Conceito de Belo para Kant e Hegel


Já no século XVIII, ao refletir sobre esse tema, Immanuel Kant adotou uma nova perspectiva, apresentando a seguinte definição: belo é o que agrada universalmente, sem depender de um interesse ou de um conceito. Para esse filósofo, a beleza era um dado objetivo – presente nos próprios objetos como um atributo destes – e o gosto era a faculdade humana de julgar esse dado. Segundo ele, tais julgamentos, denominados juízos de gosto, não eram lógicos, mas estéticos, ou seja, sensíveis e subjetivos. Diferentemente dos juízos de conhecimento, os de gosto não eram teóricos, nem práticos, tampouco dependiam de conceitos: eram apenas contemplativos. Isso quer dizer que nenhum modelo ou norma poderia ser utilizado para determinar previamente o que é belo e o que não o é.

A fim de esclarecer esse ponto de vista, recorreremos ao exemplo de uma escultura. Imagine que ela seja observada por uma pessoa que conte a alguém o que viu. O conceito de escultura permitirá que o interlocutor compreenda de que ela está falando, mas não lhe revelará se a obra era bela ou não, pois essa característica não faz parte do conceito – mesmo sendo feio, tal objeto não deixaria de ser o que é. Para tecer um juízo estético, ele necessitará de uma observação pessoal. No entanto, é provável, mesmo não sendo capaz de argumentar a favor de sua posição, quem viu a escultura e julgou que era bela supôs que, ao vê-la, todos reconheceriam essa beleza. Segundo Kant, a causa dessa expectativa seria a presença do belo na própria obra como um atributo objetivo, univer­salmente percebido.

Belo para Kant e Hegel

Por outro lado, a compreensão kantiana do belo ressalta suas diferenças em relação ao agradável, ao bom e ao su­blime. A principal diferença em relação ao agradável seria o fato de buscarmos este último devido a um interesse, o que não ocorreria na busca do belo. Em relação ao bom, o fato de que este dependeria de um conceito, de um prin­cípio que teríamos o dever de respeitar, enquanto o belo seria independente de conceitos ou normas previamen­te estabelecidos.

Outro filósofo que influenciou as discussões modernas em torno da beleza foi Georg W. F. Hegel. No século XIX, ele elogiou Kant por não reduzir o belo ao agradável, mas discordou dele quanto a conferir-lhe um caráter univer­sal. Hegel definia o belo como um ideal, mas encarava as diversas opiniões dos indivíduos e povos sobre ele como resultados da evolução do espírito humano, ou seja, como uma síntese permitida pelo estágio histórico-cultural em que se encontrariam diferentes grupos de pessoas em diferentes períodos históricos e/ou regiões geográficas.

CONCEITO FILOSÓFICO

No contexto das reflexões hegelianas que estamos analisando, podemos entender espírito como atividade racional, intelecto, razão ou consciência. Para Hegel, o espírito estaria em constante progresso, por meio da supe­ração de suas formas anteriores. Ele se manifestaria na História como consciência individual, como instituições e princípios sociopolíticos e, finalmente, como Arte, Religião e Filosofia.

Hegel considerava o belo artístico superior ao belo natural, por resultar do espírito humano e manifestar–se em obras duráveis, inspiradas por um ideal e realizadas com base na imaginação do artista. Segundo ele, sendo a reprodução material de uma personalidade e seus sentimentos, uma obra de arte poderia unir e conciliar contrários, como:
–    a liberdade e a necessidade – por envolverem as possibilidades de criação e também os limites da matéria;
–    o universal e o particular – por corresponderem a um ideal, mesmo sendo elaboradas por um indivíduo, o artista;
–    o rarionaV e o sensível – devido às suas relações com o pensamento, mas também com os sentidos e sensações.

Na visão hegeliana, as obras de arte representariam de modo concreto, mas figurado – ou seja, simbólico -, aquilo que agita a alma humana, dirigindo-se aos sentidos e tocando a sensibilidade para realizar a sua maior função: despertar na humanidade o sentimento do belo.

Imagens do belo

Em diversas fases da história do pensamento, a experiência do belo foi associada ao prazer. Não se che­gou a uma definição unânime e completa da beleza; mesmo assim, ela arrasta e encanta os homens, seja na natureza, na própria aparência humana, em coisas úteis, adornos ou obras de arte. Pode ser uma experiência imediata ou ligada à imaginação.

Historicamente, filósofos, como Platão e Descartes, condenaram a faculdade de imaginar, julgando-a um obstáculo à percepção e à correta compreensão do real. Outros, porém, como Aristóteles e Kant, julgaram–na capaz de contribuir para o conhecimento, além de ser corresponsável pelo prazer na contemplação e na apreciação do belo.

Na Antiguidade, os gregos destacavam duas formas de produzir imagens da realidade: a percepção direta de um objeto sensível e a imaginação, faculdade esta que seria capaz de produzi-las sem recorrer aos sentidos, mesmo que o sujeito se encontrasse longe do objeto representado.

No Renascimento (período entre os séculos XIV e XVI) e na Modernidade (época do século XV ao XVIII), outros potenciais da imaginação foram analisados, como o de produzir a percepção de coisas nunca antes percebidas pelos sentidos. Assim, antes associada à memória como reprodução de impressões conhecidas, ela passou a ser vista como uma faculdade criadora, capaz de produzir não só imagens, mas também símbolos e novas realidades, entre as quais, as obras de arte.

E Imaginar é pensar

No decorrer da história, não houve unanimidade quanto ao valor da obra de arte, aclamada por alguns como produto do espírito humano e depreciada por outros como algo inútil, supérfluo e até mesmo enga­nador. Além disso, ganhou força em alguns meios a tese de que a arte não se dirige à razão, mas apenas à sensibilidade. No texto a seguir, essa tese é combatida. Para o seu autor, a experiência de contemplação da arte exige dois elementos: o senso, representado pelo pensamento, pela razão; e o sensível, representado pela percepção e pelo sentimento.