Resumo da República Velha: Transição para o poder civil (1894 – 1898)


O governo de Prudente de Morais

O caráter transitório desse governo, que aconteceu de 1894 a 1898, deve-se principalmente à presença de políticos florianistas que estavam próximos ao poder e também à possibilidade bastante real de um retorno dos militares ao governo. Enquanto isso, a Revolução Federalista ainda estava em andamento quando da posse do novo presidente, acrescentando razoável dose de intranquilidade ao governo.

A principal obra de Prudente de Morais deveria ser, portando, fazer o país retornar à normalidade, dentro do projeto político liberal da oligarquia cafeeira. Entre suas primeiras realizações, esteve o fim da Revolução Federalista, em agosto do ano de 1895, que na realidade, já havia perdido muito do seu vigor quando da substituição de Floriano Peixoto. Assim, a habilidade política de Prudente, anistiando os principais líderes maragatos, foi importante para o encerramento relativamente pacífico das hostilidades no Rio Grande do Sul.

o poder civil

O novo presidente procurou ainda resolver algumas questões diplomáticas pendentes desde o período imperial. Reatou relações diplomáticas com Portugal, rompidas por Floriano em 1893, em razão do aparente apoio daquele país à Revolta Armada. Em seguida, e aproveitando-se da intermediação portuguesa, tomou posse da ilha de Trindade, que alguns anos antes havia sido tomada ao Brasil pela Inglaterra. Por último, Prudente resolveu a questão das fronteiras com a Argentina, na região das Missões, por meio da intermediação do presidente Grover Cleveland, dos Estados Unidos.

A morte de Floriano Peixoto, em junho de 1895, em razão de uma violenta crise hepática, serviu para desencadear reações do grupo jacobino florianista contra o presidente. No enterro do marechal, ao qual compareceram cerca de 30 mil pessoas, os gritos de ‘Viva, Floriano!’ confundiam-se com os de ‘Morra, Prudente!’.

O período de maior agitação florianista, coincidiu com o afastamento temporário de Prudente de Morais da presidência, provocado por motivos de saúde, entre novembro de 1896 a março de 1897. Assumiu interinamente o vice-presidente, Manuel Vitorino. Adepto do florianismo, Vitorino só fora convidado a ocupar a vice-presidência para acalmar o grupo jacobino na época da eleição de Prudente.

Com o retorno do presidente, os últimos meses do governo foram gastos para colocar em prática suas principais medidas econômicas. Defendendo os interesses dos cafeicultores, sua política contrariava em tudo a tendência nacionalista e até modernizadora dos primeiros governos republicanos. As taxas alfandegarias protecionistas, que de algum modo, se mantinham desde o período de Rui Barbosa, foram bruscamente alteradas em dezembro do ano de 1897.

O conflito de Canudos

Durante o governo de Prudente de Morais, aconteceu a Guerra de Canudos, um conflito que envolveu a população sertaneja do Nordeste, principalmente da Bahia. Suas causas remontam a situação fundiária do país e ao total abandono em que se encontravam as populações mais humildes.

A uma estrutura agrária, somava-se o total descaso das elites e do governo com uma população sertaneja tão grande quanto carente. A tensão social daí resultante explodia com frequência, quase sempre em momentos de seca prolongada.

Nesses momentos, as alternativas disponíveis para a população sertaneja eram poucas. Dentre elas, a emigração, muito embora a precariedade dos meios de transporte e comunicação naquela época tornasse pouco viável. Também era uma alternativa o banditismo social, sob a forma do cangaço. Finalmente, o misticismo religioso: uma vez condenados à miséria material, os sertanejos passavam a busca apoio no imaginário espiritual, levado uma vida de devoção religiosa e exaltação mística. O misticismo religioso quase sempre se desenvolvia em torno de um líder masculino, ou seja, um líder carismático, portador de um discurso capaz de mobilizar as populações ao seu redor com promessas, por exemplo, de salvação eterna em troca das misérias terrenas.

Antônio Conselheiro, foi um dos líderes. Percorria o interior do estado do Nordeste a pé, fazendo os seus discursos e profecias, dando conselhos, proclamando a fé no Reino de Deus. Além das pregações, prestava alguma assistência à população mais pobre, erguendo ou reformando igrejas e construindo cemitérios. Seu discurso era cativante a ponto de começar a reunir seguidores, incluindo um número expressivo de cangaceiros.

Em 1896, uma expedição com cerca de 100 homens do exército foi massacrada pelos moradores de Canudos. Até outubro do ano seguinte, o governo da Bahia e, depois o governo federal enviaram sucessivas expedições, quase todas malsucedidas.

A segunda expedição contou com mais de 500 soldados, além de metralhadoras e canhões, fracassou a caminho do arraial. A expedição seguinte, composta por mais de 1300 homens trazidos do sul do país, também fracassou diante da resistência dos conselheiristas.

A quarta expedição contou com 15 mil homens trazidos de todas as partes do país. Submetidos a um intenso bombardeio e sem suprimentos, Canudos parecia estar com o destino selado. No entanto, a população do arraial continuava a crescer, aproximando-se dos 30 mil habitantes. Em 5 de outubro de 1897, o arraial foi derrotado, com os últimos defensores sendo mortos pelas tropas.