Rumos da estética e novo conceito de Mímese


Ao iniciar esses estudos sobre o belo, é provável que você já possuísse uma compreensão prévia da l palavra “estética“, ligada ao seu uso mais recente e popular, ou seja, como designação de cuidados com a beleza do corpo. No entanto, ela também possui um uso filosófico, historicamente construído. Nesse contexto, falar em Estética é fazer referência à área da Filosofia responsável pelos estudos da sensibi­lidade, do belo e da arte. Afinal, esse termo vem do grego aisthésis, que pode ser traduzido por sensibilidade, experiência ou conhecimento por intermédio dos sentidos.

Para Kant – cujas ideias sobre o belo você conheceu na unidade anterior -, a Estética era uma ciência das condições de percepção pelos sentidos, às quais ele chamava de formas puras da sensibilidade. Suas investigações estéticas resultaram em uma teoria de grande relevância histórica e filosófica sobre os papéis do tempo, do espaço e da causalidade na percepção do real.

Mímese

Porém, em 1750, um intelectual chamado Baumgartem escreveu Aesthética, obra que consistia em uma análise da formação do gosto e de fenômenos ligados à experiência artística. Depois desse marco, a Estética passou a designar uma área de estudos, também conhecida como Filosofia da arte ou Ciência do belo, entre outras nomenclaturas. Desde então, as reflexões de todos os períodos sobre o belo, o gosto, a arte e as formas de representação da realidade tornaram-se atribuições dessa área da Filosofia.

polêmica estética na Grécia antiga

Hoje, chamamos poesia à manifestação artística da palavra que utiliza versos e outros recursos, mas, na Grécia Antiga, poiesis significava tudo o que pudesse ser criado pelo homem: objetos da técnica e do artesanato e também obras de arte, como pintura, música e ainda o tipo de texto literário que hoje denomi­namos poesia. Além disso, influenciada pela Teoria das Ideias de Platão, a Antiguidade grega acreditava que toda poiesis é uma mímesis (ou mimese), ou seja, uma imitação da realidade. Esse pensamento influenciou a concepção de arte por vários séculos.

O ataque platônico à mímese

A mimese não teria Lugar na cidade ideal platônico, descrita em A República. Afinal, segundo o seu idealizador, o artista imitava os objetos que não conhecia profundamente e que, por sua vez, já imitavam as ideias. Logo, as obras de arte eram imitações em terceiro grau, enganando duplamente as percepções humanas, o que Platão via como epistemologicamente indesejável. Além disso, representando meras aparências, a arte imitativa não assumia compromissos com o bem e a virtude, prestando-se a alimentar paixões e corromper a educação dos homens, o que esse filósofo julgava eticamente inaceitável. Por isso, ele considerou os pintores, os poetas e demais “imitadores” como elementos desnecessários e até perigosos à vida harmônica e virtuosa na cidade ideal.

Ameaça dos poetas

Na visão platônica, o pintor reproduzia a aparência de um objeto, o qual, por sua vez, já seria a aparência de uma ideia perfeita. Mais grave, porém, do que essa ilusão aos sentidos – produzir a aparência de uma aparência – era a corrupção trazida à sociedade pelos poetas: os cômicos, por deformarem o homem, apresentando-o de forma ridícula e estimulando posturas semelhantes no espectador; os trágicos, por oferecerem modelos de homens maus, desequilibrados ou transgressores, reagindo com desespero ao seu destino e, principalmente, por estimularem as mais violentas paixões do espectador ou fazê-lo sentir prazer diante do horror e da catástrofe. Assim, a poesia ameaçava a educação: oferecia modelos inadequados e despertava paixões extremas; tornava os homens vulneráveis, afastando-os da razão e da temperança; comprometia o caráter moderado conveniente aos que amam o bem e a virtude – pois o homem platônico deveria entregar-se ao governo da razão e não ao do prazer ou da dor. Por tudo isso, Platão expulsaria os poetas da cidade, o que hoje parece uma atitude profundamente radical, mas deve ser entendida num contexto social em que a obra mítica e poética de Homero servia aos cidadãos como uma espécie de enciclopédia incontestável sobre a história e a moral.

