Transição para a Modernidade nas grandes interpretações do Brasil


O que mudou entre as atitudes e ações das elites dirigentes no decorrer do século XIX e as representações
l elaboradas pelos intelectuais brasileiros no início do século XX? Como se alterou a forma de se abordar a questão nacional? Com o surgimento das primeiras reflexões de caráter histórico e sociológico no Brasil, a percepção da nossa realidade social também mudou?

Primeiramente, é preciso levar em conta que a Sociologia é tanto uma disciplina quanto um fenômeno histó­rico e cultural que precisa de algumas condições para se implementar: de um lado, é preciso haver um processo de secularízação (ver Conceito sociológico no final desta unidade) de atitudes e hábitos mentais; de outro, um processo de racionalização (ver Conceito sociológico no final desta unidade) dos modos de compreender a própria existência humana e os eventos históricos.

grandes interpretações do Brasil

A Sociologia como ciência não pode existir, por exemplo, em comunidades fechadas, isoladas, em sociedades camponesas estáticas ou em ambientes permeados por formas de religiosidade extrema. Seu lugar é o ambiente urbano e cosmopolita e suas reflexões dependem de certas práticas e de instituições, como a escola laica, a uni­versidade e os institutos de pesquisa.

No Brasil, pode-se dizer que, em 1870, grande parte da elite intelectual comprometida com a mudança social, com os padrões modernos e com o avanço da ciência, percebeu a importância da Sociologia. Na Europa, ela já era uma disciplina a caminho da consolidação. No entanto, essa elite não era composta por cientistas sociais ou sociólogos, mas por engenheiros, médicos, oficiais militares, escritores, jornalistas, militantes abolicionistas e/ou republicanos, etc., que faziam conexões entre Direito e sociedade, Literatura e vida social, Engenharia, Medicina e saúde pública, Biologia e raça, entre outras conexões possíveis. Essas reflexões tomavam a forma de critica das instituições, sobretudo da monarquia, da escravidão, do atraso secular em que a sociedade estava mergulhada.

Depois, num segundo momento, que abrange a primeira década republicana até meados de 1930, a Sociologia se torna uma forma de consciência e de explicação das condições histórico-sociais de existência da sociedade brasileira.

Vários autores elaboraram uma análise de caráter his-tórico-geográfico e sociográfico, motivados pela tentativa de intervenção racional no processo social. Buscavam-se, pela Sociologia, maneiras de direcionar a atividade política e redesenhar as relações sociais. É que a grande expec­tativa em torno do fim da escravidão – imaginava-se que uma era de prosperidade se abriria e os grandes problemas nacionais se resolveriam naturalmente – foi rapidamente frustrada. A Abolição e a Proclamação da República também não cumpriram integralmente suas promessas. Com isso, surgiu outra convicção social: a de que os desequilíbrios e as desigualdades que caracterizavam a sociedade brasileira possuíam causas mais profundas. Daí o esforço de certos autores, como Euclides da Cunha (1866-1909), Oliveira Vianna (1883-1951), Sérgio Buarque de Holanda (1902–1982), Gilberto Freyre (1900-1987), entre outros, em entender as causas profundas do atraso secular brasileiro.

Veremos, nesta unidade, algumas das interpretações do Brasil que se tornaram clássicas desde o início do sé­culo XX, até a década de 1930, focando nosso interesse na compreensão da transição para a modernidade.

DO LITORAL AO SERTÃO! AS IMAGENS DO BRASIL E A VISÃO DE EUCLIDES DA CUNHA

Como o imaginário do progresso caracterizava o restante do país? Como se dava a representação do ambiente rural no pensamento social brasileiro, na passagem do século XIX?

Como vimos na unidade anterior, o que o ideário do progresso, representado pela Belle Époque, mais clara­mente enfatizava era a sensação do extremo divórcio entre os grupos tradicionais do mundo rural ou mesmo a população pobre, negra e mestiça dos cortiços, de um lado; e a burguesia urbana, tida como cosmopolita, avançada e progressista, de outro.

Entretanto, desde o processo de independência, em 1822, até meados do século XIX, o Romantismo (ver Conceito sociológico no final desta unidade) havia despertado nas elites a necessidade de uma identi­ficação com os grupos nativos, particularmente os indígenas, vistos como a essência da nação.

