Gonçalves Dias e o Romantismo


O espírito romântico é marcado por três conceitos fundamentais e novos para o século XIX: individualismo, liberdade e nacionalismo. Tais conceitos nascem com a formação da psicologia burguesa, oriunda das transformações socioeconômicas e culturais da Revolução Industrial (1760 – 1850) e da Revolução Francesa (a partir de 1789).
A arte romântica é mais espontânea do que a arte neoclássica. Já não se destina à minoria das elites nobres. Ao contrário, destina-se à massa burguesa, que não sabe latim nem grego; mas que se acha aberta às aventuras do espírito nacional.

Democratizando a recepção da arte, o romantismo busca as formas selvagens de expressão: aspectos bruxescos e heroicos de Idade Média, o mundo primitivo dos índios americanos, o folclore regional, a solidão e inquietações do indivíduo.

Gonçalves Dias

Os neoclássicos valorizam a imitação dos grandes modelos do passado e se compraziam em obedecer aos preceitos e padrões das poéticas. Valorizavam em excesso a arte regular, fruto do estudo e disciplina. Os românticos reagiram contra essa atitude, propondo uma arte livre e original, baseada na inspiração, no sonho, na fantasia e no impulso criativo. Nesse sentido, os romântico voltam à irregularidade e imprevisibilidade da arte barroca. Victor Hugo dirá, em 1827, no prefácio de sua célebre peça Cromwel: “Metamos o martelo nas teorias, nas poéticas e nos sistemas (…) Nada de regras nem de modelos”.

A sensibilidade romântica, marcada pela rebeldia, imaginação e contrariedade, origina-se na Alemanha e Inglaterra, no final do século XVIII.

Na Alemanha, os primeiros impulsos românticos vêm do grupo Sturm und Drang (tempestade e ímpeto), de onde nasce a novela passional Sofrimentos do Jovem Werther (1774), de Goethe. Na Inglaterra, uma das primeiras manifestações românticas são as Baladas Líricas (1798), escritas conjuntamente por Coleridge e Wordsworth. A partir de 1800, a liberdade romântica atinge a França, sobretudo com os trabalhos de Madame de Stael e Chateaubriand, difundindo-se daí para o resto do mundo.

Fruto da influência francesa e portuguesa, o Romantismo brasileiro nasceu estimulado pelo clima da Independência. Havia interesse generalizada na criação de uma cultura verdadeiramente nacional e isso explica algumas das características mais salientes de nosso Romantismo: o indianismo – que idealiza o nacionalismo e o regionalismo – que valorizam nossos costumes e nossa paisagem – o brasileirismo linguístico – que marca em certos autores o desejo de utilizar literariamente a língua portuguesa tal como usada no Brasil, não em Portugal. É considerado iniciador do Romantismo brasileiro um poeta de menor valor, Gonçalves de Magalhães, que em 1836, de Paris lançou sua coletânea de poesias intituladas “Suspiros Poéticos e Saudades.”

Em Portugal, Gonçalves Dias passou por apertos financeiros. Mas tomou conhecimento do movimento romântico, que valorizava os temas históricos e nacionais, como o heroísmo medieval, etc. Por outro lado, tomou contato com o último arcadismo, ou seja, o último movimento de linguagem clássica. Isso vai marcar sua poesia definitivamente.
Voltando ao Brasil, Gonçalves Dias esteve na esfera de influência dos literatos ligados a D. Pedro II. Não foi, portanto, um contestador. Sua moralidade é antiga, contida e sóbria. Aliás, sua poesia vai refletir um homem de sensualidade controlada, especialmente no que toca à presença feminina.

Foi o grande mestre dos poetas românticos que vieram depois dele.

Antônio GONÇALVES DIAS

Empolgado com a Idade Média heroica, procurou traduzi-la em termos brasileiros com seu indianismo simbólico e idealizado. É o cantor da pátria, sua natureza, suas coisas. Transformou-se, por isso, num símbolo nacional. É cristão, tem poesia de íntima concentração em Deus. Por outro lado, ama a natureza quase como um panteísta, o que lhe empresta certas cores pagãs, helênicasxd.

Soube conciliar seu espírito lusitanizante com a ternura brasileira.

CARACTERÍSTICAS ESTILÍSTICAS

Sua maior qualidade: equilíbrio entre a forma clássica e a invenção emocional do Romantismo; manteve as qualidades do classicismo, sem conter seus defeitos, enfim, sem repetir o que no classicismo era cansado e velho. Isso o diferencia de um poeta como Gonçalves de Magalhães. Poeta da concisão, da frase breve e enxuta: procura dizer o máximo como o mínimo de palavras. Quando consegue essa façanha, faz uma poesia brilhante.

Gonçalves Dias nasceu de pai português, numa fase conturbada da vida nacional, um ano após a Independência. Seu pai foi perseguido. Sua mãe era cafuza, foi expulsa pelo marido, que se casa após a morte desta, Gonçalves Dias não gozou de uma vida familiar completa e plena. Logo que pôde, foi estudar em Portugal.

Fez poesia indianista, em que projeta os valores do heroísmo medieval português; fez apaixonada e dramática poesia de amor; fez poesia da natureza majestosa; fez epopeia (Os Timbiras), fez teatro e até prosa científica. Seu fraseado constantemente mantém algo que os outros românticos vão gradativamente eliminando: a inversão sintática dos termos da oração, o hipérbato. Gostava de praticar a redondilha portuguesa, dentro da tradição popular da “medida velha”.