Defesa aristotélica da mímese

i Numa obra denominada Poética, Aristóteles falou sobre a mímese, principalmente nas poesias épica, trágica e cômica – a primeira costumava ser recitada, e as últimas costumavam ser representadas teatral­mente. Para ele, o homem imitava a realidade porque gostava de aprender, e a mímese não produzia cópias, mas obras criativas, melhorando ou piorando os modelos reais, segundo a intenção pedagógica do artista.

Ao ridicularizar os homens, por exemplo, o poeta cômico podia criticar defeitos de caráter e conduta que prejudicavam a vida na cidade, enquanto o poeta trágico apresentava homens mais fortes ou nobres do que a maioria, mas que, por um erro, que qualquer um seria capaz de cometer, seguiam um destino marcado pelo sofrimento e pela catástrofe. Assim, ele promovia intensas reflexões sobre o caráter do homem e seu destino, além de estimular a catarse, ou seja, a purificação das paixões despertadas pelo enredo, principalmente a compaixão e o temor. Para isso, o poeta trágico deveria utilizar alguns recursos e estratégias, tais como:

–    escolher cenas que destacassem os aspectos mais importantes da narrativa e entre as quais houvesse uma sequência evidente de causas e efeitos;
–    criar enredos que não representassem pessoas muito próximas do espectador, como ele mesmo ou seus familiares, nem excessivamente distantes dele, como inimigos, pessoas muito vulgares ou perfeitas;
–    incluir no caráter e no destino do herói trágico elementos universais, para que ele representasse a humanidade em geral;
–    apresentar fatos possíveis, ainda que não fossem reais;
–    cuidar para que o espectador não assistisse ao espetáculo de muito longe – o que enfraqueceria as suas emoções -, nem de muito perto da encenação, o que ser-lhe-ia repugnante ou desesperador;
–    garantir a justa medida do espetáculo: nem tão longo que a apresentação tivesse que ser interrompida e nem curto demais, pois deveria provocar emoções;
–    utilizar linguagem equilibrada, ou seja, não muito ornamentada e tampouco vulgar.

Toda essa atenção de Aristóteles à poesia e à sua forma ideal devia-se a uma valorização da mímese no contexto da educação. Ele dizia que aprendemos ao observar objetos e caracteres, tentando representá-los de um modo verossímil, ou seja, possível de se realizar. Além disso, considerava a poesia trágica mais séria e filosófica para a educação do homem do que a história, pois a primeira apresentava situações universais e possíveis, e a segunda apenas contava fatos particulares e já ocorridos. Por outro lado, acreditava que assistir à encenação da catástrofe de um personagem ajudaria o ser humano a viver com moderação paixões normalmente levadas a extremos – como a compaixão, que nos faz sofrer com o outro, e o temor, que nos paralisa diante de situações terríveis. Afinal, o espetáculo propõe uma espécie de jogo em que o espectador se identifica, mas também se separa do personagem, e percebe as emoções acontecendo, em vez de se en­tregar a elas com desespero. Assim, o prazer do espectador ao contemplar a tragédia encenada não viria do sofrimento do personagem, mas, sim, da catarse das suas próprias paixões.

CONCEITO FILOSÓFICO

O termo grego kathársis, traduzido como catarse, possui o sentido de purificação ou purgação. Relacionado ao restabelecimento do equilíbrio humano, foi utilizado nos contextos religioso e médico. Aristóteles, porém, adotou-o para designar um possível efeito da mímese nas representações trágicas: certo refinamento de emoções extremas, como a compaixão e o temor, pelo equilíbrio entre a identificação do espectador com a condição do herói represen­tado (a condição humana) e certo distanciamento em relação à circunstância que ele enfrentava no enredo (pois, nesse momento, o espectador não seria a vítima de uma situação trágica, apenas contemplaria a imagem de uma, o que poderia trazer-lhe algum aprendizado sobre a condição humana e o destino).