A percepção do mundo


Quando afirmamos, “sim, estou percebendo”, o que queremos realmente dizer? Será que afirmamos isso quando conseguimos ver o que nos é mostrado ou entender o que nos é mostrado? Ou é a mesma coisa e isso não tem importância? Mas quando a gente vê e diz “não entendi!”, o que isso quer dizer?

No caso retratado nos quadrinhos, não se trata exatamente de um erro de apreensão, mas de um equívoco de interpretação; porém, tal erro fez o senhor apreender aquela expressão como uma sau­dação amistosa. Não fosse o último quadrinho, poderia este viajante reproduzir aquela manifesta­ção como “a cordial forma de as pessoas se cumpri­mentarem naquele país”.

percepção do mundo

O que quero afirmar com todos esses exemplos é que, como já vimos no primeiro texto, as coisas do mundo exigem de nós, para conhecê-las, formas de abordagens que não são imediatas e que não correspondem rigorosamente à realidade. E que tais formas de abordagens – pelo menos boa parte delas – são construídas socialmente, ou seja, nós percebemos de uma forma que nos é determinada por uma série de circunstâncias e que, em face dessas circunstâncias, a percepção pode ganhar uma ou outra dimensão.

Você já se viu assim, afetado por algum lugar, por alguma pessoa, ou por alguma situação? Descreva de que forma seus sentidos foram alterados por esses acontecimentos.

A percepção expressa, além da coisa observada, o conjunto de influências do observador. Um artista verá um galho retorcido de uma árvore de uma forma diferente de você, por exemplo – a não ser que você seja um artista também! Um matemático verá beleza em uma equação enquanto você poderá ver apenas uma nota vermelha no seu boletim. Um cineasta vai achar arrasador aquele filme francês dos anos sessenta que para você pareceu ter tido oito horas de duração! Um sobrevivente de um naufrágio verá aquela linda paisagem das praias havaianas, com os surfistas pegando “tubos”, com um olhar de pânico e horror.

Esse texto não o ajuda a responder à pergunta feita no primeiro exemplo: “Por que afirmamos que existe o feio?” Então escreva o que você concluiu.

Bem, mas o que podemos concluir disso?
•       Primeiro, que percebemos o mundo.
•       Segundo, que percebemos com os nossos sentidos que, no entanto, não são socialmente desenvolvidos para sentir do mesmo jeito.
•       Terceiro, que o fato de não sermos programados para sentir do mesmo jeito impede que se determine rigorosamente o real, estando, dessa forma, esse “real” sujeito a regras pro­duzidas e aceitas por nós.

Vamos exemplificar um pouco as conclusões a que nos propusemos neste momento:

Quanto à primeira conclusão, responda: Existe o feio? E você dirá, talvez até olhando para alguém aí da sala (e tomara que não sejam os outros a fazer isso com você!): Sim!

Mas por que você percebe isso? Bem, porque sim! Mas “porque sim não é resposta”, já dizia o menino do Castelo Rá-Tim-Bum. Por que afirmamos que existe o feio?

Quanto à segunda conclusão: Afirmam os antro­pólogos que os esquimós são capazes de distinguir dezenas de variações de branco e que isso é funda­mental para a sobrevivência deles no Artico, já que assim eles podem detectar o gelo mais fino e que­bradiço, o adequado para fazer os iglus, etc.

Também populações nativas de algumas ilhas da Oceanía, estudadas por antropólogos do Ocidente, distinguem várias formas de andar e mesmo se comunicam assim: Quando tristes, “rebolam” de um jeito, quando “alegres”, de outro. Quando “brabos”, de um terceiro jeito, e assim por diante.

Mas você não conseguiria distinguir aí, na sua sala, formas de comportamento corporal que indi­cam uma ou outra característica dos seus colegas? E dos seus professores?

Quando nosso corpo percebe coisas, também estabelece com essas coisas relações, e assim pode compará-las. Na verdade, dizem os estudio­sos, nós não percebemos objetos pontuais e isola­dos, mas já percebemos em um contexto. Quando afirmamos: “Olha, que lindo vale!”, nossa cons­ciência já percebeu o vale, as montanhas, o céu, o horizonte, etc., e ainda comparou com outras percepções de vales anteriores, antes de excla­mar.

Assim, o nosso “feio” não é uma reprodução do real, mas uma leitura do real, mediada pelo nosso corço. É por isso que não existe o absolutamente feio. Sempre tem quem goste…