À custa de ou às custas de?


Já aconteceu com você de, no meio de uma frase ou na hora de escrever uma redação, aquela expressão que nos parece tão corriqueira de repente se revelar fonte de uma dúvida sem precedentes? O que fazer nessas horas? Honestamente falando, não há solução mágica a não ser consultar alguma gramática ou pedir ajuda a algum professor de português. Mas para todos os efeitos, podemos ir, paulatinamente, desvelando caso a caso no intuito de conseguir, sem pressa e com calma, compreender os meandros de todas as expressões e termos que nos causam dúvidas na língua portuguesa.

À custa de ou às custas de?

Isso porque, em boa parte das vezes, criamos uma certa barreira em relação à língua portuguesa e aos seus meandros, o que faz com que gente se afaste de antemão de qualquer possibilidade de compreensão, creditando a tudo referente à gramática a ideia de que se trata, sempre, de uma série de informações embricadas, confusas e relacionadas à suposições e regulações que não nos fazem o menor sentido em nosso uso cotidiano da língua. E, a bem da verdade, isso não é uma mentira por completo: afinal de contas, nós aprendemos a falar o português e por meio dele nos relacionamos com as outras pessoas ao nosso redor sem que tivesse sido preciso ou essencialmente necessário aprender a gramática e todos os seus pormenores.

Como e por que usar: “às custas de” ou “às custa de”?

Uma expressão que suscita muitas dúvidas entre aqueles que vão utilizá-la é o famoso “às custas de” ou “à custa de”. Sempre, na hora de ser utilizada, essa pequena diferença entre plural e singular faz com as pessoas imediatamente mergulhem no mar da dúvida eterna e se sintam, muitas vezes constrangidas por não saber qual é a utilização ideal ou adequada dessa expressão. No caso desse presente artigo, ela será o grande alvo de nossa investigação. Por isso, se você for um desses que não tem ideia de qual é a maneira certa de utilizá-la, fique tranquilo: até o fim das próximas linhas, suas dúvidas serão sanadas!

Na realidade, a forma mais coerente e correta de escrever essa locução seria “à custa de”, no singular mesmo. Esse termo tem como interpretação plausível um significado próximo de “por meio de”. Algumas das locuções que lhe são sinônimas seriam: “através do esforço de”, “graças ao esforço de”, “por meio do trabalho de”, “por causa da influência de”, “em sacrifício de”, “mediante o poder de” ou ainda “mediante o poder”. Basicamente, essa expressão singular nos apresenta a ideia de uma ação prerrogativa que só foi desenvolvida diante de uma ação de um terceiro que precisou, por sua vez, sacrificar-se ou sacrificar algum objeto, item, valor, condição em questão para que a ação pudesse tomar lugar.

Exemplos:

– O presidente conseguiu se reeleger à custa de muito trabalho de base

– Foi somente à custa de muito esforço que eu consegui entrar nessa universidade

– Todos os países envolvidos no tratado se organizaram à custa de muitas reuniões

– Aquele casal tem cinco anos de casado, não trabalha e vivem ambos à custa dos pais dela.

– Todos os homens que vivem à custa da mãe são covardes

– Não interessa à custa de que, mas você vai me trazer esse livro ainda hoje.

– À custa de muito trabalho e muito suor, conseguimos finalmente erguer essa casa.

Análise semântica e sintática

A expressão “À custa de” é uma locução prepositiva (isto é, é uma locução mediada por uma preposição ou que possui uma preposição ao seu final), e é formada estruturalmente pela contração dessa preposição “a” em relação ao artigo definido “a”, fazendo com que seja necessária a utilização do acento grave nessa palavra, craseando-o consequentemente. A língua portuguesa é recheada de locuções prepositivas. Alguns exemplos mais conhecidos são:

– a fim de;

– em vez de;

– abaixo de;

ao invés de;

– através de;

– a partir de;

– depois de;

a par de;

– sob a pena de;

– além de;

– diante de;

– graças a;

“Às custas de”: a implicação da utilização do plural

Muito embora a utilização dessa expressão no plural seja também muito frequente, ainda mais se levarmos em consideração os registros de oralidade que são cada vez mais levados em consideração na hora de relativizar o uso e a importância da gramática comum como padrão a ser reproduzido, é necessário que a gente comece a privilegiar a utilização dessa locução referida no singular mesmo, enfatizando o fato de que a palavra “custas”, quando utilizada no plural, isto é, o plural de “custa” solitariamente, acaba ganhando um outro significado que pode deteriorar a expressão quando empregada em seu modo tradicional. O substantivo feminino plural “custas” em geral faz um referência muito específica a um determinado aspecto dos processos que correm na justiça: ele se refere essencialmente as despesas que surgem no desenrolar desses processos, isto é, os gatos, os dispêndios, as despesas, etc…