Uso das reticências como recurso estilístico


A pontuação é uma espécie de tentativa de reproduzir as entonações e as pausas da linguagem oral. Dizemos tentativa, porque a linguagem oral é muito rica no quesito entonações, já que a linguagem do tipo escrita não consegue dar conta de todas as ocorrências. Veja nos exemplos abaixo:

A. MEU TIO comprou uma boneca?

B. Meu tio COM-PROU uma boneca?

C. Meu tio comprou UMA boneca!

D. Meu tio comprou uma BO-NE-CA!

Uso das reticências

Na frase A, com a tônica em ‘meu tio’, o enunciador poderia estar espantado com o fato do tio ter comprado uma boneca, afinal ele sempre fora avarento. Na frase B, com o destaque em ‘comprou’, o enunciador poderia estar duvidando do fato de o tio ter comprado tal brinquedo, visto que sempre fez pequenos furtos. Na frase C, com o destaque em ‘uma, o enunciador poderia estar inconformado com o fato de o tio ter comprado apenas uma boneca (no numeral e não no artigo), afinal este possui cinco sobrinhas e nenhuma possui o brinquedo. Por isso, fica claro, que o sentido de uma frase pode ter ligação com um simples acento, um modo diferente de se pronunciar as palavras.

Na linguagem escrita, a interrogação, a exclamação e as reticências também possuem a faculdade de mudar o sentido por meio da entonação. Veja nas frases abaixo:

A. Você levou o meu lápis!

B. Você levou o meu lápis?

Na frase A, o enunciador utiliza o tom de acusação e o interlocutor está sendo acusado de roubo. Na frase B, o enunciador não acusa o interlocutor, apenas o interroga. A entonação é diferente nas duas frases.

Em alguns casos, a alteração de sentido vem acompanhada da mudança de função sintática. Isso ocorre mais frequentemente com a vírgula. Observe:

A. Vi uma discussão estúpida.

B. Vi uma discussão, estúpida.

Na frase A, o termo ‘estúpida’ é um adjunto adnominal e se refere à palavra discussão (uma discussão boba, estúpida). Já na frase B, o termo ‘estúpida’ é um vocativo e remete ao interlocutor, ou seja, a pessoa com a qual se fala.

Tipos de pontuação

Os sinais de pontuação são utilizados com o objetivo de fazer uma estruturação de frases escritas, de uma maneira lógica, para que elas assumam um significado. As pontuações são importantes tanto na linguagem escrita, quanto nos gestos, na entonação, no tom de voz e nas pausas da linguagem do tipo oral. Quando eles são empregados da maneira correta, as pontuações passam a adquirir um expressivo recurso.

Há três tipos de pontuação:

A. sinais que indicam que a frase ainda não foi concluída: a vírgula ( , ), o travessão ( – ), os dois pontos ( : ) e o ponto e vírgula ( ; ).

B. Os sinais que indicam que a frase já foi concluída ou pelo menos parte dela: o ponto simples ( . ), o ponto parágrafo ( . ) e o ponto final ( . ).

C. Sinais que indicam uma intenção ou estado emocional: o ponto de interrogação ( ? ), o ponto de exclamação ( ! ) e as reticências ( … ).

O uso das reticências como recurso estilístico e a sua importância em textos

A pontuação em certos textos é um importante recurso de expressão, onde os autores a utilizam com o propósito de criar efeitos de sentidos que podem estar relacionados com o ritmo ou com o próprio significado do texto.

As reticências são usadas como recurso estilístico, de modo a interromper uma oração, marcando assim uma longa pausa, com descendente entoação. Basicamente, podemos dizer que elas são utilizadas para sugerir uma malícia ou ironia, ou ainda uma hesitação, um prolongamento da ideia ou uma incerteza.

Com tudo, é importante nos lembrarmos que a nossa língua tem natureza oral, o que é caracterizada portanto por uma combinação de sons. A pontuação portanto, é uma tentativa de reproduzir as pausas da linguagem oral. No início, a escrita não apresentava espaços, só depois que se colocou um ponto depois da palavra e posteriormente a vírgula. Vale ressaltar que o espaço entre uma palavra e outra, na linguagem oral, é marcado pela pausa.

Os sinais de pontuação apareceram no século XVI. Primeiramente surgiu o ponto, em seguida a vírgula e logo depois o ponto e a vírgula. A ortografia é um produto de um acordo, e possui legalidade, e até o século XIX, era apenas uma tendência, todavia a pontuação não possui esse caráter legal, o que temos são tendências grandes, ou seja, uma espécie de regularidade (regra, régua, regularidade: espaços regulares.

Podemos portanto concluir, que a pontuação é um demarcador de relações entre as frases. A sua funcionalidade é dar expressividade e sentido ao texto. Segundo estatísticas linguísticas, num texto escrito teríamos cerca de 70% de vírgulas em sua composição.