Polêmica moral na modernidade


Apesar da crítica platônica à mímese e da prescrição aristotélica de que as manifestações artísticas fossem edificantes e pedagógicas, a arte se desenvolveu adotando novas formas, técnicas e linguagens, reivindican­do autonomia em relação à verdade e gerando novas polêmicas. No auge do Iluminismo (século XVIII), por exemplo, as cortes europeias deliciavam-se com o esplendor de sua produção artística, científica e filosófica, ouvindo com perplexidade as duras críticas do francês Jean-Jacques Rousseau aos requintes da civilização.

Decadência dos costumes

Rousseau Ligava o prazer da arte às paixões humanas, encarando o desenvolvimento cultural das sociedades como fruto da riqueza e do ócio. Ele dizia que a arte e a ciência nascem do luxo, a que responsabilizava pela decadência dos costumes, por sobrepor aparências à verdade, hipocri­sia e polidez à virtude. Por isso, o filósofo defendia uma vida simples, ligada à natureza e aos deveres individuais.

Polêmica moral

Embora aceitasse a existência de gênios, com talento superior para a produção artística e intelectual, ele cri­ticava aqueles que exibiam talentos imaginários, em vez de aplicar suas verdadeiras habilidades em coisas úteis. Entendia a virtude e a verdade como sendo os valores supremos que cada qual devia desenvolver, fossem quais fossem os seus talentos e papéis sociais. Além disso, cri­ticava as desigualdades sociais geradas pela valorização excessiva de talentos dos indivíduos.

Ao modelo de homem que se valorizava no contexto

Essa tela do século XVIII retrata Ma-dame de Pompadour, que foi amante do Rei Luís XIV e teve grande influên­cia nos meios político e cultural fran­ceses, relacionando-se, inclusive com filósofos franceses, como Voltaire, Rousseau e Diderot. A imagem mostra o luxo dos círculos cultos de Paris no contexto do Iluminismo.

iluminista, ele contrapôs uma imagem simbólica, hoje conhecida como o “mito do bom selvagem”. Essa imagem apresentava um ser humano hipotético, de costumes simples, caráter leal e corajoso, num estágio de pureza anterior à civilização e, consequentemente, à corrupção dos costumes que ela acarretaria. Entretanto, o filósofo não acreditava na possibilidade de retorno do homem a essa condição original. Responsabilizava os estudos pelo individualismo, vaidade e covardia que, segundo ele, marcavam a sua época. No entanto, dizia que, uma vez instalada, a cultura é irreversível, devendo ser controlada e melhorada para proteger os costumes e assim preservar, tanto quanto possível, a ingenuidade e o sentimento. Sendo assim, aceitava a arte e as demais expressões culturais apenas como distrações para o homem já corrompido, a fim de evitar a aplicação do seu tempo na prática do mal.

Educação estética do homem

No mesmo século, o alemão Johann Schiller teve outra visão do papel da arte em relação ao caráter e aos costumes humanos. Afirmava que o belo despertava o bom no indivíduo, pois a natureza do homem reunia razão e sensibilidade. Portanto, esta devia ser cultivada para elevar aquela. Afinal, filósofos, como Kant e outros, julgavam a razão responsável pela moral humana.

Schiller estudou atentamente a obra de Kant e simpatizou com uma lei defendida por ele para orientar a conduta humana. Essa lei, relacionada à razão e ao dever, ficou conhecida como imperativo categórico – ou seja, algo para ser necessariamente cumprido. Ela afirmava que sempre devemos agir como desejaríamos que os demais agissem numa situação semelhante àquela em que nos encontramos. Com base nessa lei, Schiller criou um novo imperativo, ligado à sensibilidade: reconhecer o belo como um caminho para a liberdade, por ser ele capaz de unificar a razão e a alegria, o dever e o prazer.

Para esse filósofo, a arte era lúdica: proporcionava alegres jogos de imaginação, ligados à criação e à contem­plação do belo, nos quais a razão e a sensibilidade podiam mover o homem no desejo e na liberdade de aperfeiçoar o que ele conhecia. Schiller acreditava que, mesmo sem poder transgredir a ordem natural e os deveres morais, o homem encontrava na imaginação a liberdade estética de criar e recriar as formas da matéria. Além disso, tal faculdade poderia despertar os sentimentos, que são essenciais para uma vida ética. Por isso, o filósofo criticava a fragmentação do homem e do conhecimento pela ruptura entre razão e sensibilidade. A fim de aperfeiçoar mo­ralmente a humanidade, ele defendia a ação lúdica da arte e uma educação estética para as pessoas.

Por outro lado, criticava o uso da cultura para justificar o egoísmo e a depravação dos costumes. Dizia que a beleza mal utilizada criava um reino de aparências e paixões. Por isso, o artista devia render-se ao belo, não aos desejos de sua época, suprindo-a do que lhe faltasse, em vez de usufruir o que ela oferecesse. Além disso, Schiller condenava a submissão da arte à utilidade e ao que chamava de “ruidoso mercado do século”, sem saber o quanto esse mercado cresceria nos séculos seguintes.