As enfermidades de Aleijadinho e sua arte barroca


Aleijadinho é um dos maiores escultores brasileiros, um ícone artístico do período colonial. Suas obras estão espalhadas em várias cidades mineiras, sendo que Ouro Preto concentra a maior parte do acervo. Os Doze Profetas e os Seis Passos da Paixão de Cristo são as obras mais significativas do Mestre Aleijadinho. Juntas, formam um conjunto de 66 estátuas.
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Antônio Francisco Lisboa, o Mestre Aleijadinho, nasceu em 1738, em Cachoeira do Campo, um distrito de Ouro Preto, em Minas Gerais. É um marco da história da arte brasileira. Tornou-se mundialmente conhecido não apenas pela grandiosidade de suas obras, mas pelas enfermidades diagnosticadas em 1777, que o acometeram até o fim da vida.

Até hoje, não há uma conclusão sobre as doenças que afetaram o artista. Ainda com todas as dificuldades e limitações impostas pelas deformações do corpo, Aleijadinho manteve sua produtividade artística. As enfermidades de Aleijadinho representam um marco que divide a trajetória artística, antes e depois das doenças.

Aleijadinho é fruto da relação do arquiteto português Manoel Francisco da Costa Lisboa com uma escrava, Izabel, que pertencia a seu próprio pai, mas que que teria sido alforriada. Por não ter sido gerado em casamento legítimo nem reconhecido como filho, Aleijadinho não teve direito à herança deixada pelo pai. O próprio Aleijadinho também teve um filho, batizado como nome de seu pai, Manoel, com Narcisa Rodrigues Conceição, uma escrava alforriada.

A maior parte do acervo artístico de Aleijadinho encontra-se em Ouro Preto. No entanto, uma de suas obras mais importantes, Os Doze Profetas e os Seis Passos da Paixão de Cristo, estão no Santuário do Bom Jesus do Matosinhos, na cidade de Congonhas (MG). A Igreja de São Francisco é outro ícone da produção artística de Aleijadinho.

A Ordem Terceira de São Francisco de Assis da Penitência, que levou mais de 20 anos para ficar pronta, é outra obra importante do Mestre Aleijadinho. Além de Matosinhos, há várias obras de Aleijadinho nas cidades mineiras de Tiradentes, São João Del Rei, Sabará, Mariana, Caeté, Felixlândia, Barão de Cocais e também no Palácio dos Bandeirantes, na capital paulista.

Aleijadinho mantinha várias oficinas com artesãos e aprendizes

Aleijadinho não trabalhava sozinho. Na época, ele tinha oficinas, nas quais trabalhavam artesãos e aprendizes. Aleijadinho ditava as técnicas e materiais a serem utilizados e seus funcionários seguiam à risca os projetos. O próprio irmão, Felix Antônio Lisboa, que era padre, executou vários serviços para o Mestre Aleijadinho.

Com esse trabalho, o artista conseguiu ter uma vida relativamente confortável, mesmo sem ter recebido parte da herança deixada pelo pai. Graças a esse sistema de trabalho, Aleijadinho conseguiu produzir muitas obras, o que não teria sido possível se tivesse que trabalhar sozinho, com tantas deformidades nas mãos e outras partes do corpo.

Aleijadinho, pela qualidade de suas obras, foi um artista bastante requisitado por duas irmandades importantes daquela época, carmelitas e franciscanos. Ao contrário de tantos artistas, Aleijadinho soube dar valor a suas obras, cobrando preços que considerava justos para seu trabalho.

A produção artística de Aleijadinho, antes das doenças, era mais suave e clara. No entanto, com o avanço das enfermidades que o atacavam, o artista modificou seu estilo, que passou a ter características góticas e expressionistas.

Para continuar a esculpir, Aleijadinho amarrava nas mãos, que já não tinham dedos, os instrumentos necessários para talhar a matéria-prima. Costumava usar chapéu, roupas largas e preferia trabalhar à noite para evitar os olhares sobre seu corpo deformado.

Os Doze Profetas esculpidos em pedra-sabão são um exemplo dessa fase artística, marcada pelas dores e deformidades. As estátuas, inclusive, possuem marcas similares às deformações do corpo de Aleijadinho. Alguns pesquisadores interpretam essas marcas como falhas do trabalho de artesãos e aprendizes que auxiliavam o mestre. Outros entendem que se trata de um manifesto contra governantes da época.

Outros talentos de Aleijadinho

Aleijadinho é mais conhecido por suas esculturas barrocas. Porém, ele também trabalhou como arquiteto, marceneiro e entalhador. Madeira e pedra-sabão eram as matérias-primas mais usadas para esculpir suas obras. Entre as obras de marcenaria executadas por Aleijadinho destacam-se os oratórios, que estão no Museu do Pilar de Ouro Preto e Inconfidência; o trono episcopal e cadeiras, expostas no Museu da Arte Sacra de Mariana. Aleijadinho também é o autor dos entalhes feitos nos altares das igrejas São Francisco de Assis, Nossa Senhora do Pilar e São João Del Rei. Aleijadinho também fez o entalhamento de portais de igrejas, em Minas Gerais, utilizando a pedra-sabão.

Não há certeza sobre a autoria das obras atribuídas a Aleijadinho, uma vez que, naquela época, muitos artistas não assinavam todas as obras. Além disso, ele trabalhava com uma equipe de artesãos e aprendizes. As principais fontes de informação são os contratos existentes, firmados entre o artista e as irmandades que contratavam seus serviços.

No dia 18 de novembro de 1814, Aleijadinho faleceu. O corpo do Mestre Aleijadinho está sepultado no altar da Confraria de Nossa Senhora de Boa Morte, na Igreja Matriz de Antônio Dias.