Por exemplo, a temática do Indianismo (ver Con­ceito sociológico no final desta unidade) presente nos romances de José de Alencar (1829-1877), em especial O guarani (1857) e Iracema (1865), ilustra a presença de uma imagem extremamente positiva, ainda que abstraía e romantizada, dos primeiros habitantes do país. Tais romances, aliás, retratam a fase de formação da própria nacionalidade brasileira. Já na virada do século, contu­do, para muitos intelectuais a imagem a ser valorizada era a que se identificava com os valores da civilização moderna e, particularmente, europeia.

No decorrer do século XIX, a palavra “sertão” teve vários significados. Etimologicamente, é oriunda de “desertão” e, nos dicionários da época, ilustrava tanto uma ideia espacial, de interior, como de conteúdo social, indicando as regiões pouco povoadas do interior do país. Para José de Alencar, no romance O sertanejo (1875), o habitante do Sertão é representado de forma análoga à natureza. O sertanejo e a natureza eram vistos como uma essência viva; enquanto a cultura e a civilização, como coisas artificiais, produtos da mente humana.

Essa ideia também está presente em Euclides da Cunha (1866-1909), cujo livro Os sertões, escrito em 1902, representa um marco na constituição de um argumento sociológico sobre o país. Para Euclides da Cunha, que recebeu uma formação militar e foi influenciado pelo positivismo (ver Conceito sociológico no final desta unidade), a crença na ciência era uma referência tão importante quanto o era para a maioria daqueles intelectuais que apostavam na modernidade e na modernização do país. Baseado em ideias como evolucionismo e darwinismo social (ver Conceito sociológico no final desta unidade), Euclides via a sociedade brasileira como sujeita a um processo de fusão entre as três raças que o haviam habitado desde a Época Colonial: brancos, negros e indígenas. Contudo, o tipo antropológico resultante dessa fusão, o mestiço, deveria ser visto com ressalvas, uma vez que as diferentes raças estavam em estágios desiguais de evolução. Logo, ao se fundirem, seu efeito poderia resultar em um tipo antropológico híbrido, desequilibrado, isto é, num ser degenerado.

Sem dúvida, seu diagnóstico quanto à degeneração se aproxima (ainda que não seja idêntico) daquela imagem feita por Aluísio Azevedo, ao descrever os habitantes dos cortiços. Entretanto, o sertanejo representaria, para Euclides da Cunha, não tanto um degenerado, mas um retrógrado. Diferente dos mestiços do litoral, os mestiços do Sertão teriam podido se desenvolver, ajudados por um meio ambiente mais favorável para tal, até alcançar um tipo antropológico definido. Justamente por terem se livrado de uma cultura de empréstimo, dos hábitos e maneiras copiadas da Metrópole, eles seriam capazes de uma integração simbiótica com o meio natural. Isso os tornaria mais autênticos, mais verdadeiros.

Quando esteve em Canudos, como jornalista correspondente d’/4 Província de São Paulo (o atual O Estado de S.Paulo), Euclides afirmou que no sertão da Bahia ele estava diante do “cerne de nossa nacionalidade”, do embrião de uma civilização autenticamente constituída.

Pelo fato de ser retrógrado, mas não degenerado, o sertanejo podia, conforme a concepção do jornalista, ser alvo de um efetivo projeto de integração nacional. Ao presenciar a ação do Exército contra Canudos, bem como a
propaganda que legitimava o ataque ao messianismo de Antônio Conselheiro em nome do progresso, Euclides da Cunha deplorava o desvirtuamento de uma República que, em nome da civilização, era capaz de cometer tamanho massacre. Ainda que dividido entre a visão do atraso e da barbárie, atribuída aos jagunços, e admirando-os, ao mesmo tempo, por sua força e vigor como “rocha viva de nossa raça”, Euclides criticará a fúria com que a expedição militar dizimou Canudos: em nome da tão proclamada modernidade da capital, os oficiais se igualaram em brutalidade aos próprios fanáticos seguidores de Antônio Conselheiro (1839-1897).

Esse episódio da nossa formação nacional permite ilustrar o processo de modernização conservadora que definiu o tipo de progresso entre nós: parte do contin­gente de soldados que retornou de Canudos para o Rio
de Janeiro, depois de cumprida a missão de civilizar o Sertão, só conseguiu se estabelecer na cidade, nas submoradias que se formavam nas encostas dos morros e que receberão o nome de favela – uma planta muito comum no povoado do interior da Bahia.