Resumo da Idade Moderna: A Guerra dos Emboabas (Minas Gerais, 1708 – 1709)


As estruturas de poder dependem e muito do cooptação de grupos sociais para que as forças de oposição possam ser neutralizadas. Todo tipo de dominação, acaba gerando resistência, e muitas vezes acaba evoluindo para confrontos abertos, que questionam a ordem em vigência e dão origem projetos alternativos de sociedade e de poder.

No período conhecido como sistema colonial da América Portuguesa, a contestar a ordem nem sempre partiu das camadas mais baixas, como as populações indígenas e escravos negros, mas sim, daqueles que usufruíam das práticas exploratórias da metrópole, ou seja, os cooptados.

A Guerra dos Emboabas

Senhores de engenho, clérigos, funcionários da administração, comerciantes e tantos outros, na maioria das vezes, quando expressavam seu descontentamento, buscavam o apoio da população contra a administração das colônias. No entanto, suas reivindicações acabavam se limitando as condições de vida a que eram submetidos e aos interesses de seus negócios. Um favorecimento mais amplo da população ou ainda, uma transformação mais radical da sociedade, não eram incluídos em suas metas. Assim, a cooptação foi um mecanismo utilizado largamente, envolvendo ao redor de questões consideradas cruciais, grupos sociais distintos.

Não chegaram a reivindicar uma independência nacional, os primeiros movimentos coloniais de contestação ao domínio nas metrópoles. As rebeliões nativistas foram na verdade, as manifestações contra medidas que eram consideradas contrárias e isoladas aos interesses dos colonos de algumas regiões do Brasil, servindo para evidenciar os interesses de uma população que já se encontrava com a raízes fincadas em território brasileiro.

Vale salientar, que as rebeliões nativistas, não representaram indícios de uma tomada de consciência nacional, já que não reivindicavam com a abolição da escravidão, uma integração social da população, e também não almejavam alterações profundas na estrutura social e econômica que estava sedimentada ao longo do período colonial.

A atração pelo ouro, que foi encontrado na região de Minas Gerais no século XVII, sobre colonos de outras províncias e europeus, levou a conflitos com seus descobridores, os bandeirantes paulistas. Apelidados de emboabas e sob a liderança de Manuel Nunes Viana, alcunhado governador das minas, enfrentaram os paulistas em vários combates. O mais marcante deles aconteceu no chamado Capão da Traição, no qual 300 paulistas foram cercados pelos emboabas e massacrados, mesmo após terem se rendido.

No ano de 1709, com o objetivo de pacificar a região e melhorar a sua administração, o governo de Portugal separou a capitania de Minas Gerais e São Paulo da capitania do Rio de Janeiro. Rechaçados, os bandeirantes paulistas acabaram partindo em direção aos estados que atualmente são conhecidos como Mato Grosso e Goiás, em busca de ouro. Alguns deles, enriquecidos com a exploração de ouro, retornaram para São Paulo, onde estabeleceram unidades de produção de gêneros de abastecimento para as minas, integrando, dessa forma, a economia paulista à mineira.

A Guerra dos Mascates (Pernambuco, 1710 – 1711) e a Revolta de Filipe dos Santos (Vila Rica, Minas Gerais – 1720)

Com a expulsão dos holandeses da região Nordeste e com a decadência consequente da economia açucareira, a aristocracia rural da vila pernambucana de Olinda estava passando por dificuldades em sua economia. No entanto, ainda controlava a vida política da capitania, por meio de sua câmara municipal, na qual o povoado de Recife estava submetido.

Enquanto Olinda mantinha seu predomínio político, Recife se tornava o principal centro econômico de Pernambuco, com o intenso comércio exercido pelos portugueses, apelidados de mascates. Os comerciantes, que tinham grandes lucros com a sua atividade, passaram também a emprestar dinheiro a altos juros aos habitantes de Olinda que estavam passando por dificuldades.

No ano de 1709, o Recife foi emancipado, graças a pressão que os comerciantes portugueses exerciam. Assim, Recife ganhou o estatuto de vila independente, fazendo com que a população de Olinda se revoltasse e desse início à Guerra dos Mascates. Os principais envolvidos nesse conflito acabaram sendo presos pelo governador de Pernambuco, que havia sido nomeado pela Coroa um ano depois. Félix José Machado, conseguiu manter a autonomia de Recife, acabou transformando no ano seguinte, Recife em sede administrativa de Pernambuco.

A institucionalização das casas de fundição e os crescentes tributos que a colônia cobrava, onde o ouro era extraído em pepitas ou pó era transformado em barras e quintado, provocaram essa revolta. Contrários à medida, mais de dois mil mineradores, dirigiram-se ao governador, o conde de Assumar, que não podendo fazer frente aos manifestantes, prometeu atender-lhes as exigências, que incluíram a não instalação das casas de fundição e o fim de vários tributos sobre o comércio local.

Assim que o governador conseguiu reunir um certo número de tropas, elas foram lançadas contra os revoltosos de Vila Rica, onde vários deles acabaram sendo presos e diversas casas foram queimadas. Um dos líderes mais pobres da revolta, o português Filipe dos Santos, que dá nome ao movimento, foi condenado à morte, enforcado e logo em seguida, esquartejado para que servisse de exemplo e para inibir outras rebeliões. As casas de fundição foram mantidas e Minas Gerais foi separada da capitania de São Paulo, a fim de aumentar o controle sobre a região mineradora.