Sociologia da Modernização


O que podemos entender, do ponto de vista socioló­gico, por modernização? Sinteticamente, o termo expressa um processo de mudança econômica, política, social e cultural que ocorre em países da periferia do sistema capitalista, ou subdesenvolvidos, à medida que esses países se direcionam para padrões mais complexos de organização social e política. Em geral, tais padrões têm como referência as experiências europeia e estadunidense. Tomam-se como modelos os processos de democratização, urbanização, industrialização da França, EUA, Inglaterra, Alemanha, etc.

As teorias da modernização, sobretudo as desen­volvidas nos Estados Unidos após a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), partem da referência, implícita ou explícita, a uma dicotomia entre dois tipos ideais de sociedade: a sociedade tradicional (ou rural, atrasada, subdesenvolvida) e a sociedade moderna (ou urbana, desenvolvida, industrial). Enquanto algumas teorias enfatizam a importância de fatores endógenos no processo de modernização, isto é, o entendem como integrado à estrutura social da sociedade e dependente dela, outras enfatizam fatores exógenos, isto é, externos, tais como: transferência de valores, tecnologias, especializações e formas de organização social das nações ociden­tais avançadas para as nações pobres. De qualquer forma, supõe-se que as sociedades tradicionais sigam o mesmo padrão de mudança por que passaram antes as nações desenvolvidas.

Modernização

Essa teoria foi, e tem sido, criticada nas Ciências Sociais por não possuir uma perspectiva histórica, isto é, por pressupor, sem contudo demonstrar, que o subdesenvolvimento seja uma situação original universal ou que todas as sociedades tenham que passar, necessariamente, pelos mesmos processos e pelas mesmas etapas para alcançar o desenvolvimento.

Como a Sociologia brasileira analisou o processo de modernização? Houve diferenças significativas entre o que se verificou no Brasil em outras nações? Como entender que, a despeito do nosso enorme progresso, as desi­gualdades sociais sejam aqui tão profundas e tão persistentes?

Na Sociologia feita no Brasil, há diversos autores que formulam a tese segundo a qual nosso processo de moder­nização se deu de forma incompleta, isto é, mantendo antigas estruturas políticas e sociais do passado e repetindo padrões de desigualdade social. Daí ser comum no nosso pensamento sociológico a ideia de que o Brasil sofreu um processo de modernização conservadora. O que entender por esse conceito? Segundo o cientista político e soció­logo estadunidense Barrington Moore Jr., (1913-2005), o grande exemplo de modernização conservadora ocorreu na Alemanha, no final do século XIX. Naquele país, a transição entre o mundo feudal e o mundo moderno, assim como o processo de industrialização e unificação nacional, se deu a partir do controle de uma camada aristocrática, os junkers, grandes proprietários territoriais que mantiveram intactas relações de origem feudal no campo. Tal fenômeno é radicalmente diferente do que aconteceu, por exemplo, com a Revolução Francesa de 1789, que promoveu uma grande ruptura com o Antigo Regime (ver Conceito socio­lógico no final desta unidade) e destruiu relações feudais e privilégios aristocráticos.

No Brasil, os grandes proprietários de terra, existentes desde o período colonial, continuaram orientando a política regional durante o Império e, ao conseguirem expandir a lavoura cafeeira, particularmente na Região Sudeste, deram impulso à industrialização. Nossa oligarquia agrá­ria também se fez presente nas fileiras do movimento repu­blicano: ao final do século XIX, com o governo de Campos Sales (1841-1913), a República Velha (1889-1930), também conhecida como República Oligárquica, se firmou por meio da Política dos Governadores. A República Oligárquica se baseava no pacto entre o governo central, os representantes oligárquicos dos estados e os coronéis nos municípios. É esse aspecto contraditório da nossa transição à modernidade (ver Conceito sociológico no final desta unidade), isto é, a existência de um importante progresso econômico ao lado da persistência dos mecanismos sociais de exclusão e das estruturas políticas de dominação, que será analisado por alguns sociólogos e historiadores como exemplo da forma específica de nossa modernização conservadora.

Estrada de ferro: símbolo do progresso no século XIX

As estradas de ferro tiveram uma importância fundamental para o processo de modernização capitalista, sobretudo nos países europeus. Com elas, houve também o crescimento de outros ramos da indústria, tanto de forma direta, com a mineração (extração de ferro), a produção siderúrgica (fabricação de trilhos) e a produção de máquinas e motores; quanto indireta, incidindo desde a tecelagem até a construção civil. Sem falar do aspecto essencial do barateamento dos transportes de mercadorias e pessoas. Na Inglaterra, por exemplo, a construção ferroviária e a exportação de sua tecnologia ao redor do mundo foi o maior estímulo à extração mineira de carvão e a base da própria industrialização pesada. A indústria ferroviária também forçou a transformação do padrão de gerenciamento empresarial. A formação de sociedades anónimas (as S/As), e não mais a empresa individual de base familiar, foi o que permitiu a concentração de quantidades exorbitantes de capitais nas mãos de poucos indivíduos. As ferrovias também estão na base do capital financeiro, isto é, dos bancos e do mercado de ações. Em suma, durante o século XIX, na Europa e em vários países subdesenvolvidos, entre eles o Brasil, a expansão ferroviária foi a alavanca do processo de modernização capitalista. Não foi difícil, portanto, fazer da ferrovia o símbolo do progresso e a esperança da superação do atraso. No caso brasileiro, esse mesmo símbolo foi incorporado à lavoura cafeeira e imprimiu nova dinâmica às regiões cafeicultoras.

CONCEITO SOCIOLÓGICO

Antigo Regime: o termo original em francês, L’Anden Regime, era o regime de governo que existia na França antes da Revolução de 1789. Entretanto, quando interpretado à luz da Sociologia da modernização, é possível referir-se ao Antigo Regime também como um amplo sistema social e político de caráter aristocrático, baseado em privilégios de nascimento e pelo domínio hereditário da terra, símbolo de distinção. Assim, a ideia de que a modernidade se opõe ao Antigo Regime significa que os indivíduos deixam de ser reconhecidos apenas por seus privilégios e passam a ser admitidos em razão de sua competência e escolaridade, independentemente de suas origens.

Democracia racial: segundo essa teoria, as relações raciais no Brasil seriam harmônicas. Diferentemente de outros países, como os Estados Unidos, em que há uma hostilidade explícita entre raças, o Brasil teria se livrado do racismo e da discriminação racial e, assim sendo, aqui não haveria qualquer tipo de preterimento baseado na “raça”.

Identidade nacional: conceito que surge no século XIX, expressando o sentimento compartilhado de pertencimento a um país. Contemporaneamente, atribui-se à noção de identidade nacional a ideia de uma comunidade imaginada, ou seja, a nação entendida como uma entidade capaz de expressar um conjunto de valores e ideais. A identidade nacional difere do nacionalismo, movimento político que visava subordinar outras identidades possíveis (religiões, crenças, origens étnicas, etc.) a um projeto mais amplo.

Modernidade: podemos entender a modernidade como uma visão de mundo ou ideário moderno, relacionado às grandes rupturas sociais, culturais e políticas expressas por processos, como Reforma Protestante, Iluminismo, Revolução Francesa, Revolução Industrial e expansão do sistema capitalista. Em suma, processos que culminaram com a ruptura do padrão de vida de sociedades tradicionais, de base camponesa, bem como relacionadas com o Antigo Regime.