Iminente ou eminente?


A língua portuguesa é sem dúvidas nenhuma uma das línguas mais complexas dentre as existentes em todo o planeta. Para comprovar isso, não precisamos ir muito longe. Basta falar com algum estrangeiro sobre a experiência de aprender português ou pensar em nosso sistema verbal. Indicativo, imperativo, subjuntivo, particípio, infinitivo, quase perfeito, mais que perfeito, futuro do pretérito, futuro do presente. Esses são só alguns dos termos utilizados para a classificação dos elementos de nosso sistema verbal.

Portanto, não é de se espantar que muitos de nós temos dificuldades em apreender conceitos de língua portuguesa – ou seria língua brasileira? E uma das principais dificuldades é distinguir palavras que têm em grafia e, consequentemente, sonoridade muito próxima, mas cujos significados são diferentes (em alguns casos, MUITO diferentes). Comprido e cumprido, mau e mal, iminente e eminente. São todas palavras quase que semelhantes, não fosse por uma letra, que apresentam significado diferente. E é sobre este fenômeno, conhecido cientificamente como parônimo, que iremos abordar neste texto, mas especificamente o caso de paronímia entre Eminente e Iminente.

Iminente

As origem da confusão 1

Muitas pessoas pecam ao trocar uma palavra por outra, e caso elas não tenham um alto nível de educação, o erro é perdoável, já que as palavras realmente são muito próximas. Observe os exemplos abaixo:

“A morte de meu papagaio é eminente.”
“O racismo é uma questão iminente, que deve ser tratada com atenção.”

O uso das palavras está errado nas duas frases. Iminente é uma palavra cuja origem etimológica é encontrada no latim “imminens”. Portanto, sua escrita em português preserva o “i” inicial, e isso também para as palavras derivadas, como iminência. Já eminente também tem sua origem etimológica no latim, mais especificamente na palavra “eminens”. Temos, portanto uma possível primeira razão para a confusão do uso de uma ou de outra palavra: a origem etimológica, já que ambas são derivadas de palavras do latim.

Um segundo possível motivo para a confusão recorrente na “escolha” de uma ou de outra palavra está na classe gramatical a qual elas pertencem, pois as duas são empregadas como adjetivo. E como se não bastasse pertencerem à mesma classe gramatical, ainda recebem a mesma denominação, já que ambas são adjetivos uniformes, ou seja, que não apresentam flexão de gênero. As duas recebem a mesma grafia quer estejam qualificando nomes femininos quer estejam qualificando nomes femininos.

Portanto, além da grafia e sonoridade quase que igual, temos três motivos que justificam a confusão feita no emprego de iminente e eminente: a etimologia, a classe gramatical e a classificação do adjetivo. Vamos olhar como cada uma delas é definida no dicionário para que possamos distingui-las com mais propriedade.

As definições 2

Para dar mais precisão, inclusive histórica, vamos olhar como os dois termos são definidos em dois diferentes dicionários, um do ano de 1943 e outro de 2008. No primeiro dicionário temos as seguintes definições:
“EMINENTE adj. elevado, distinto, importante.”;
“IMINENTE adj. pendente.”
Já no segundo dicionário, as definições são dadas da seguinte maneira:
“E.mi.nen.te adj 2 gên 1. Elevado, alto; 2. Superior, que excede os outros, sublime.”;
“I.mi.nen.te adj 2 gên 1. Sobranceiro; 2. que ameaça cair sobre alguém ou a alguma coisa; 3. que pode ocorrer a qualquer momento.”.

Por estas definições, podemos perceber o quanto o significado das palavras difere. E mais, como há inúmeros contextos em que elas podem ser empregadas, especialmente se considerarmos a palavra iminente, que apresenta três acepções.

Esses múltiplos sentidos também são um fator que complica no momento em que o falante está elaborando sua fala e/ou escrita, e tem que decidir qual das palavras será empregada naquele contexto determinado.

Neste texto nos atemos a um só exemplo de paronímia, mas em se tratando de língua portuguesa há vários outros casos que merecem (e devem) ser estudados com mais detalhes, pois como foi possível perceber a mudança de uma só letra altera todo o significado da palavra. Questões envolvendo paronímia são amplamente utilizadas em vestibulares e concursos públicos já que, por especificidade da diferenciação, elas são capazes de apontar precisamente o nível de conhecimento que o candidato possui em relação à sua língua nativa. Vale estudar casos de paronímias que ocorrem com retificar e ratificar, precedente e procedente, evasão e invasão, descrição e discrição, entre tantos outros existentes.

A língua portuguesa é ao mesmo tempo fascinante e complexa, e justamente por isso deve ser estudada em todas suas especificidades. Em casos como o de paronímia, não existem regras que deem conta de todos os casos. Sendo assim, vale gastar um pouco de tempo se dedicando a estudar o assunto, já que desta forma o conhecimento adquirido será muito mais sólido e permanente do que a mera “decoreba”.

Consegue pensar em mais algum caso de paronímia? Sim? Além da significação, quais outros fatores diferem uma palavra da outra? Faça este exercício e depois conte para a gente.