Educação e Socialização Primária


Dirigindo, o motorista espera que, estando o sinal verde, ele possa seguir sem que outro motorista venha pela transversal e o atinja, provocando um acidente. Se não fosse possível ter essa expectativa, como seria o trânsito? Assim, é a vida social. Agimos em função da expectativa que temos diante de os outros seguirem as mesmas regras que nós.

Aprendemos, desde muito cedo, que algumas atitudes são socialmente aceitas e outras não. Esse processo de entendimento de normas, valores e comportamentos, denominado educação, implica o aprendizado de condutas sociais consideradas adequadas aos valores da civilização. Dai a expressão “comportamento civilizado”, que não quer dizer apenas que o indivíduo é polido, cortês, fino, mas que tem uma atitude adequada às regras próprias da cultura em que está inserido.

Socialização Primária

Quando crianças, muitas vezes perguntamo-nos ou questionamos nossos pais a respeito da razão por que devemos seguir determinadas normas, obedecer a certas regras e cumprir tantas obrigações.

Toda sociedade, para se constituir, depende da existência e do cumprimento de normas, regras e padrões de conduta, que devem ser regulares (isto é, não podem mudar todo dia), ser socialmente aceitos e resultar de um acordo mútuo. Mesmo quando esse acordo, esse “contrato” não é explícito, a ideia de que existe um pacto entre os indivíduos é o que está na origem, no princípio da vida civilizada.

Padrões de comportamento não são universais (válidos para todas as sociedades) nem naturais (conforme a natureza “humana”). Eles variam no tempo. São, portanto, históricos. E estão de acordo com a Geografia, isto é, em cada lugar do mundo, em cada sociedade ou civilização há comporta­mentos válidos e inválidos, positivos e negativos, aceitáveis ou não.

Toda sociedade possui seus códigos de conduta – mesmo que sejam muito diferentes entre si. Moderna ou tradicional, simples ou complexa, oriental ou ocidental, os padrões de comportamento das sociedades são impostos. Eles são uma precondição para a participação na vida social. Se as regras da vida social não forem seguidas minimamente, corre-se o grande risco de ser punido, re­preendido ou até mesmo excluído do grupo a que se pertença.

Nesta primeira unidade, discutiremos exclusivamente a socialização primária – etapa de forma­ção do ser social que acontece ainda na infância. É a absorção das regras mais básicas que garante o sentimento de pertencimento ao grupo social. Essa etapa é fundamental na biografia de um indivíduo, porque o torna capaz de identificar a si e aos outros como parte de um círculo comum de convivência.

Educação além da escola

Do ponto de vista da Sociologia, a educação não consiste apenas na assimilação, por meio do sistema escolar, de conhecimentos formais (como a Trigonometria, a Mecânica, a História da África, etc.). A educação compreende também a assimilação de hábitos que foram trabalhados com muito empenho no decorrer dos pri­meiros anos da infância, mesmo que pareçam, na juventude e na vida adulta, imperceptíveis, naturais e eternos. As maneiras como as pessoas se sentam, comem, expressam seu afeto são produto de um longo trabalho de educação.

Todavia, é importante notar que, levando-se em conta uma base de valores sociais comuns com os quais todos estão de acordo, cada grupo social ou mesmo cada geração cultiva, reproduz e renova, por meio de numerosos mecanismos, hábitos correspondentes à sua visão particular de mundo e à sua posição no espaço social.

A Sociologia sustenta (e comprova por meio de inúmeras pesquisas) que cada pessoa é o resultado médio do grupo social em que vive. Isso envolve uma série de determinantes relacionados a gênero, idade, cor da pele e classe social. Portanto, ainda que a pessoa faça muitas escolhas individuais (o gênero musical de que mais gosta, a opção por um estilo de roupa e de corte de cabelo, o modo característico de falar, etc.) ela é, em essência, produto da sociedade. Foi burilada para expressar valores e cultivar hábitos que já existiam antes mesmo de nascer e que, portanto, são alheios à sua existência e aos seus desejos. As formas de agir, sentir e pensar são, por isso, externas aos indivíduos e internalizadas por meio de um longo e complexo trabalho educativo.

Assim, a ação educativa, antes de instruir e transmitir con­teúdos, conhecimentos, visa impor valores e hábitos da sociedade em que vivemos, que, rigorosamente, se encontram fora de nós.

Socialização Primária

No processo de internalização de comporta­mentos, códigos e modos, o primeiro protagonista é a família. Os pais transmitem à criança os códigos linguísticos, expressões de afeto, modos adequados de agir, vestir-se, comer, etc. São eles que também Lhes ensinam não só as boas maneiras, mas convenções sociais, como, em nossa cultura, usar talheres para comer em vez de comer com as mãos.

Um tipo de família não é mais “certo” do que o outro, embora pos­sam ser bons ou maus para os indivíduos que fazem parte de uma dada estrutura familiar. O Lugar da mulher, por exemplo, pode ser subordinado e acessório ao marido ou dominante e decisivo na hierarquia familiar. Enfim, padrões familiares são específicos a uma dada civilização.
Para termos uma ideia dessas variações, recorreremos às des­crições de B. Malinowski (1884-1942), um importante antropólogo europeu do início do século XX que, entre os anos de 1914 e 1918, viveu e descreveu a vida social dos habitantes de um conjunto de ilhas da Nova Guiné, as ilhas Trobriand.

Ele mostrou que, entre os trobriandeses, a mulher, ainda que casada, era mantida sob os cuidados do irmão mais velho. O mesmo acontecia com seus filhos que eram protegidos e sustentados pelo tio materno (e não pelo pai biológico).

Entretanto, não é preciso viajar para algum arquipélago distante para observar diferenças significativas no sistema de parentesco. Considerando a sociedade e o tempo, também é possível constatar variações na organização familiar entre as diferentes classes sociais e entre os grupos étnicos e religiosos.

Nesse sentido, o papel da família no processo de socialização, ainda que sempre importante, é variável. De­pende de condições históricas, culturais, econômicas, políticas e sociais de cada grupo avaliado.

Controle Social

Na etapa da socialização primária, a transmissão de valores às crianças ocorre por meio de uma série de mecanismos, que vão das punições às premiações.

Nas sociedades contemporâneas, o processo de socialização da criança é compartilhado, isto é, dividido entre escola e família. A vida escolar inicia-se cada vez mais cedo e dura cada vez mais tempo. Uma alteração promovida no Ensino Fundamental, em 2006, regulamentou a entrada das crianças na escola já aos seis anos de idade. A partir de então, esse estágio passou a durar nove anos e não mais oito. Qual a consequência disso para a nossa discussão?

A experiência escolar contemporânea permite que crianças estabeleçam relações sociais intensas fora do círculo familiar. Por vezes, elas passam o dia inteiro na creche ou na escola e travam mais contato com os professores e colegas do que com pais e irmãos. A escola vai, então, assumindo uma responsabilidade maior em relação à educação – no sentido amplo que estamos dando a esse termo – e se constituindo, progressivamente, em uma das instituições sociais mais fundamentais da vida contemporânea.

O ingresso na adolescência demarca o momento em que crianças e jovens começam a estabelecer relações de amizade e afinidade mais decisivas e mais duradouras. No grupo de amigos, os jovens desenvolvem sentimentos de pertencimento a uma comunidade. Portanto, compartilham maneiras de ver, sentir e exprimir o mundo, que se manifestam nos gostos musicais, nas roupas e nos adornos, nas leituras, nos heróis e ídolos, etc.