Conceitos Filosóficos de Arthur Schopenhauer e Friedrich Nietzsche


polêmica vital contemporânea

Entre os séculos XIX e XX, na Alemanha, deu-se uma grande polêmica filosófica sobre o papel da arte em relação à vida, envolvendo importantes filósofos, que questionavam: a arte deveria afastar as dores da vida ou mergulhar-nos na beleza que existe mesmo na dor? Nesse contexto, ocorreram as célebres divergências, que você vai conhecer agora, entre Arthur Schopenhauer e Friedrich Nietzsche.

Vontade de nada

Schopenhauer ficou conhecido como um filósofo solitário e pessimista. Ele aceitou a visão kantiana da realidade como um fenômeno, ou seja, a visão do mundo como uma representação na consciência dos ho­mens, limitada pelas formas puras da sua sensibilidade. No entanto, concluiu que essa representação sofreria variações entre os indivíduos, devido à influência direta da vontade humana sobre ela.

Arthur Schopenhauer e Friedrich Nietzsche

Esse filósofo entendia a vontade como querer humano sem fim e irracional, uma faculdade insaciável de desejar, que faria da vida um constante sofrer. A causa de tal sofrimento viria do domínio exercido sobre nós pela vontade e por seus objetos. A fim de libertar-nos de uma submissão tão arrasadora, precisaríamos experimentar as seguintes etapas:

–   contemplação das obras de arte, especialmente a música: esse primeiro estágio proporcionaria um distanciamento salutar em relação à nossa vontade – permitindo que a contemplássemos, conhecendo o seu modo de agir sobre nós -, mas não chegaria a suprimi-la;
–   conduta ética: nessa nova fase, uma vez que já conheceríamos a vontade, poderíamos superar o egoís­mo, chegando ao princípio básico da moral: não prejudicar pessoa alguma e ser bons para com todos;
–   quietismo: essa etapa final seria de renúncia às solicitações da vontade, o que nos levaria à superação dos instintos e à autoanulação própria da vontade, por meio da fuga de nossa mente para o nada.

Vontade de potência

Nietzsche se dizia “o extremo oposto de um filósofo pessimista”. Por isso, atacava as ideias de Schopenhauer e defendia a vontade de potência: um desejo ilimitado de viver apesar de toda a dor, erro, imper­feição ou catástrofe. Ele não aceitava que o homem fugisse à força da vida, que sempre se renova, apesar do sacrifício ou do aniquilamento dos indivíduos. Nesse eterno retorno, o homem devia aceitar a dor com alegria e coragem, celebrando o fato de viver como o faria um poeta trágico. Dizer “Sim!” à vida, em quais­quer condições, seria uma forma de superioridade, transformando aquele que a atingisse no que o filósofo denominava além do homem.

Essa ilimitada vontade de vida, designada por Nietzsche como vontade de potência, corresponderia, segundo ele, ao elemento dionisíaco da existência. No contexto da mitologia grega, Dionísio era o deus que representava a falta de medida, o prazer, a embriaguez e o sacrifício. Em oposição a ele, o deus Apoio representava a ordem, a medida e o amor à perfeição. Logo, no pensamento de Nietzsche, essas características correspondiam ao elemento apolíneo da existência. Na visão desse filósofo, a arte trágica surgiu exatamente do confronto entre o apolíneo e o dionisíaco na vida humana. Ela passou a representar esse conflito, com a missão de trazer ao homem, que se sentia incompleto, a sensação de unidade e plenitude.

Assim, a arte não seria um meio para libertar-se da vida, mas a própria finalidade desta, promovendo o que Nietzsche chamava de “domesticação artística do susto” diante das catástrofes da existência e de “alívio artístico do nojo diante do absurdo”. Isso justificava a sua preferência pela arte trágica.

MISTÉRIOS DA ARTE

A origem da arte é controversa, mas a hipótese de sua relação com os primeiros rituais mágicos e re­ligiosos da humanidade tem sido uma das mais aceitas. Quanto à definição, a de póiesis talvez seja a mais antiga, abrangendo tudo o que o homem pode produzir. Contudo, no século XVIII, veio a separação entre artes mecânicas, ligadas à utilidade, e belas-artes, ligadas à beleza. Essa separação teria importante re­flexo para as sociedades industriais dos séculos seguintes, no que se refere às discussões sobre os limites que distinguem a técnica – correspondente às artes mecânicas – e a arte – correspondente às belas-artes.

CONCEITO FILOSÓFICO

A palavra técnica possui vários sentidos, entre os quais destacamos os seguintes: procedimento regido por normas para garantir a eficácia de uma atividade e forma de produção que se utiliza de máquinas. Portanto, en­contramos técnicas nos procedimentos do artista, do artesão, do cientista, do operário, entre outros. No sentido da palavra que se assemelha ao de artes mecânicas, a técnica consiste em formas de produção de bens úteis, como os que provêm da indústria.

Em busca de definições…

As dificuldades encontradas para definir a arte devem-se ao caráter essencialmente múltiplo e mutável que ela apresenta. Alguns estudiosos tentaram defini-la com base em suas relações e possíveis funções. Talvez você tenha percebido isso nas teorias dos filósofos de que tratamos ao abordar a Estética. Platão, por exemplo, destacou a função negativa de iludir; Aristóteles, a de educar percepções e emoções; os de­mais destacaram as de civilizar, moralizar, libertar ou realizar o homem. Além dessas, atribuem-se à arte, frequentemente, outras funções, como as de decorar, agradar e entreter, expressar e comunicar sentimentos.

Para que você compreenda melhor a complexidade envolvida na busca de uma definição para a arte, apre­sentaremos, a seguir, oito hipóteses defendidas no decorrer da história, segundo algumas de suas possíveis relações e funções.