Nível da manifestação


O nível de manifestação diz respeito aos recursos visuais, fonéticos, sintáticos e gestuais, isto é, os elementos que estão na superfície do texto. A análise desses recursos permite estabelecer relações entre forma e conteúdo, entre o visível e o invisível. É preciso saber, por exemplo, que significado assume, no nível mais profundo do texto, uma oposição claro e escuro, um excesso de formas retas, moles; que sentido oculta um primeiro plano ou uma perspectiva.

O texto apresenta dois grandes níveis: nível do conteúdo e nível da expressão (ou da manifestação). No primeiro, a enunciação explora relações de sentido, no segundo, explora, dependendo da linguagem (visual, verbal, etc.), recursos gráficos, visuais, fonéticos, sintáticos, gestuais, isto é, elementos que estão na superfície dos textos. O estudo do signo tem por finalidade esclarecer, de forma mais objetiva, as relações entre a forma e o conteúdo, entre o significante e o significado.

manifestação

Fora da sociedade, os signos não existem. O signo é uma convenção dos homens; o que é um sistema de signos, linguagem em uma sociedade, pode não ser em outra. A fumaça pode vir a ser linguagem, código, sistema de signos se naquela tribo for uma mensagem decodificável. Duas pancadas fortes e uma pancada fraca poderão se tornar um sistema de signos se em uma prisão for um meio de comunicação para se transmitir uma mensagem; nesse caso, os sons decorrentes da pancada serão o significante, o qual se associa a um significado (por exemplo, o carcereiro não está no corredor). A própria leitura dos objetos varia de sociedade para sociedade, uma cadeira pode virar ornamento em uma sociedade indígena. Seja como for, cadeira para sentar ou cadeira para ornar, é preciso que haja uma sociedade para que essa leitura exista.

O signo verbal

O signo verbal é uma aproximação entre significante e significado na linguagem verbal. Há determinados textos em que o significante assume o primeiro plano.

O signo visual

Perspectiva: o uso da perspectiva está vinculado à ideia de algo infinito, prolongado, ilimitado, algo a ser conquistado ou percorrido. A perspectiva faz com que o contínuo não tenha fim, como se não houvesse o descontínuo.

O primeiro plano: este é um recurso enfático, um efeito de aproximação. Ao colocar em primeiro plano um objeto ou um ser, o enunciador faz com que o olhar do enunciatário se dirija a esse ser, colocando-o como foco principal. No teatro, a colocação de um ator na frente dos demais; na linguagem verbal é a topicalização de um termo da oração.

O close: este efeito cria uma aproximação, todavia o objetivo é o detalhe, as particularidades. O close chama a atenção da parte, a parte pelo todo. Na estilística, a figura de linguagem que apresenta essa relação é a sinédoque, um tipo de metonímia.

O dinâmico e o estático: o dinâmico se associa invariavelmente à ideia de aventura, de paixão, de jovialidade, de emoção. O movimento sugere também a progressão temporal, ação em processo. O estático, por sua vez, remete à ausência do progresso temporal, ao retrato, ao descritivo. A estacidade visual permite uma atenção maior ao detalhe.

A superatividade, a inferatividade, a lateralidade: a superatividade pode se relacionar ao poder, à espiritualidade, enfim, àquilo que denota superioridade em algum nível. Por oposição, a inferatividade se associa muito mais às coisas terrenas, ao aspecto carnal, material ou àquilo que indica inferioridade em algum nível. Quanto à lateralidade, pode indicar algo à margem do processo, algo que não constitua o centro das atenções, secundário (há exceções).

O áspero e o liso: a superfície áspera remete ao rudimentar, ao primitivo; a algo que não tenha passado totalmente pelas mãos do homem. Há o efeito do primitivo. O atrito que ela provoca traz dificuldade de movimento, há o obstáculo. A natureza possui aspereza, bem como seu contrário, a superfície lisa. O liso está associado ao escorregadio, ao movimento, à leveza, ao feminino. O liso pode ser o resultado de uma tecnologia.

As formas moles e as formas duras: as formas moles transmitem suavidade, lentidão e movimento; parecem adaptáveis a qualquer superfície e podem sugerir certa subjetividade. As formas duras dão ao texto uma ideia de solidez, racionalidade e materialidade.

O reto e o curso: as formas retas podem imprimir ao texto modernidade, rigidez, virilidade. As formas curvas podem estar ligadas àquilo que é antigo, suave e feminino. Elas também estão associadas ao religioso e àquilo que é pomposo, com muita ornamentação.

O aberto e o fechado: as formas abertas sugerem um espaço não delimitado, um contínuo efeito de sentido de liberdade, de espaço a ser percorrido, de possibilidade de movimento. As formas fechadas remetem a um espaço descontínuo, mais concentrado. O fechado pode estar ligado à intimidade, ao secreto, ao oculto ou até mesmo à falta de liberdade.

Desfiguravitização e o figural: a desfigurativização pode ser entendida como uma procura da essência, de um estado em que a significação ainda não seja possível, um estado anterior ao signo. Por isso difícil de interpretar. A natureza está repleta de formas que consideramos abstratas e sem sentido em uma pintura moderna. O leitor teria dificuldade em discernir uma foto de explosão de estrelas de um quadro abstracionista. As formas que habitam o universo também habitam as telas, a distância que separa a ciência da arte é pequena, às vezes, invisível. O abstracionista está comprometido com o figural, com aquilo que particulariza cada ser neste mundo, ou seja, sua essência. Teremos uma essência da cadeira, do sol, do amor.

O estranhamento: ocorre na arte moderna quando a enunciação resolve dar outra função ao ser, diferente daquela por que é conhecida. Provoca-se um efeito de sentido.