Licença Poética


É muito provável que em algum momento de sua vida escolar ou acadêmica você já tenha tido contato com o conceito de gênero textual (ou gênero discursivo). Se você não teve, sem problemas, pois te explicaremos brevemente. Os gêneros textuais são estruturas pré-definidas, mas extremamente maleáveis que usamos nas mais diversas atividades de nossa vida para nos comunicarmos, ou seja, tudo aquilo que falamos, escrevermos e lemos se encaixa em determinado gênero textual. Como exemplo, podemos citar dois gêneros textuais opostos: uma receita de bolo e uma conversa via Whatsapp.

Licença Poética

Uma receita de bolo tem como objetivo principal instruir o leitor a fazer um bolo de modo correto. Para tanto, nela está escrito os ingredientes a quantidade de cada um, qual processo deve ser feito primeiro (misturar a manteiga com o açúcar, peneirar a farinha de trigo, etc.), como fazer o processo (bater na batedeira, misturar delicadamente), quanto tempo deixar no forno, entre outros. Além disso, uma receita geralmente é escrita. Todas essas características (e mais algumas) definem o gênero receita.

Já a conversa via Whatsapp não tem como objetivo instruir, mas sim contar fatos e acontecimentos. Ela também é escrita, mas o estilo da linguagem é outro: há o uso de abreviações, muitas pontuações são omitidas, muitas vezes os fatos são lançados de maneira irregular, isto é, sem ordem lógica definida (pois seu interlocutor provavelmente sabe do que você está contando, etc).

Como o conhecimento aprofundado em gêneros textuais, percebemos que alguns deles possuem traços em comum. Os gêneros artísticos (pertencentes à literatura, ao cinema, à televisão, à propaganda) muitas vezes se utilizam de um recurso para comunicar à mensagem que desejam passar: a licença poética. Mas o que é a licença poética? É isso que iremos descobrir.

Desvendando o conceito

Se você procurar pela definição de licença poética no dicionário, encontrará algo parecido com “incorreção de linguagem permitida na poesia” ou “liberdade tomada pelo poeta ao transgredir regras poéticas ou gramaticais”. Ambas as definições estão corretas, apesar de estarem incompletas.

O primeiro motivo para esta incompletude está na figura que faz uso da licença poética. Apesar de seu nome e apesar das definições acima, não é só o poeta que pode e faz uso da linguagem poética. Escritores de novela, redatores de agência de publicidade, romancistas, compositores, roteiristas e todos os demais profissionais que trabalham com a construção de histórias, sejam elas reais ou fictícias, fazem uso deste recurso linguístico.

Já o segundo motivo se encontra na natureza desta “manobra” linguística, já que ela vai muito além da infração de regras gramaticais ou poéticas. Por exemplo, quando estamos assistindo uma novela e nela há um núcleo de pessoas de outro país, como Índia ou China, mas surpreendentemente, todos os integrantes deste núcleo, mesmo sendo estrangeiros, eles falam português perfeitamente. Este é um caso de licença poética, é pode ser usado devido ao público que possuí contato com o gênero: os telespectadores são muito variados entre si, portanto, os atores do referido núcleo falando na língua do país em que a novela se passa ficaria e com legenda, faria com muitas pessoas deixassem de assistir a novela por não conseguir acompanhar a velocidade da legenda.

Exemplos de uso

Por ser um conceito muito amplo e um pouco abstrato, a melhor maneira de entendê-lo é analisando alguns exemplos. Como já dito, há alguns gêneros textuais que facilitam ou são mais propensos ao uso da metáfora. Vamos então analisar um poema.

“Quando bati na porta do coração dele
Um eco vazio ecoou pelo ambiente
Um frio me subiu à espinha
Então ali percebi que o coração estava vazio”

Neste poema podemos perceber a licença poética utilizada logo no primeiro verso. Coração não tem porta, mas essa licença poética é utilizada para demonstrar que a personagem que narra queria fazer parte da vida dele. Há também uma licença poética em coração vazio. O coração, como um órgão do corpo, está repleto de sangue, veias, artérias e músculos. No entanto, no poema “coração vazio” significa que ele não está aberto para o amor.

Outro gênero que permite a licença poética é a música. Vamos imaginar que o trecho abaixo faz parte de uma composição:

“Me perdi no universo
Que havia em seu olhos (…)”

Nesta composição, quando o narrador fala que se perdeu, podemos entender que ele perdeu sua ciência, pois ficou fascinado pelos olhos que encarava. Além do mais, não existe universo nos olhos, mas sim somente aqueles que contêm as galáxias. Dessa maneira, universo dos olhos é utilizado para designar o “eu interior” da personagem narrada.

24. Ignácio Loyola Brandão

Este romance é bastante interessante pois há uma subversão da ordem narrativa, ou seja, ao invés de se iniciar pelo começo, a narrativa se inicia pelo fim, causando surpresa no leitor. Este é um bom exemplo de licença poética que não se baseia somente gramática ou na poética, mas também na própria lógica temporal dos fatos narrados.

Como afirmamos no começo deste artigo, a licença poética é uma manobra linguística válida para diversos gêneros textuais, devido, sobretudo ao seu poder narrativo, que permite contar aquilo que se deseja da forma julgada mais adequada pelo autor(a).