Segundo governo de Fernando Henrique Cardoso


Fernando Henrique Cardoso entrou para a história do Brasil como o primeiro presidente da República a permanecer em seu cargo por dois mandatos consecutivos, isto é, dois mandados seguidos, fato que até então havia sido inédito depois da redemocratização do país. Alçado à fama de pai do Plano Real por ter sido um de seus autores, senão o principal, de fato foi essa façanha econômica que, em um país devastado por uma inflação herdada pela ditadura militar e que fora a principal vilã e inimiga das gestões políticas recentes, lhe concedeu plataforma política para ser eleito em 1995.

Também pudera: o Plano Real foi a cartada final na série de pacotes econômicos que protagonizaram as finanças do país na tentativa de salvá-las do umbral ao qual foram jogadas no período pós-ditadura militar. O segundo mandato de Fernando Henrique Cardoso, por sua vez, foco desse artigo, tem início após um primeiro momento notadamente conhecido pela era de privatizações do serviço público, que tinham como objetivo a tentativa de conter mais uma vez a inflação e o desemprego que assolavam o país desde a década de 80.

Fernando Henrique Cardoso

O presidente Fernando Henrique então toma posse de seu cargo pela primeira vez no mês de janeiro de 1995, sete meses depois da instauração oficial do Real como moeda corrente no país. O Real surge em nosso cenário econômico como produto de uma façanha ousada: era uma moeda latina cuja paridade equivalia ao Dólar, como fora anunciada pelo Banco Central na época. Uma nova moeda, altamente valorizada, que impulsiona o consumo e desperta não só o apoio da população civil com, principalmente, do setor empresarial, aliviado após tantas desventuras monetárias.

Ao longo dos próximos anos do primeiro mandado de Fernando Henrique, o Brasil iria assistir a privatização de empresas como a Vale do Rio Doce e a Telebrás, processos envoltos em muita controvérsia e denunciados pela oposição como manobras políticas para favorecer a empresas internacionais na compra das estatais supracitadas. É também no primeiro mandato que o Congresso Nacional aprova uma emenda à Constituição que prevê, uma vez aprovada, a possibilidade de reeleição de candidatos ao executivo nas esferas municipais, estaduais e federal. Ou seja: Fernando Henrique cavava ali o primeiro passo necessário para a sua reeleição.

Segundo mandato

Com essa possibilidade assegurada pelo Congresso Nacional, Fernando Henrique Cardoso disputa a reeleição em 1998 com o candidato da oposição, Luís Inácio Lula da Silva, e torna-se presidente no ano seguinte, 1999, com uma vitória enunciada por 53% dos votos válidos no território nacional.

O primeiro presidente brasileiro a ser reeleito assume então a nova gestão diante de um cenário de crise. Se por um lado, desde 1994 o salário mínimo apresentava um aumento real, por outro, o Real não dera conta de saciar todas as cobranças econômicas oriundas da desestabilização e da recessão a que o país entrara, e a dívida externa agora assolava a economia brasileira como um todo, tendo alcançado o incrível índice de 30% de todo o Produto Interno Bruto nacional.

Nessa mesma conjuntura que tomou conta do país a partir do segundo mandato de Fernando Henrique, também identificamos altas taxas de desemprego cujo impacto foi significativo para fazer com que o consumo caísse. O cenário político também foi abalado por uma série de denúncias de corrupção, envolvendo principalmente as áreas da saúde, dos transportes públicos e da educação pública.

Outro grande problema endêmico da sociedade brasileira que atingiu limites praticamente insustentáveis foi a concentração de renda. Um relatório da Organização das Nações Unidas (ONU) apresentado no ano de 1999 apontou que a fatia dos 20% mais pobres do país possuíam apenas 2,5% da renda nacional, enquanto a fatia exatamente oposto, isto é, os 20 % mais endinheirados, possuíam 63,4% do equivalente ao tesouro do país.

O índice que mede o desenvolvimento humano em um país é conhecido como IDH, responsável por aferir aspectos importantes da escala de organização social e econômica de uma nação, tais como a expectativa de vida, o acesso ao saneamento básico, a renda per capita e o grau de escolaridade atingido pela população. No segundo mandado de Fernando Henrique Cardoso, o IDH também passou a atingir escalas insatisfatórias, colocando o Brasil na posição 69 dentro os 162 países que compõe o conjunto de nações do globo.

Diante dessa conjuntura nada animadora, o segundo mandato de Fernando Henrique Cardoso passou a se tornar cada vez mais impopular. O país não acreditava mais no modelo neoliberal de desenvolvimento, e as privatizações das empresas pareciam não dar conta de garantir um desenvolvimento suficientemente satisfatório mediante a crise econômica e o desemprego que agora eram os principais protagonistas do temor coletivo da população. Sem a possibilidade de garantir uma distribuição de renda que aumentassem as condições de consumo e de acesso a serviços básicos necessários para o desenvolvimento humano, o projeto político de Fernando Henrique Cardoso perde as eleições para Luís Inácio Lula da Silva que, em 2002, elege-se como o primeiro presidente do Brasil vindo da oposição.