fonte de matérias-primas e não de mãos de obra barata. Este processo, evidentemente, criou vários obstáculos para o progresso social dos africanos, ao mesmo tempo em que possibilitou o desenvolvimento das indústrias inglesas, francesas, italianas ou belgas.

Com o fim da Guerra Fria, se criou uma nova divisão dos países considerando que haveria um conflito Norte-Sul. Teríamos de um lado o Norte desenvolvido e do outro o Sul subdesenvolvido. Tal divisão tem vários problemas.

Para começar, este é um engano que todos os países classificados no bloco do Sul subdesenvolvido sejam mais pobres que todos aqueles do Norte desenvolvido. Outro problema desta classificação é que ao dividir os países em Sul e Norte, se reforça a ideia do determinismo geográfico. Parece que estar ao sul do equador é meio caminho andado para a pobreza. Este problema fica claro quando observamos que a Austrália e a Nova Zelândia, países ricos que ficam no sul, são classificados como integrantes do norte desenvolvido.

Mas, o maior problema desta classificação é que ela desconsidera o fato de haver riqueza e pobreza em praticamente todos os países. Mesmo que no geral os países classificados como sul subdesenvolvido tenham os maiores problemas de riqueza do mundo, não quer dizer que não existam aqui muitas pessoas ricas. O mesmo se aplica aos países do Norte desenvolvido, nos quais a pobreza não deixou de existir.

Por estes motivos, não há como falarmos de um conflito Norte-Sul. O real conflito que existe é entre as grandes empresas, que financiam os governos dos países ricos e pobres, conseguindo com eles muitas vantagens, e as população pobres do mundo acabam ficando esquecidas por seus governos.

Os países mais pobres

Na tentativa de entender melhor a desigualdade entre os países, é melhor classifica-los como centro e periferia do sistema capitalista mundial. Desta maneira fica mais claro que todos os países considerados fazem parte de um mesmo modelo econômico mundial, tendo sempre um papel fundamental em seu funcionamento.

Além disso, esta classificação torna mais evidente o fato de que os países periféricos não são simplesmente parceiros comerciais dos países centrais. Na realidade, este conjunto de países surgiu como uma criação dos países centrais, originalmente da Europa e depois dos Estados Unidos e do Japão. A economia dos países periféricos tem uma origem externa, que é o processo de colonização ou da simples imposição de normas comerciais.