Transição para a Modernidade nas grandes interpretações do Brasil


grandes interpretações do Brasil

O conceito de modernidade é, antes de tudo, dotado de caráter controverso. Refere-se, na visão de alguns, às conquistas intelectuais, filosóficas e científicas, de outros, das conquistas materiais e do que hoje se convencionou chamar de índice de desenvolvimento humano.

Dentro da temporalidade histórica, entretanto, é possível perceber dois fenômenos. O primeiro é que a transição para a modernidade não ocorre de forma linear, como um processo contínuo e irreversível. O segundo, é que não existe uma linearidade geográfica e social.

Em outras palavras, ao mesmo tempo em que a Idade Média marca um retrocesso em diversas conquistar humanas, o próprio século XXI revela uma contradição inequívoca entre as mais diversas realidades sociais, o que mostra que o conceito de modernidade é, ao mesmo tempo dinâmico e independente da temporalidade. Em outras palavras, a modernidade pode ser percebida como o conjunto de conquistas apropriadas e naturalizadas pela sociedade humana.

Isso quer dizer que, enquanto parcelas da população vivem em um estágio avançado da modernidade, dominando as últimas conquistas sociais, econômicas, tecnológicas, religiosas e políticas, outras parcelas usufruem, quando muito, de parte dessas conquistas.

Interpretações da modernidade no Brasil

Desse modo, o conceito de modernidade deve ser trazido para um contexto específico, que só pode ser compreendido a partir de uma imersão no contexto histórico e na abordagem da formação das estruturas que sustentam o ritmo da evolução e dos retrocessos históricos de uma sociedade.

No Brasil, sem dúvida alguma, a grande referência é o sociólogo Gilberto Freire, em “Casa Grande e Senzala”, que tenta explicar a realidade brasileira a partir da interpretação da formação da sociedade. No terreno da ficção, João Ubaldo Ribeiro, em “Viva o Povo Brasileiro”, faz um interessante recorte sociológico, entre o realismo fantástico de Gabriel Garcia Marquez, em “Cem Anos de Solidão”, marcado pelo vertiginoso ir e vir no universo temporal, e a tentativa de radiografar os diversos aspectos da formação da identidade nacional com base em episódios históricos reais.

Transição para a modernidade no Brasil

A sociologia, como ciência, só surgiu no Brasil no século XX. A tentativa de compreender e modificar a sociedade está presente, no entanto, no século XIX, a partir do esforço em capturar para o terreno da análise e da crítica, a situação social vigente no período imperial, marcado pela profunda desigualdade social, agravada pela escravidão.

A estrutura fundiária, a escravidão, a sociedade patriarcal, tão enfatizada por Freire, o atraso no processo de industrialização e a sucessão de períodos autoritários influem de forma definitiva na apropriação da modernidade pelo Brasil em suas diversas manifestações.

Mesmo a miscigenação, tão decantada e romantizada, não dotou a estrutura social brasileira de uma visão inclusiva e igualitária. Ao contrário, há no presente fortes traços da sociedade brasileira do século XIX, tanto no âmbito das estruturas sociais, das divisões com forte conteúdo racial, como no âmbito das conquistas materiais.

A transição do Brasil para a modernidade, em que pese o caráter volúvel desse conceito, é um processo em curso, com avanços e retrocessos, pelo menos no caminho da modernidade presente, seja no âmbito da apropriação das conquistas científicas e tecnológicas, seja na visão do contexto da sustentabilidade ambiental, das conquistas materiais, estruturais e, principalmente, do pensamento e da aceitação das diferenças como fenômeno natural e plenamente aceitável.