Realismo no Brasil: Machado de Assis


Contexto histórico

A Europa vivia, na segunda metade do século XIX, a chamada Revolução Industrial, com as mudanças tec­nológicas e o desenvolvimento do pensamento científico e das correntes filosóficas e sociais. Naquele período, difundiram-se o Positivismo, de Auguste Comte, o Socialismo Científico, de Karl Marx e Friedrich Engels, e o Evolucionismo, de Charles Darwin. Começava, então, uma busca por novas formas de expressão.

O Realismo teve início com a publicação em 1857 do romance Madame Bovaty, do escritor francês Gustave Flaubert; o Naturalismo, com a publicação de Thérèse Raquin, do também francês Émile Zola, e o Parnasianismo, a partir de 1866, com a publicação das antologias Parnasse contemporain.

Realismo no Brasil

O ano de 1881 é o marco inicial do Realismo no Brasil, com a publicação de dois romances fundamentais: O mulato, de Aluísio Azevedo, considerado o primeiro romance naturalista brasileiro, e Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, o primeiro romance realista da Literatura Brasileira, considerado pela crítica espe­cializada como obra-prima da literatura. O Realismo-Naturalismo surgiu no Brasil durante uma sociedade em transformação.

Na Arquitetura, os arquitetos e engenheiros procuraram se adaptar às novas necessidades urbanas, que surgiram com a industrialização. Em 1889, por exemplo, Gustavo Eiffel levantou, em Paris, a Torre Eiffel, hoje um símbolo da cidade. Na Escultura, nomes importantes foram o de Auguste Rodin e de Camile Claudel. Eles preferiam os temas contemporâneos, assumindo muitas vezes uma intenção política em suas obras.

Romance Realista

Logo após o Romantismo, houve uma redefinição social no Brasil e no mundo. Surgia, assim, na metade do século XIX, o Realismo e com ele começaram a se discutir o objetivismo, isto é, a negação da concepção romântica de mundo, o materialismo, negação de tudo que representava o sentimentalismo romântico, presente em obras, como Senhora, de José de Alencar, e a contemporaneidade, que começava a ter papel fundamental no Realismo.

Os realistas foram diretamente influenciados pela obra Filosofia da arte, de Hypolite Taine. Tinha início a ideia de se analisar o determinismo, que pressupunha a obra de arte sob o meio, o momento e a raça, o que se refere mais precisamente à hereditariedade, e o cientificismo, em especial os naturalistas.

Alguns escritores dessa época, além de serem antimonárquicos, negavam, com veemência, a burguesia a partir da célula-mãe da sociedade: a família, por isso a presença de triângulos amorosos, formados pelo marido traído, pela mulher adúltera e pelo amante.

Já o romance naturalista, diferente em alguns aspectos do realista, tinha como objetivo desenvolver uma análise sobre o ser humano sob a ótica biológica do mundo. O ser humano era exposto a uma condição semelhante a de um animal, muitas vezes irracional. Veremos isso mais adiante.

Dois nomes começavam a ser ouvidos: o inglês Charles Darwin (1809-1882) e o austríaco Sigmund Freud (1856-1939). Suas pesquisas no campo da evolução humana (Darwin) e na psicanálise (Freud) foram vitais para que o Realismo – Naturalismo ganhasse adeptos e incentivadores.

Machado de Assis

É considerado um dos mais importantes escritores brasileiros de todos os tempos, sendo autor de obras clássicas, como Memórias póstumas de Brás Cubas, Dom Casmurro, Esaú e Jacó, O alienista, Helena, Quincas Borba. Foi romancista, poeta, contista, cronista e dramaturgo, além de um dos idealizadores da Academia Brasileira de Letras, primeira instituição cultural republicana.

A obra de Machado de Assis se divide em duas fases: a primeira ele ainda está vinculado à escola romântica – fase romântica ou de amadurecimento – e a segunda já inteiramente inserido nas ideias e concepções realistas – fase realista ou de maturidade.

Recursos estilísticos na obra de Machado de Assis:

– Narrador não confiável, que ilude, provoca e descon­certa o leitor.
– Citações das mais díspares e variadas fontes: Shakespeare, Dante, Averróis, etc.
– Reflexões metalinguísticas, que fazem a crítica da linguagem e da estrutura da linguagem tradicional, e questionam o próprio processo de criação literária.

Comparações.

Duas obras de Machado de Assis merecem destaque maior: Dom Casmurro, vista anteriormente, e Memórias póstumas de Brás Cubas, que marca o início de uma segunda etapa em sua produção, pois com esta ele se revelou um exímio observador de personagens, o que lhe deu projeção internacional, sendo traduzido para diversas línguas.

Memórias póstumas de Brás Cubas

Memórias póstumas de Brás Cubas marcou o início do Realismo no Brasil. Editado em 1881, o romance é a autobiografia de Brás Cubas, protagonista narrador que, depois de morto, resolve escrever suas memórias. Em sua narrativa, Brás Cubas narra seu amor por Marcela, uma prostituta de luxo, que tem grande interesse no dinheiro da família de Brás Cubas. Para acabar com esse romance, ele é enviado por seu pai à Europa, de onde volta doutor.

Depois de um namoro com Eugenia, uma moça pobre e com um leve defeito em uma das pernas, Brás Cubas resolve ficar noivo de Virgília, cujo pai poderia lhe oferecer a almejada carreira política. Mas Virgília acaba se casando com Lobo Neves, também candidato a uma carreira política. Um tempo depois, Brás Cubas e Virgília tornam-se amantes. Mais tarde, os dois resolvem se separar. Brás Cubas após algum tempo reencontra o amigo Quincas Borba, que lhe expõe a filosofia do Humanitismo. Quincas Borba enlouquece.

O Humanitismo, criado pelo personagem Quincas Borba, surge em dois romances de Machado de Assis: Memórias póstumas de Brás Cubas e Quincas Borba. Quincas Borba procurava ironizar as teorias filosóficas que vigoravam em sua época, como o Positivismo, de Auguste Comte (1798-1857), e o Determinismo, de Hippolyte Taine (1828-1893).

Brás Cubas então pensa em produzir um remédio, o emplastro. Ironicamente, após ter se molhado devido a uma chuva, Brás Cubas morre de pneumonia. O Humanitismo, sistema filosófico do personagem Quincas Borba que Machado de Assis criou para satirizar o Darwinismo e o Positivismo de seu tempo, antecipa certos temas-chaves das vanguardas literárias do século XX e do Manifesto Antropófago, de Oswald de Andrade.