Bernardo Guimarães: História e publicações


Quem não se lembra das aventuras sofridas pela famosa escrava branca nas mãos de seu senhor sádico que por ela nutria um amor obsessivo? Seja no romance original, sejam em suas duas adaptações para a teledramaturgia, a escrava Isaura arrebatou corações e mentes que junto dela sofreram, amaram e se libertaram para viver um grande amor. Ofuscado pelo sucesso de seu romance, muitas vezes nos esquecemos do autor que concebeu todos os episódios vivenciados por Isaura nas mãos de Leôncio. Trata-se do romancista, poeta e advogado Bernardo Guimarães, que hoje ocupa o posto de patrono número 5 na Academia Brasileira de Letras.

Nascido em Ouro Preto, interior do estado de Minas Gerais, Bernardo Guimarães formou-se em Direito na 20ª turma da tradicional Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, em São Paulo, que atualmente pertence à Universidade de São Paulo. Na instituição, o futuro escritor conheceu e conviveu com jovens que viriam a figurar como nomes de peso da literatura brasileira, tais como Alvares de Azevedo e Aureliano Lessa. Ao lado de ambos e de alguns outros jovens estudantes poetas, Bernardo foi um dos responsáveis por fundar a chamada “Sociedade Epicuréia”.

Bernardo Guimarães

Tratava-se de uma espécie de agremiação estudantil com caráter literário, cujo principal objetivo era discutir, pensar e produzir literatura. Os jovens da “Sociedade Epicuréia” eram fortemente influenciados pelo Romantismo europeu e pelas obras de Lord Byron. À revelia de suas vidas burguesas na província pacata que era a São Paulo da época, eles viviam vidas boêmias nas tavernas e bares, cruzando a cidade pela madrugada em busca de aventuras e amores que lhes apaziguasse o tédio e o enfado decorrentes do spleen, ou “mal do século”, que atingia a sociedade na era do início da industrialização. Esse apelo romântico que vislumbrava na morte e na noite, sobretudo no mistério, o escape para uma realidade pessimista, viria a ser decisivo na produção literária de Bernardo Guimarães.

Parte dessa influência se expressa em sua poesia pré-surrealista, assim chamada por trazer ao cânone literário uma versão adiantada e prematura do que viria a ser o surrealismo apresentado pelas vanguardas literárias do século XX. Também conhecido como “bestialógico” ou “pantagruélico”, esse estilo introduzido por Bernardo Guimarães na poética brasileira traz em seu bojo a utilização de uma métrica perfeita que acompanha versos cujo significado é abstrato por demais para ser compreendido literalmente, beirando, na maioria das vezes, o próprio nonsense. Boa parte dessa produção de Guimarães foi perdida com o tempo pelo caráter eminentemente pornográfico que o autor lhe conferia, fazendo com quem ela fosse muitas vezes deixada de ser publicada, permanecendo nos manuscritos e nos rascunhos privados.

Publicação de “A escrava Isaura”

Em 1852, Guimarães torna-se juiz na cidade de Catalão, no estado de Goiás. Seis anos depois, em 1858, o escritor muda-se para o Rio de Janeiro onde passa a exercer atividade jornalística. É somente em 1875, entretanto, que ele publica “A escrava Isaura”. Quando da publicação do romance, a repercussão foi imediata por conta do contexto da campanha abolicionista que se instaurava no país no momento. Apesar da fácil associação entre o romance de Guimarães e o movimento que reivindicava o fim do regime de escravidão vigente no Brasil, é impossível afirmar que o livro fora publicado com o intuito de afirmar-se um libelo na luta dos abolicionistas. A protagonista, Isaura, é ela própria uma personagem liminar que desestabiliza os modelos de oposição em que se encontrava a sociedade escravocrata. Ou seja, não se trata de uma heroína negra que luta por sua alforria, mas sim de uma mulher branca que, por ter um infeliz acidente do destino viera a tornar-se escrava. Isaura não deixa de ser uma heroína romântica, como aponta o crítico Antônio Cândido. Ela é a representação da figura angelical tanto adorada pelos escritores companheiros de Bernardo Guimarães na Sociedade Epicureia quanto por seu ídolo maior, Lord Byron.

Publicação de “O noviço”

O outro romance de destaque do escritor é “O noviço”, publicado um pouco antes de “A escrava Isaura”, em 1872. Por meio desse livro, Bernardo Guimarães apresenta fortes críticas à sociedade patriarcal da época, bem como ao celibato imposto aos jovens seminaristas e, sobretudo, ao autoritarismo das famílias brasileiras na sociedade vigente no período em que o romance se passa. Em “O noviço”, o protagonista é Eugênio, filho de um fazendeiro, que nutre um profundo amor por sua amiga de infância chamada Margarida, sendo esta, por sua vez, filha de um agregado da fazenda da família dele. O romance entre Eugênio e Margarida é tensionado por uma questão de classe eminente que faz com que a família do rapaz o incentive a ir para o seminário. Essa impossibilidade de realização do amor de ambos, arrodeada por intrigas que são manipuladas por seus pais no intuito de afastá-los culmina com um fim trágico: a morte de Margarida que, quando descoberta por Eugênio um pouco antes do noviço celebrar sua primeira missa, faz com que ele perca a razão e enlouqueça de vez.