Raul Pompeia e o Ateneu


Personagens machadianos

Machado esmiuça em detalhes seus personagens: mesquinharias, discórdias, brigas, oportunismo, falsa moral, etc. O autor é implacável e irónico, não ocultando seu desencanto e tristeza a respeito do ser humano, o que deixa trans­parecer em muitos de seus romances e contos. Há uma espécie de sociedade hipócrita e de falsas virtudes, um ceticismo quanto à natureza humana.

A respeito dos personagens machadianos, a pesquisadora Mary dei Priore afirma o seguinte: De todos os personagens machadianos, um dos mais discutidos e reavaliados até hoje é Capitolina, mais conhecida por Capitu, a menina que deixou a condição modesta de filha de um funcionário, o Pádua, para se tornar esposa do advogado Bento Santiago. O livro deixa em aberto se Capitu traiu ou não Bentinho. É ele, Bentinho, quem narra, em primeira pessoa, a intriga, por isso temos a sua visão sobre os fatos.

Ateneu

Em 1998, o escritor Fernando Sabino publicou o livro Amor de Capitu, em que recriou o enredo de Dom Casmurro. Fernando Sabino, na reescrita que fez do livro de Machado de Assis, optou por contar a história na terceira pessoa. Desse modo, de um ponto de vista mais distanciado, o narrador tomou partido e criou uma possível solução para o mistério que tem rondado Dom Casmurro, ao longo dos tempos, o de se saber se houve ou não traição por parte de Capitu.

A seguir, você conhecerá o trabalho de outro escri­tor muito importante para o Realismo: Raul Pompeia. Sua obra O Ateneu é um dos mais importantes livros de nossa literatura.

Raul Pompeia

Raul d’Avila Pompeia nasceu em 12 de abril de 1863, em Jacuacanga, Angra dos Reis, Rio de Janeiro, e suicidou-se no dia de Natal de 1895. Raul Pompeia entrou, assim como Manuel Antônio de Almeida, para a história da literatura por causa de um único livro: O Ateneu. Outros livros dele, como Uma tragédia no Amazonas, ficaram em segundo plano. Advogado por formação, o escritor preferiu dedicar-se à imprensa, sendo um dos ferrenhos críticos de sua época.

Quando foi decretada a Abolição, Pompeia abraçou a causa republicana e tornou-se um seguidor de Floriano Peixoto. Devido a suas ideias e convicções, fez inúmeras inimizades, entre elas a do poeta Olavo Bilac. Ambos não duelaram fisicamente porque seus padrinhos inter­cederam e evitaram o pior. Pompeia era um homem de rara sensibilidade e abatia-se frequentemente com as criticas a ele dirigidas, o que o levou ao suicídio na noite de Natal.

O Ateneu ê um livro de memórias. O personagem principal, Sérgio, já adulto, narra a sua vida de aluno no colégio interno Ateneu. A narrativa é em primeira pessoa, com Sérgio como personagem-narrador.

O romance pode, sim, ser considerado autobiográ­fico, sendo Sérgio o próprio Raul Pompeia, e o Ateneu o colégio Abílio. O Ateneu apresenta as seguintes influências em sua estrutura: O Naturalismo, pois o instinto prevalece, muitas vezes, sobre a razão.

O Realismo, pois há a crítica social e a preocu­pação moral. O Impressionismo, em que surgem imagens vagas e imprecisas. O Expressionismo, com o surgimento de imagens grotescas, caricaturais e exageradas, que mais tarde ganharia destaque na obra de Augusto dos Anjos.

O enredo se desenvolve com Sérgio, menino ingênuo, sendo levado ao internato com cerca de 11 anos. No início das aulas, ele é advertido por Rabelo a respeito das qualidades nefastas da escola e da necessidade de se ter um protetor.

Sérgio, menino de rara sensibilidade, começa a sentir as pressões do ambiente e sente a necessidade de ter um protetor. Encontra-o, e as sugestões de homos­sexualismo são evidentes. Como personagem central, é a partir da sua ótica que a história é contada. Menino de 11 anos, criado no aconchego do lar, sob os carinhos maternos, penetra no mundo do Ateneu com intensa fragilidade e inocência. Para ele, a escola representava um mundo de ilusões e fantasias: ele a vira em dias de festa. Mas, como aluno interno, sozinho, entra em contato com as leis que regem aquele lugar e aos poucos vai-se familiarizando e se fortalecendo.

Aristarco representava a truculência de um sistema educacional violento e injusto. D. Ema também é o nome da célebre personagem de Gustave Flaubert (Emma Bovary). Em O Ateneu, D. Ema é a esposa do autoritário diretor e sua figura a ele se opõe: